segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Namorar e dançar ao som de Seu Jorge

O Carnaval do Campo Pequeno
Concerto em Lisboa


Seu Jorge esteve em Lisboa no passado dia 9, para um concerto no Campo Pequeno, trazendo o álbum “América Brasil” e apenas um novo tema, mas muita festa, consciência social e carnaval.

Seu Jorge entrou em palco meio desconexo com o público, e até com a banda. O espectáculo começou com “América do Norte”, “Samba Rock”, “Trabalhador Brasileiro”, “Chega no Suingue” e “Carolina”. Consigo estavam 14 músicos, que proporcionavam acompanhamento nas percussões, trompetes, saxofones, violinos e harmónicas, mas o concerto pareceu levar algum tempo a entrar no ritmo certo, até porque houve dois momentos de quebra, apesar do romantismo inegável de um deles.
Seu Jorge serviu de “santo casamenteiro”, quando chamou ao palco um fã que lhe tinha enviado um e-mail e que pediu em casamento uma rapariga chamada Ana. Juntos beberam champanhe, com Seu Jorge, e perante uma plateia que aplaudia o gesto. Seguiu-se “Seu Olhar”, em jeito de celebração e logo depois foi a vez do trio Preto, um trio de percussão, que para quem já tinha visto o concerto do Coliseu era algo repetido e que não ajudou a entrar na engrenagem. Seu Jorge conectou com o universo e com o público quando entrou em palco para tocar só com o seu violão, na fase mais intimista do espectáculo, as versões de David Bowie de “Life on Mars” e “Rebel Rebel”, seguidos de “Zé do Caroço” de Leci Brandão. O momento alto do concerto foi quando Seu Jorge se entregou ao discurso que estará certamente mais próximo da sua verdade, expressando as suas preocupações sociais, recitando “Nego Drama”, dos Racionais MC’s.
A banda voltou a entrar para continuar com “É isso aí” e ainda “Pessoal Particular”, a canção nova que já está a passar nas rádios brasileiras, sob a declaração prévia do músico: “É bom namorar”. Seu Jorge acabou por se soltar e fazer a plateia dançar, tendo passado pelos temas “Mina do Condomínio”, “Mangueira”, o tema “A Namorada”, de Carlinhos Brown.
No primeiro encore foi possível ouvir “Burguesinha”, “Mania de Peitão”, Chatterton, “Sossego” de Tim Maia e São Gonça. No segundo encore a festa estava feita e Seu Jorge lançou o carnaval em Lisboa, com um medley em que se dançou uma série de marchas de carnaval, como “Mamãe eu quero” e “Cachaça”.
O músico brasileiro veio para um concerto em que as novidades foram bastante reduzidas, mas marcou pontos com a sua capacidade de fazer o público relaxar, dançar e namorar.

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado Jornal Semanário (16-10-2009)

A mudança pela verdade

Ifigénia na Táurida
Teatro da Cornucópia









“Ifigénia na Táurida” é um texto de Goethe, de 1787, com recriação poética de Frederico Lourenço, que serviu de abertura da temporada 2009/2010 do Teatro da Cornucópia. Com encenação de Luís Miguel Cintra e Beatriz Batarda como protagonista, este é um espectáculo que vive de um grande texto e da intensidade do trabalho da actriz.

O Teatro da Cornucópia tem esta imagem de associação a grandes textos que marcaram a história do teatro de uma forma geral. O teatro alemão do Romantismo e do pré-Romantismo já tinha sido, aliás, abordado pela companhia, pela sua importância para a História da Cultura Ocidental. Depois da encenação da recriação de “Don Carlos” de Schiller, contemporâneo de Goethe, assinada por Frederico Lourenço, o próprio parte para a recriação da “Ifigénia”.
Este é um texto que data do final do século XVIII, um período marcado por grandes transformações políticas e culturais no continente europeu, em que Goethe ressuscita da cultura grega da Antiguidade a história de Ifigénia. E esta transformação é bem presente no texto, em que se apresenta um caminho até à revelação da natureza humana, que é a revelação de cada indivíduo a si próprio. O trajecto de mudança só é possível através da verdade, amor à verdade.
Ifigénia (Beatriz Batarda) é filha de Agamémnon e Clitemnestra. O pai queria oferecê-la a um sacríficio, mas a deusa Diana salvou-a da morte e a partir daí ela passou a viver agradecida, como sacerdotisa de Diana, tendo sido trazida para a Táurida, onde viveu longos anos. O rei Toas (Luís Miguel Cintra) tem uma profunda admiração pela jovem, que o vê como um pai, com quem mantém uma relação de subjugação, à semelhança do que acontece com Diana.
Este espectáculo conta-nos o dia em que o seu irmão Orestes (Paulo Moura Lopes), perseguido pelas Fúrias, depois de vingar a morte do pai assassinado pela mãe, chega com o seu amigo Pílades (Vítor de Andrade) a essa terra de bárbaros. O rei Toas pretende que os estrangeiros sejam mortos e sacrificados por Ifigénia, que entretanto percebe que tem diante de si o irmão. Entra em confronto consigo própria, por perceber que aquele é o seu irmão, e que a sua ânsia de voltar a casa e ao reencontro com a família é possível, mas para isso terá de desobedecer ao rei e ainda de deixar a sua posição de agradecimento a Diana enquanto sua sacerdotisa. Orestes quer resgatar a irmã e regressar à Grécia para limpar a sua geração da maldição divina.
A peça revela-nos atitudes quase ilógicas, contrárias à razão, em detrimento da emoção e da verdade. Surgem questões éticas e morais, que esse reencontro provoca. Ifigénia quer voltar a casa, mas terá de encontrar uma forma de o fazer sem perder tudo aquilo que construiu em termos de relacionamento humano, e acima de tudo sem ir contra a sua verdade. Ela encara o rei como um pai e o regresso a casa, não abarcando as suas ordens e de o abandonar vai contra a sua verdade. Ela precisa do seu consentimento, para se libertar. Ifigénia é a personagem que representa a verdade, o questionamento, a libertação e Beatriz Batarda coloca muita emotividade em palco, fazendo com que a verdade da personagem passe a ser a sua verdade, enquanto a representa.
Com a sua revisão do mito antigo, Goethe questiona em versos belíssimos o conceito de humanidade, a relação dos homens com os deuses, a tensão entre a ideia de destino e a liberdade, a condição das mulheres, e a própria noção de soberania política. A peça coloca o homem face a um mundo de mudança, onde a transformação só é possível a partir da transformação das consciências individuais. Coloca-nos questões, é um texto que nos faz reflectir.
A música que se ouve ao longo do espectáculo é a peça integral para violoncelo solo deHans Werner Henze, Sérénade (1949), interpretada por Emmanuelle Bertrand, que dá ao espectáculo uma energia de tensão bastante adequada.
Com simplicidade e muita elegância, sempre com soluções que ajudam o trabalho de actor, Cristina Reis apresenta um cenário, cuja assinatura é já uma imagem de marca do Teatro, e que se por um lado nos permite reconhecer a qualidade da assinatura, por outro nos retira o efeito surpresa.
Estreado a 24 de Setembro, o espectáculo faz carreira até ao próximo dia 1 de Novembro, no Teatro do Bairro Alto.

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado Jornal Semanário (16-10-2009)


Créditos Imagem: L. Santos

Samba: porte estandarte brasileiro

O regresso de Seu Jorge
“América Brasil” ao vivo



Seu Jorge está de volta à Europa, está de volta a Portugal. Primeiro Lisboa, depois Porto, dias 9 e 10 de Setembro, respectivamente. Os bilhetes custam entre 22 e 33 euros, mas vale mesmo a pena.

Estava previsto um único concerto do Seu Jorge em Lisboa, mas a grande procura de bilhetes levaram a que a Mandrake agendasse uma data para o Porto. Assim, no dia 10 de Outubro, o Coliseu do Porto recebe o artista que já em 2007 levou a organização a marcar uma Casa da Música extra. Nesse ano, também em Lisboa, além do concerto no Coliseu, no dia seguinte se fez um pequeno show, mais intimista, no cinema Mundial. Um dos momentos mais privilegiados dos últimos tempos, no que diz respeito a concertos de música brasileira em Portugal.
O cantor brasileiro que “vendia bala no trem” ultrapassou as fronteiras brasileiras e conquistou o Mundo com o samba do século XXI. Nasceu no início dos anos 70, e além de músico é actor, tendo começado por um musical, a convite de Paulo Moura, e desde então, como actor tem participado numa série de filmes, de onde se destacam “Cidade de Deus” (2002) e “The Life Aquatic with Steve Zissou” (2004). O filme mais recente em que podemos encontrar Seu Jorge é “Beyond Ipanema”.
A sua carreira musical começou com a participação na banda Farofa Carioca, que lançou o primeiro álbum em 1998, uma mistura de ritmos negros com brasileiros. A partir daí participou em muitos projectos, com Ana Carolina, Marcelo D2 e Olivia Byington, entre outros. A solo, lançou “Samba Esporte Fino” (2001), “Cru” (2004), “The Life Aquatic with Steve Zissou, Studio Sessions” (2005) e depois “América Brasil” (2007). Agora saiu “América Brasil ao Vivo”, em CD e DVD. O disco, com o qual arrecadou o Grammy Latino na categoria MPB, e que serviu também o concerto em 2007, quando era ainda fresco, servirá de base aos espectáculos agendados. Esse é pelo menos o ponto de partida do espectáculo.
Recentemente, o músico, actuou no mítico Hollywood Bowl, em Los Angeles, palco guardado para os melhores artistas de sempre, e agora dá um grande concerto no Campo Pequeno, em Lisboa, seguindo depois para o Porto. Seu Jorge é autor de sucessos como «Ana Carolina», «Burguesinha», e intérprete das famosas versões em português dos temas de David Bowie para o filme «Um Peixe Fora de Água» de Wes Anderson. Desta vez traz ainda mais samba, a sua essência. Quando pensamos em samba, pensamos no Brasil, mas Seu Jorge é mais do que isso. Ele tem o sabor do Brasil, mas incorpora o funk dos anos 70, o soul e ainda consegue integrar uma série de instrumentos que normalmente não se associam a este estilo de música, como o violino ou a harpa.
Quando o “negrão”, como lhe chama Ana Carolina, sobe a palco, o ritmo e a alegria instalam-se, normalmente envolvidos por um discurso muito consciente e atento à humanidade. Em palco, monta-se o estandarte brasileiro e o estilo de “Mané Galinha” (“Cidade de Deus”) deambula pelo palco, passando por uma série de sons e histórias que vão surpreendendo a cada momento. Seu Jorge é uma mistura explosiva entre a alegria do samba brasileiro e uma consciência apurada perante aquilo que acontece à sua volta. Talvez pelas suas origens, da favela brasileira, talvez por ter conseguido crescer no meio musical sem perder a sua verdade. Ele é samba-rock-funk-reggae, mas como “América Brasil” é um disco mais dançável, a tendência é que todo o mundo se atire para a piscina e fique toda a noite a dançar.
Seu Jorge é transatlântico, mistura a sua origem com aquilo que foi apreendendo do mundo, e vai-nos deliciando com músicas que têm as suas razões, as suas histórias, as suas dedicatórias, e que normalmente partilha, mostrando uma disponibilidade para falar sobre si, e sobre aquilo que sente. Dá-se em palco, algo que começa a ser raro nos artistas. Os cantautores brasileiros afinal não são todos iguais. Seu Jorge consegue viajar pelas sonoridades populares do Brasil, mas de uma forma relevante, consistente. Ambiente de baile sim, mas com o balanço da sua voz grave. Desta vez traz a versão ao vivo de “América Brasil”, e devem ainda existir surpresas, ou não fosse ele um criativo cheio de samba, mas também com muita capacidade de leitura do mundo e de si mesmo.

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado Jornal Semanário (09-10-2009)

Linguagem orgânica em palco


"A Orelha de Deus"
O processo de Jenny Schwartz


Nas notas iniciais ao texto “A Orelha de Deus” (God’s Ear, de Jenny Schwartz), podemos ler: “Espera-se que o público consiga apreender significados através da acumulação da linguagem. Portanto, regra geral e a não ser que o oposto seja especificamente exigido, os actores devem falar depressa e não fazer pausas para pensar entre as falas.” Foi assim que aconteceu, mas podia ter sido ainda mais ritmado, mais ainda.

“A Orelha de Deus” é um espectáculo que se vê de uma assentada só. O processo de escrita, provavelmente, influenciou o ritmo e as histórias que são apresentadas como produto final. No passado sábado, depois do espectáculo, e numa conversa aberta ao público, Jenny explicou: “quando me escrevo para sentar, recomeço sempre do início”. Descreve-o como um processo emocional, muito orgânico, em que as histórias e a linguagem vão surgindo, e quando surge uma ideia nova, recomeça tudo do início e adapta. Quando começou a escrever este texto, Jenny tinha a conversa inicial de Ted e Mel, e a vontade de construir algo a partir daqui, mas o facto de eles terem perdido um filho, só surgiu mais tarde, num dia, ao escrever a frase: “Porque é que toda a gente que conheces perdeu um filho?”, e decidiu reconstruir tudo. Foi assim com esta frase, foi assim com o aparecimento do GI Joe, foi assim com a hospedeira travesti que um dia decidiu colocar na história e foi escrevendo, reescrevendo, sempre com um gosto muito próprio e presente por jogos de palavras, transformando o discurso numa melodia que tem um ritmo inabalável quando o lemos. As suas influências vêm das peças da Grécia Antiga, em que se focou nos seus estudos, onde foi buscar o suficiente para uma escrita com ritmos próprios da poesia e elementos sobrenaturais.
Estreada em Nova Iorque no Vineyard Theatre (off-Broadway), “A Orelha de Deus” chegou a Portugal pela mão de Francisco Frazão, programador de teatro da Culturgest, tendo sido posteriormente apresentada à encenadora Cristina Carvalhal e só mais tarde ao elenco que dirigiu (Cucha Carvalheiro, Diana Sá, Emílio Gomes, Luísa Cruz, Manuel Wiborg, Pedro Carmo e Sandra Faleiro). A primeira reacção que a encenadora teve foi: “Como é que isto se faz?”, mas acabou por avançar, apaixonada pelo texto, que, aliás, devido a uma tradução microscópica e brilhante, assinada por Rogério Casanova, com a adaptação de todos os jogos de palavras e expressões idiomáticas, mas sem o descontextualizar dos EUA, permitiu o ritmo existente em palco.
A peça conta-nos um drama, é esse o terreno que pisam: uma mulher frustrada, um marido assustado e uma criança que reclama atenção. Todos em carência emocional. Ao mesmo tempo vai-se construindo um universo que não é paralelo, porque se entrecruza com aquele, mais táctil. Neste surgem personagens como o GI Joe ou a fada dos dentes. Este universo permite que num só palco se vá criando um mundo inteiro pela sugestão das personagens e da palavra. O tempo também não existe, existem vários tempos, que às vezes se misturam e às vezes são ao mesmo tempo muitos tempos. O espaço também é muitos espaços, em simultâneo. O cenário que Ana Limpinho e Maria João Castelo construíram para o Pequeno Auditório da Culturgest permitiu que as cenas ganhassem alguma espacialidade, mas o discurso acaba por a quebrar, mais cedo ou mais tarde.
As canções, cuja composição foi da responsabilidade de Sérgio Delgado, vêm trazer imagens de sensualidade e comicidade, serviriam de interlúdios segundo indicações do texto, mas aqui passam a ser partes essenciais do espectáculo.
Em palco, o texto acaba por perder ritmo, talvez pelas movimentações, que poderiam ser mais limitadas dando ainda mais peso à palavra, e mais rápido, que é como nos apetece ouvir depois de o ler. Uma experiência teatral inventiva, porque nos permite viver uma torrente de acontecimentos, de perguntas e respostas. “Eu tenho uma pergunta”, “Eu tenho uma resposta”.
“A Orelha de Deus” será representada no Teatro Vila Flor, em Guimarães (2 Outubro) e no Teatro Viriato (23 e 24 de Outubro).


ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado Jornal Semanário (02-10-2009)


A fronteira entre o público e o criador

Circular Festival de Artes Performativas
“Uma peça encomendada” em Vila do Conde





Às vezes os últimos são mesmo os primeiros. A 5ª edição do Circular Festival de Artes Performativas encerra este fim-de-semana com a estreia absoluta do novo trabalho de Joclécio Azevedo, "Uma peça encomendada". O espectáculo foi construído a partir de contribuições de 19 pessoas que, sendo ou não potenciais espectadores da obra final, participaram na sua construção assumindo-a como uma “encomenda” aberta e personalizável. A peça estreia hoje, às 19h, no Auditório Municipal de Vila do Conde, e será novamente apresentada a 26 de Setembro, no mesmo local.

Joclécio Azevedo nasceu no Brasil em 1969. Vive e trabalha no Porto desde 1990. Participou, como intérprete, em projectos de diversos criadores, entre os quais, Isabel Barros, Né Barros, Ana Figueira, Joana Providência, André Guedes, Simone Forti, Gary Stevens, Ronit Ziv, Jean-Marc Heim, Peter Bebjak/Juraj Korec e Tino Seghal. A partir de 1999, e a par da sua actividade como performer, começa a apresentar simultaneamente o seu trabalho coreográfico, tendo participado em projectos de investigação, residências artísticas e projectos educacionais em diversos países, como Portugal, França, Tunísia, Alemanha, Espanha, Bélgica, Suíça, Escócia, Inglaterra, Eslováquia e Índia. A partir de 2003 desenvolveu diversas colaborações com o coreógrafo suíço Jean-Marc Heim, em Lausanne, tendo sido intérprete no espectáculo “Va et Vient” (2003 – Prémio da crítica suíça de dança e coreografia), intérprete e dramaturgo em “Creatura” (2005), e dramaturgo em “Flagrant Delhi” (2008). Actualmente estão a preparar um novo projecto que deve estrear em 2010. “Estratégias de colisão” (2006), “Sans titre” (2006), “Inventário” (2007) e “Open Scores” (2009) são alguns dos seus trabalhos mais recentes, e é um dos membros fundadores e actual director artístico do Núcleo de Experimentação Coreográfica.
Esta é a segunda vez que Joclécio Azevedo participa no Circular Festival de Artes Performativas, depois de em 2005 ter apresentado no Festival o trabalho "Em Resumo".
“Uma peça encomendada” é o resultado de uma interpretação por parte do artista daquilo que absorveu como desejos e preocupações dos espectadores que entraram neste projecto. Juntaram-se em residência e tentaram perceber e desconstruir a fronteira entre público e criador. É no fundo, resultado de uma reflexão sobre a relevância da interacção entre ambas as partes. O facto de não se poder prever que forma terá o objecto artístico final induz a que se criem leituras. Este criador decidiu reflectir sobre as consequências da utilização de práticas que possam amplificar este espaço de interacção entre a criação artística e a sua recepção.
Perguntas são lançadas neste projecto, e espera-se que “Uma peça encomendada”, ou responda, ou pelo menos possibilite leituras por parte do público, talvez até respostas: “O que é que muda se os espectadores tiverem a oportunidade de inscreverem o seu imaginário na performance? Que novos temas poderão ser introduzidos? Que vocabulários? Que preocupações? Que desejos particulares? Que imagens? Que energias? Que desafios?”
No dia 26 e após o espectáculo, decorrerá uma conversa com o artista moderada por Magda Henriques.
A 5ª edição do Circular - Festival de Artes Performativas começou no dia 19 e prolonga-se até 26 de Setembro, em Vila do Conde. Até dia 26, e além do trabalho de Joclécio Azevedo, é possível ver "Utopias, Ciborgues e Outras Casas nas Árvores" de Carla Cruz, uma nova criação, também desenvolvida em residência, como o trabalho do coreógrafo que destacamos; "Chinoiserie", recentemente estreado pela companhia de teatro Mala Voadora (a 25 de Setembro, 6ª feira, 21h30, Teatro Municipal de Vila do Conde) e "Vice-Royale. Vain-Royale. Vile-Royale" de Sónia Baptista (26 Setembro, Sábado, 21h30, Auditório Municipal de Vila do Conde).

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado Jornal Semanário (25-09-2009)

A imaginação como meio de reconstrução

“A Orelha de Deus”
Encenação de Cristina Carvalhal


“A Orelha de Deus” é uma peça assinada por Jenny Schwartz, uma jovem dramaturga nova-iorquina. As personagens e os diálogos criam um universo onde a fronteira entre o real e o imaginário é muito ténue, onde não há espaço para espaços, nem tempo para tempos. Com encenação de Cristina Carvalhal, “A Orelha de Deus” será apresentado na Culturgest, de 24 a 30 de Setembro.

Quando se lê o texto de Jenny Schwartz tem-se a sensação de que se está perante um grande texto. Assim aconteceu connosco, com Francisco Frazão (programador de teatro da Culturgest), que convidou Cristina Carvalhal para o encenar, e com a própria Cristina que acabou por aceitar. “Li o texto e gostei muito. O que me atraiu foi o tipo de comunicação que ele pretende, que não é directa, é como se tentasse estabelecer um canal de comunicação com o público que não passa pela via racional. Há momentos em que o discurso faz sentido, mas há outros em que é totalmente desconexo, em que se recorre a frases feitas, a ditos populares, a aliterações, a repetições (…).”, explica-nos.
Nas notas iniciais ao texto, podemos ler: “Espera-se que o público consiga apreender significados através da acumulação da linguagem. Portanto, regra geral e a não ser que o oposto seja especificamente exigido, os actores devem falar depressa e não fazer pausas para pensar entre as falas.” É assim que acontece. Parece que quando o texto começa entramos na cabeça de alguém. Às vezes ossos são ovos e ovos são olhos. Cristina Carvalhal fala da ideia de musical: “A palavra é fundamental, não no sentido da tragédia, mas o exterior da palavra, o significante, a musicalidade, como se todo o texto fosse uma partitura musical.”
Mergulhamos numa história, que é a de um casal que perdeu um filho (morreu afogado enquanto a mãe espalhava creme protector nas costas da filha irrequieta). Eles estão sob um efeito de ruptura, perderam um filho, e com ele a sua identidade. “A célula familiar desfaz-se e parece que estamos a assistir ao seu reconstruir, lentamente, como se tivéssemos dentro de um pesadelo.”
A ideia de pesadelo é-nos dada, não pela história, mas pela estrutura, porque nem sempre encontramos tempo, espaço ou lógica nos acontecimentos. De repente estamos na sala com o casal, a seguir ele está num avião, depois há um bar, uma mulher que parece saída de um videoclip, há a filha e um frasco de xarope antigo, um hospital, uma fada dos dentes e uma hospedeira travesti com uma pistola. Tudo se mistura, tempo e espaço diluem-se. A dor é constante, a espaços volta e instala-se. Os pais ficam presos a um tempo infantil e essa ligação traz um universo quase paralelo. “É o tempo desse filho que existiu e que nunca vai crescer. Funciona como fuga deles próprios, e ao mesmo tempo de onde não conseguem sair, por ser uma marca tão forte, é como um obstáculo que não conseguem ultrapassar.”
As canções interludem e o casal co-habita com o GI Joe e com a fada dos dentes, figuras que supostamente não existem, mas que como diria Murakami, e nas palavras de Cristina Carvalhal, “O que é que é real e o que é que é imaginário? Será que essa fronteira existe? Temos esta mania de dividir as coisas entre reais e imaginárias… O real não existe, somos nós que o forjamos, não é?”


O texto acaba por não ter uma mensagem, mas muitas leituras, permitindo ao público criar a sua própria história. Aqui também se exploram as ligações e a comunicação dentro da família. A filha e a mãe comunicam quase através de um terceiro elemento, a fada dos dentes (no espaço), o pai (no discurso). Também se fala de infidelidade, do quotidiano de um casal e de uma filha carente depois da morte do irmão mais novo. Procuramos um sentido, um final para a história, mas não é claro, nem directo. Cada um viverá esta história à sua maneira. “O texto dirige-se a uma zona mais inconsciente, a comunicação não é directa, funciona por acumulação, por outros processos e motivos, o do riso e o da piedade, no sentido da compaixão. É como um pesadelo que pudéssemos partilhar com o público e de onde saíssem com a sensação acabou, não sabemos quanto tempo teve e tentamos construir a história e encontra as razões para se ter sonhado com aquilo.”
O espectáculo conta com Cucha Carvalheiro, Diana Sá, Emílio Gomes, Luísa Cruz, Manuel Wiborg, Pedro Carmo e Sandra Faleiro. “A Orelha de Deus” estará em cena na Culturgest, em Lisboa (24 a 30 Setembro), no Teatro Vila Flor, em Guimarães (2 Outubro) e no Teatro Viriato (23 e 24 de Outubro).

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado Jornal Semanário (18-09-2009)

Jogos de sedução entre classes


“Menina Júlia” no espaço Negócio
Encenação de Bruno Bravo



Encenada pela segunda vez este ano “Menina Júlia” foi apresentada no Espaço Negócio, sob o olhar de Bruno Bravo, depois de ter subido ao palco do Teatro Dona Maria II, em Maio, encenada por Rui Mendes. O clássico da literatura dramática universal, assinado por August Strindberg, foi interpretado por Ana Brandão, Pedro Giestas e Inês Pereira, entre 7 e 12 de Setembro.

“Menina Júlia” é um texto naturalista, o mais representado de Strindberg. O conflito e a maldade sentidos entre o criado e a menina nobre são explorados, desta vez num cenário escuro, e bem adaptado, onde no fundo do palco encontramos um coro sentado, constituído por pessoas que fazem parte dos palcos e outras que o pisam pela primeira vez, entre os quais uma criança. É a ideia do contemporâneo numa peça de 1888. O facto de ter estreantes, ou pelo menos pessoas menos habituadas a estar em palco dá-nos uma certa ideia de desleixe, apenas existente porque sentimos desconcentração, pessoas que se riem em momentos inoportunos. O olhar da cena perde-se, sem sentido. Se a ideia é ter um coro sempre presente, fica a vontade de que este participe mais, mas no momento certo.
Em cena desenrola-se a história, que parece cada vez mais enrolada. Numa noite de São João, a menina Júlia perdeu a cabeça e entregou-se ao criado. As pessoas podem falar. O pai pode morrer. O criado desresponsabiliza-se, a menina Júlia também. Tentam. Proveniente da nobreza, será ela a sofrer as consequências do acto de loucura. O texto vai, desta forma, explorando as temáticas da luta de classes e da luta de sexos, de uma forma política, mas através de uma história de amor trágica, ou de uma obsessão pelo parecer, pela imagem que os outros fazem deles. Até a cozinheira assume esse medo ao descobrir tudo o que se passou. Há uma honra a manter. Os últimos vão para o céu.
Bruno Bravo explora de forma consistente os conflitos entre classes e sexos, mesmo sendo algo de menor expressão na sociedade actual, ou mais esbatido. A responsabilidade e a culpa também estão muito presentes, através de um trabalho com foco nas relações emocionais. A encenação de Bruno Bravo consegue trazer algo de novo, através do coro, através do seu olhar que nos traz alguma modernidade e que marca pela densidade psicológica das personagens, e que Pedro Giestas consegue alcançar de forma inigualável. A sua representação da frieza e da contenção emocional, própria de alguém que é bruto no seu interior, na sua procura de ascensão ao poder, é equilibrada e forte.
A menina Júlia, aqui interpretada por Ana Brandão, é de alguma forma deslocada, por não se sentir uma comunicação plena com o criado (Pedro Giestas), por não se entregar totalmente à ideia de loucura selvagem que o texto nos pede. Consegue a inocência da fidalga provocadora, a ideia de mulher com medo do desconhecido, mas esperava-se maior choque emotivo no discurso final, onde se toca o tema da responsabilidade individual.
Inês Pereira que interpreta a cozinheira tem uma prestação subtil, como a própria personagem, trazendo-nos os temas do respeito entre classes sociais, o tema do trabalho e da submissão feminina ao homem que escolheu para si.
Revolucionário por natureza, Strindberg explorou neste texto uma estética naturalista. Censurada na época, esta é uma peça que hoje estimula uma história intimista, onde fica sobretudo o questionamento individual do conflito, da sedução pela sedução, dos ódios e ciúmes, dos jogos de poder e de atribuição de culpa, de desresponsabilização, e Bruno Bravo através de uma encenação limpa, consegue deixar espaço para surgir essa clareza.
Este espectáculo surge de um período de residência, na qual os Primeiros Sintomas voltaram a pegar num texto como principal impulsionador da criação, no contexto do trabalho que têm vindo a desenvolver, de reflexão e levantamento de dramaturgias diversas.

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado Jornal Semanário (18-09-2009)

O regresso da casa de cultura

Rentrée 2009
Nova temporada na Culturgest


Rentrée. Todos querem saber o que vem aí. Depois de apresentarmos a temporada do CCB, segue-se a da Culturgest, um dos espaços com uma programação mais interessante na cidade de Lisboa. Música, com maior incidência no jazz, teatro, dança, cinema e exposições. Entre Setembro e Dezembro há espaço para tudo e o melhor é que em Janeiro há mais.

Habitualmente os panos baixam no final de Julho e voltam a abrir em Setembro. Este ano não é excepção. Hoje mesmo recomeça a roda vida de espectáculos na Culturgest. O jazz é uma aposta muito forte nesta instituição cultural, e a abertura da programação começa exactamente com o clarinetista e saxofonista francês Louis Sclavis, acompanhado por duas figuras nova-iorquinas: Craig Taborn (piano) e Tom Rainey (bateria).
Com uma sonoridade bastante diversa chegam os Son de la Frontera, um grupo flamenco formado por herdeiros do mestre Diego del Gastor, no dia 19 de Setembro. Em Outubro marcarão presença Henri Texier e Strada Sextet (dia 1) e António Pinho Vargas com dois solos (dia 31).
O “Ciclo Isto é Jazz” volta em Novembro, primeiro com Sten Sandell Trio (dia 5), depois com Nate Wooley e Paul Lytton (15 de Dezembro). Teremos ainda a oportunidade única de ver Hank Jones Trio, um dos músicos do jazz mais excepcionais, que sobe a palco, do alto dos seus 91 anos, para um concerto memorável.


Um dos destaques da programação de música, que aliás é o que predomina em quantidade durante os 4 meses que se seguem, é Gonzales, um canadiano com formação clássica em piano e que apresenta o espectáculo “Solo Piano”, a 4 de Novembro, uma mistura de showman com um recital de piano. A 11 de Novembro, o espectáculo “Zoetrope, assinado por Rui Horta e Micro Audio Waves, regressa ao palco da Culturgest, onde foi apresentado o ano passado. Uma poderosa performance multimédia que segundo a casa vale a pena reprogramar.
Passa ainda pela Culturgest a OrchestrUtopica, no dia 17 de Setembro, com o espectáculo “Transfronteiras”, em interacção com a obra visual de Luís de Campos, e no dia 29 de Outubro, com “Crash!”; o projecto Musica Elettronica Viva, no ciclo Imagens Projectadas.
No teatro marcarão presença os encenadores Cristina Carvalhal, Philippe Quesne e Rachel Chavkin.
“A Orelha de Deus” é um espectáculo encenado por Cristina Carvalhal, que tem por base o texto, com o mesmo nome, de Jenny Schwartz, onde se cria todo um universo paralelo com contornos de história infantil, mas onde se explora uma história dramática de um casal que perdeu um filho. Entre 24 e 30 de Setembro, no Pequeno Auditório.
Em Outubro, chegam dois espectáculos de Philppe Quesne e Vivarium Studio. O primeiro é “L’effet de Serge” (5 e 6), em que interroga a forma do solo através da representação e dentro dela, a partir da ideia de apresentação de pequenos espectáculos num apartamento, semanalmente, para amigos. “La Mélancolie des dragons” (8 a 10), em que explora a ideia aproximada de uma utopia, em que não há violência e há atenção às coisas e às pessoas. É um espectáculo na linha tangente.
O quarto espectáculo de teatro é um texto da “Team”. “Architecting” (23 a 25 de Novemrbro) é o olhar de uma jovem arquitecta, Carrie Campbell, da América, através de uma história que nos fala de americanos que tentam sobreviver enquanto tudo muda mesmo ali ao lado.
Na dança, “Anticorpo” de e por João Costa, coreografa e dança sobre o tema do sistema imunitário e a sua complexidade. O espectáculo abre a temporada da Culturgest no que diz respeito à música (25 e 26 de Setembro). Em Novembro, Vera Mantero apresenta o projecto final de dois anos de formação de 15 alunos no Programa de Estudo, Pesquisa e Criação Coreográfica do Fórum Dança.
No âmbito do Festival Temps d’Images, estão programados “Nada. Vamos ver”, de Gustavo Círiaco (18 e 19 de Novembro) e“Der Mann ist verruckt”, uma performance de Tãnia Carvalho e Vera Suchánková (20 e 21 de Novembro).
No último mês do ano, está agendado o regresso de Clara Andermat, com “So Solo”, o primeiro em que é autora e intérprete, e por isso único.
Entre 18 e 20 de Dezembro, é ainda possível assistir a “Good Morning, Mr.Gershwin”, um espectáculo de José Montalvo e Dominique Hervieu, que fala do prazer dos corpos em movimento.
Apesar de todo esta panóplia de espectáculos que se espera que tragam valor artístico e de partilha cultural ao mercado nacional, ainda haverá espaço para a participação nos habituais festivais: doclisboa em Outubro, Cinanima, em Novembro, e Nippon Koma, em Dezembro, além das exposições e outros eventos que serão desvendados à medida que o Outono avance.

ANA MARIA DUARTE

Artigo publicado Jornal Semanário (11-09-2009)

Novidades da “rentrée” cultural

Artistas associados e portugueses
Centro Cultural de Belém em 2009/2010



O Verão começa a ter linhas mais ténues e a palavra “rentrée” vai soando em cada esquina por onde passamos. Seja na rua, seja nos palcos, vamos sentindo o recomeço de tudo o que o fim do Verão implica. As temporadas são apresentadas nos mais diversos pontos do país e as vozes querem-se a ouvir dizer o que há de novo, quais as promessas artísticas e o que podemos ver e rever. O CCB é um desses espaços cuja voz já se ouve, desvendando as suas apostas para a nova temporada.

Podemos começar já a enumerar os nomes dos que vêm aos palcos deste espaço específico, mas comecemos pelos artistas e companhias associadas para a temporada 2009/2010 do CCB, que por si já dizem muito sobre aquilo que será a programação deste ano e qual é a linha condutora deste espaço lisboeta. Rui Horta é apresentado como artista associado, o Teatro Praga como companhia associada. A cada um destes foram pedidas três criações, cada uma delas com uma dimensão diferente (pequena, média e grande).
Rui Horta aceitou o desafio de criar três obras, que pressupõem uma reflexão mais alargada sobre o próprio percurso de criador. Abordam temáticas diferentes, mas unem-se no “questionamento do papel do corpo no discurso coreográfico e teatral.” Será acima de tudo uma reflexão criativa, um laboratório onde se procuram respostas. “Talk Show/Até se apagar o corpo” (Outubro) procura o corpo como sistema de comunicação e levanta a questão do seu desaparecimento ao longo da vida no amor. “As lágrimas de Saladino” (Março) reflecte a saturação do corpo e o olhar sobre o corpo do outro. “Local Geographic” (Maio) é o último espectáculo da trilogia e é uma reflexão sobre a identidade, abordando o corpo íntimo. Rui Horta avança que quebrou a linha, que tinha vindo a seguir nos seus últimos espectáculos, de envolvimento do público no espaço cénico, tomando-o como agente integrante da criação. Estas três obras contrariam esta ideia de investir o espaço da sala.
O Teatro Praga, a companhia associada da temporada, foi convidado pelo CCB para proporcionar um modo de programação e de concepção de espectáculos aproveitando as três salas, tal como acontecerá com os espectáculos de Rui Horta. O Teatro Praga persegue, com diferentes dimensões, o percurso de uma nova ética, explorando a dicotomia entre mal e bem, a revolução e a conservação, caminhando, supostamente, para outra arte. Em Setembro, Março e Julho, apresentarão, respectivamente, “Padam, Padam”, “Oil ain’t all, J.R.” e “Sonho de uma noite de Verão”). Não é uma trilogia, são três espectáculos unidos pelo facto de não haver relações objectivas entre eles.


Além da inserção pela residência artística de uma companhia de teatro e de um coreógrafo, que vem estender a outras áreas o que já existia na música clássica, com orquestras residentes em cada uma das temporadas, o CCB aposta este ano nos criadores portugueses, tanto na dança como no teatro. Lia Rodrigues, Leonor Keil, Amélia Bentes e Olga Roriz, na dança. No teatro, Jorge Silva Melo que leva a cena um texto original de José Maria Vieira Mendes e a “Comemoração” de Harold Pinter. “La Musica” de Margueite Duras sobe a palco encenada por Solveig Nordlund e Luísa Costa Gomes apresenta a tradução de “O Príncipe de Homburgo”, de Heinrich von Kleiste.
Na música, residem a Divino Sospiro, a Orquestra de Câmara Portuguesa, a OrchestrUtopica e o agrupamento de câmara Schostakovich Ensemble. A Orquestra Sinfónica Portuguesa e a Orquestra Metropolitana de Lisboa também farão aqui as suas habituais temporadas.
Maria João Pires tem regresso agendado para Janeiro de 2010, acompanhada por Rufus Müller (tenor) para uma peça do repertório de Lied de FranzShubert. Em Fevereiro, um ciclo dedicado a Schumann, composto por recitais de piano e concertos de câmara. Apesar de toda esta programação de música clássica, que o CCB mantém, a aposta no jazz tem vindo a crescer. Renovam-se as quintas de jazz, tanto no Inverno, com Dose Dupla, como no Verão, com o Jazz às 5as. Vem também aí a terceira edição da Lisbon Jazz Summer School. Como pinceladas refrescantes, ao longo do ano, existirão concertos de outras sonoridades: Brad Mehldau, Jason Moran, Andrea Pozza, Scott Hamilton, Gilberto Gil, Bernardo Sassetti e Fausto Bordalo Dias.
No que respeita aos Festivais, o CCB terá o ciclo dedicado a Istambul, explorando cinema, dança, fotografia, música e literatura. Em Abril regressam os Dias da Música, este ano dedicados às “Paixões da Alma”, com inspiração em Descartes. A Fábrica das Artes do CCB continua a trabalhar no sentido de disponibilizar espectáculos, oficinas e exposições com o foco nos mais novos, acompanhando a programação anual. À primeira vista a temporada 2009/2010 do Centro Cultural de Belém parece vir tornar mais consistentes as opções que têm vindo a ser tomadas aos poucos: o proporcionar residência e focar num tipo de criação por época artística, e também uma programação com mais incidência em artistas nacionais. Vamos vendo aos poucos as cortinas a abrir e as luzes a acender.

ANA MARIA DUARTE

Artigo publicado Jornal Semanário (04-09-2009)

África em Belém

CCB Fora de Si
Últimos fins de semana de Agosto


O CCB Fora de Si dedica os dois últimos fins-de-semana ao continente Africano, reforçando a sua essência de transculturalidade.
Julie Dossavi dá início a uma programação oriunda de África que se mantém até ao dia 28 de Agosto, data de encerramento do evento. Misturando formas de dança africana contemporânea, com um certo urbanismo, através de um conjunto de solos e duetos, mistura rituais tribais com saltos de ginástica. A bailarina e coreógrafa francesa faz-se acompanhar de percussionistas, voz e electrónica, numa criação distinta, cheia de expressividade. O espectáculo denominado P.I. (pays) é apresentado no dia 21 de Agosto, às 22h, na Praça do Museu.
O grupo Etran Finatawa, oriundo do Níger, é formado por tuaregues e wodaabe, dois povos nómadas com culturas muito diferentes. A sua música, com sonoridades bastante distintas, combina a riqueza de duas linguagens, já que os wodaabe tradicionalmente não utilizam instrumentos e centram-se na voz, enquanto que os tuaregues sempre recorreram a violinos e tambores. A sua música mistura estas duas origens num mesmo palco, neste caso, na Praça do Museu. O concerto está marcado para as 22h de sábado.
Para domingo à noite, a festa está reservada para os Terrakota, que fundem na sua música, uma série de influências musicais, nomeadamente o reggae e a música árabe, passando pelos sons afro-cubanos. Este é um projecto de origem portuguesa, mas que obteve rapidamente a internacionalização, conquistando pela sua energia e entusiasmo.
Ainda há tempo para cinema, sexta e domingo, às 21h, no Pequeno Auditório são projectados “Xala” e “Ceddo”, dois filmes do cineasta senegalês Ousmane Sembene, o primeiro realizador de um país africano a alcançar reconhecimento internacional. O filme “Xala” (1975) denuncia a opressão das raparigas jovens pela classe masculina colonialista, através do retrato de um casamento de uma adolescente com um homem mais velho. Em “Ceddo” (1977), documenta através de uma personagem feminina as incursões colonizadoras do islão e da europa na sociedade africana. Um retrato da luta pela resistência da cultura e das tradições africanas.
No segundo fim de semana dedicado a África também há cinema, de Haile Gerima, que se debruça sobre temas relativos aos problemas de integração social e racial. “Sankofa” (1993) é um filme que regressa à época da escravatura para nos fazer ver o funcionamento daquela época ao olhar dos africanos. “Adwa” (1999) fala da batalha de Adwa, entre etíopes e italianos, em que pela primeira vez uma nação colonizada vencia os seus ocupantes. Este filme parte desta batalha para chegar a um retrato da força da sua nação e do seu povo.
No dia 28 passa também “Kirikou et la Sorciere” (1998). Baseado num conto tradicional africano, este filme do realizador francês Michel Ocelot conta a história de Kirikou, um menino recém-nascido que chega ao mundo com a capacidade de falar e uma astúcia sem igual. kirikou decide enfrentar a feiticeira Karaba, a responsável pela falta de água na aldeia, e, pelo caminho, vai fazendo perguntas que mais ninguém se lembrou de perguntar.
A nova peça coreográfica da companhia senegalesa Jant-Bi baseia-se nas mais belas danças tradicionais africanas, oriundas de países como o Mali, a Guiné, o Burkina Faso, a Costa do Marfim, o Benim, o Congo e o Senegal. O espectáculo será apresentado na sexta feira, dia 28, no Grande Auditório.
“Retalhos em Viagem” é o conjunto de cinco solos, centrados em cinco personagens que transitam algures entre o que são e o que gostariam de ser, entre o que têm e o que lhes falta. As performances vão acontecendo ao longo do fim fe semana, no Jardim das Oliveiras.
Seun Kutil, filho do lendário afro-beat Fela Kuti, dirige a banda Egypt 80, que encerra o CCB Fora de Si. Herdou do seu pai a música de fusão, entre o jazz, o funk e os ritmos africanos, criada por Fela nos anos sessenta. As suas canções revelam a sua preocupação pelas graves questões políticas e sociais que afectam a África. Sábado, no Grande Auditório, às 21h. E assim terminará a programação de Verão do CCB, com grande destaque nos dois últimos fins de semana de Agosto para o continente Africano.

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado Jornal Semanário (21-08-2009)

A memória de Raul Solnado

A face de uma geração de humoristas
Versatilidade e diversão



Raul Solnado foi e continuará a ser a cara de uma geração de humoristas, tendo passado pelo teatro, pela rádio, pela televisão e pelo cinema. Desde cedo que a sua popularidade foi intensa, pelo que na despedida do actor português, provavelmente, a maioria da população nacional pensou em algumas das suas imagens em palco, ou em programas televisivos que marcaram diversos serões, desde que começou a fazer televisão.

Raul Solnado nasceu em Lisboa, em 1929. Em 1947 entrou para o mundo do teatro, como actor amador, no Grupo Dramático da Sociedade de Instrução Guilherme Cossul, em Santos. Profissionalizou-se em 1952, e em 1953 estreou-se na revista com “Viva o Lixo”. Nessa altura começou a desenvolver uma carreira, como artista de variedades e de teatro, mantendo a sua veia humorística, tanto na rádio como na música. O primeiro grande sucesso aconteceu no início dos anos 60, com as rábulas, nomeadamente com "A Guerra de 1908", um texto espanhol adaptado para português pelo próprio. Este humor veio preencher um espaço vazio, já que se vivia a guerra colonial e os seus textos serviam quase como libertação daquele universo de guerra. Era uma forma de se confrontar com a realidade de estarem a participar numa guerra, mesmo que de forma afastada. Os soldados identificavam-se com o humor de Solnado, pelo menos essa era a mensagem.
Nessa mesma altura surge o sketch “A história da minha vida”, que acaba por ser editado em disco. Nesta altura já o actor tinha de lidar com o sucesso e com a popularidade, tendo chegado a refugiar-se no Brasil, para poder “respirar”. Raul Solnado estava por todo o lado naquela altura.
Em 1964 fundou o Teatro Villaret, estreado com “O Impostor-Geral”, e é neste mesmo espaço que é gravado o programa “Zip Zip”, com Fialho Gouveia e Carlos Cruz. Durante os serões de segunda-feira, entre Maio e Dezembro de 1969, o Teatro enchia-se de gente, e diz-se que as ruas de Lisboa ficavam praticamente vazias. O sucesso televisivo voltou a repetir-se em 1977 com o programa “A Visita da Cornélia”, em que a interlocutora de Solnado era a vaca Cornélia.
Novamente com Fialho Gouveia e Carlos Cruz apresenta o programa “O Resto São Cantigas”, em que se recordam músicos da música ligeira portuguesa, e mais tarde apresenta o concurso “Faz de Conta”. No cinema, revelou-se em “A Balada da Praia dos Cães”, de José Fonseca e Costa.
Nos anos 90, foi possível ver Raul Solnado, ao lado de Eunice Muñoz, na telenovela “A Banqueira do Povo”. A sua ligação ao teatro manteve-se sempre, independentemente dos outros projectos. Em 1999 funda a Casa do Artista, que fica a dirigir e sobe ao palco do Teatro da Trindade com "O Magnífico Reitor" (2001), de Freitas do Amaral. No ano seguinte é homenageado no Festival Internacional de Humor de Lisboa, no Tivoli, e em 2004, recebeu a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, pelo seu contributo ao país.
O protagonista da sitcom "Lá Em Casa Tudo Bem" faleceu no passado dia 8 de Agosto, mas o seu legado enquanto humorista e enquanto personalidade artística nacional é imenso, e, sem dúvida que deixa memórias para as gerações futuras. Aliás, recentemente, num conceito das Produções Fictícias e da Até ao Fim do Mundo, Raul Solnado gravou, com Bruno Nogueira, uma série de quatro programas – “As Divinas Comédias”, juntando duas gerações de humoristas, versando sobre os 50 anos de humor em Portugal, que já estreou na RTP.
Um actor que passou por diversos palcos nacionais, que fez cinema, rádio, revista, televisão, mas que acima de tudo marcou não só uma geração de humoristas, mas várias gerações que acompanharam a sua carreira ao longo destes anos. A ponte entre si e os actuais humoristas nacionais ficou construída. É necessário agora a libertação da sua popularidade, para deixar que se forme de forma natural aquilo que fica de um actor, de uma pessoa, que é a sua memória e o trabalho que deixou feito, que é de uma riqueza imensa.

ANA MARIA DUARTE

Artigo publicado Jornal Semanário (14-08-2009)

Jovens criadores nacionais em destaque

CCB Fora de Si
Belém Urbana


Este fim-de-semana, o CCB Fora de Si foca-se numa programação dedicada aos jovens criadores nacionais. “Belém Urbana” é o projecto que está na origem do resultado apresentado. Pretende valorizar a componente artística portuguesa. Serão sete projectos escolhidos entre 230. Música, performance e instalação, de sexta a domingo.

Catarina dos Santos é uma cantora e percussionista portuguesa, que reside em Nova Iorque. Mistura sons tradicionais portugueses, africanos e brasileiros, com jazz. “No balanço do mar” combina funk e ritmos de Nova Orleães, que traz na bagagem para o concerto, esta noite, às 22h.
Os Tora Tora Big Ban juntam jazz, world music, afro, latin, reggae e funk, numa só orquestra. O concerto da banda acontece no dia seguinte, à mesma hora.
No sábado também haverá baile, com inspiração nos anos 70. “O Baile dos Candeeiros” é uma performance com inspiração no “Baile dos cinco candeeiros”, originalmente criado na Foz do Douro. Candeeiros humanos participam e dinamizam o baile, a partir das 21h30.
Os Groove 4tet surgiram da necessidade que tinham de criar algum espaço sonoro onde pudessem expor as suas influências e ambições musicais diversas. No domingo, dão um concerto na Praça do Museu, apostando em covers de artistas soul, blues, funk e jazz, mas também em alguns originais.
Além da música, durante todo o fim-de-semana estarão presentes 3 instalações: “Azulejos Humanos” de Nuno Maya e Carole Purnelle; “Resíduos Urbanos” de Filipa Guimarães e “This is a Love Act” de Teresa Luzio. “Azulejos Humanos” é uma instalação interactiva que utiliza videoprojectores para criar azulejos virtuais. As cores e os movimentos das pessoas e das suas roupas são projectados em tempo real na fachada do CCB, criando padrões animados.
Na entrada do CCB encontrar-se-á uma quantidade de lixo espalhado, feito de diversos materiais. Será “Resíduos Urbanos”, a instalação de Filipa Guimarães, que chama a atenção para este fenómeno urbano, através de uma mensagem interventiva social e ambientalmente.
“This Is A Love Act” é uma instalação com um compromisso de amor impresso. Com este trabalho, Teresa Luzio pretende exibir um compromisso amoroso e estabelecer uma ligação emocional com o público. Esta instalação estará na entrada, nas bandeiras coloridas do CCB.
A programação completa-se com oficinas no Jardim das Oliveiras (Oficina Cidade Portátil), oficinas hip hop.

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado Jornal Semanário (14-08-2009)

Reencontro com a Ásia

CCB Fora de Si
Projectos multi-culturais


O CCB Fora de Si dedicou a programação do passado fim-de-semana à Ásia. Este fim-de-semana mantém-se o foco neste continente, contribuindo para a partilha de origens e o conhecimento de projectos multi-culturais.

Johan Iorbeer traz “Working Class Hero”, um espectáculo denominado de “still life performance”. O seu trabalho é desenvolvido numa fronteira muito ténue entre a imagem e a apresentação, sendo que o artista alemão se foca principalmente no fenómeno da percepção, desenvolvendo posturas no espaço que reflecte a alienação surrealista do quotidiano. A percepção do público é normalmente tocada pela perturbação. O espectáculo será apresentado no caminho pedonal, sexta e sábado às 18h e domingo, às 17h.
Durante o fim-de-semana serão projectados dois filmes que retratam de diferentes formas o Tibete, de dois realizadores que procuram a sua origem.
“Stranger in my Native Land” (1998) é um retrato cinematográfico, numa visão muito pessoal, de Tenzing Sonam, à sua terra de origens, no Tibete. Tenzing é filho de pais tibetanos e nasceu em Darjeeling, no nordeste da Índia. Neste filme o realizador reencontra-se com vários familiares e percorre o Tibete desde Amdo a Lhasa. Além do regresso às origens, este é um filme com uma visão política, onde podemos assistir ao desespero da opressão do país, resultante da ocupação chinesa.
“Dreaming Lhasa” (2005) é um filme de Karma, realizadora tibetana residente em Nova Iorque. O filme regista a visita de Karma ao refúgio de Dalai Lama no norte da Índia, documentando o percurso e as histórias dos prisioneiros políticos que conseguiram fugir do Tibete.
É, à semelhança de “Stranger in my Native Land”, um regresso às origens, pelo menos uma tentativa de entendimento e de conhecimento da terra de onde veio, mas simultaneamente sente-se que Karma tenta fugir de uma relação que mantinha em Nova Iorque. Nesta viagem conhece um antigo monge que acaba de fugir do Tibete com quem vai estabelecer uma ligação pessoal, transformando o filme num registo auto-biográfico, além de documental dos prisioneiros fugidos da sua terra natal. A projecção dos filmes está programada para o Pequeno Auditório do CCB, sexta-feira, às 21h, e domingo, à mesma hora.


Noe Tawara também marcará presença durante estes dias, no Centro Cultural de Belém. A artista de 24 anos estreou-se, em 2001, no Teatro de Tóquio, sob a direcção de Yoko Narahasi. A partir daí tem construído um percurso notável no teatro e no cinema independente japonês. Actriz, coreógrafa e bailarina, apresentará uma dança de “jiuta-mai”, uma dança tradicional japonesa exclusivamente feminina, muito intimista e elegante, acompanhada pelas cordas do instrumento Shamisen e por música vocal de canto melódico ou narrativo. Este espectáculo será apresentado no dia 7, na Praça do Museu. No dia 8, Noe Tawara apresentará outro espectáculo onde funde a dança “jiuta-mai” com a dança contemporânea, no Jardim das Oliveiras.
Borrões de tinta, fotocópias, cartão, candeeiros articulados, tecnologia vídeo, um computador, música. Todos estes elementos estarão juntos num só espectáculo. A companhia Paper Cinema dá vida a um elenco de marionetas desenhadas à mão, na noite de sábado, no Pequeno Auditório Praça do Museu.
Associado a este espectáculo está um conjunto de actividades: uma oficina para crianças dos 5 aos 12, que as convida a conhecer a magia do universo cinematográfico e de manipulação plástica que serve de background aos seus espectáculos. Dias 8 e 9 de Agosto, na Fábrica das Artes.
YungChen Ilhamo nasceu em Lhasa. Depois da sua internacionalização através da colaboração com músicos como Annie Lennox ou Sheryl Crow, começou a ser considerada a “voz do Tibete”.
Aos 23 anos fugiu do Tibete, devido à opressão chinesa, atravessando os Himalais e estabelecendo-se na Índia, onde começou a sua carreira musical, com as recordações de canções tradicionais tibetanas que aprendera com a família. Actualmente YungChen reside em Nova Iorque e a sua música é um reflexo de si em todos os lugares por onde passou. Será possível ouvi-la no sábado, na Praça do Museu.
A programação do CCB fora de si continuará pelo mês de Agosto, com iniciativas ao nível da música e da performance.


ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado Jornal Semanário (07-08-2009)

Belém urbana com tons asiáticos e africanos

CCB Fora de Si
Transculturalidade e turismo



O CCB Fora de Si procura apresentar, este ano, e à semelhança do ano passado, uma programação orientada para o multiculturalismo, numa procura de espectáculos e iniciativas que espelhem a diversidade da criação artística, nas suas mais variadas formas de expressão. No fundo procura-se chegar a um programa que seja sinónimo de transculturalidade.

A transculturalidade é a resposta uniforme a uma dicotomia que se estabeleceu entre a globalização e a especificidade das culturas, porque depois de se conseguir uma maior mobilidade entre os continentes, fruto dessa globalização, da emigração e da acessibilidade à informação a um nível global, o que permitiu um crescimento da maioria das culturas, houve uma necessidade de encontrar, de novo, porque se tinham de alguma forma esbatido, as especificidades de cada cultura ou país. Se por um lado a programação fdo CCB fora de Si e de outros festivais, como é o caso do Festival de Músicas do Mundo, em Sines, procuram demonstrar esta contaminação cultural que existiu graças à maior mobilidade, acessibilidade e por isso de partilha, por outro lado mostram-nos culturas únicas, que têm vindo a procurar manter as suas especificidades e individualidade. No fundo mostram-nos a essência de cada um destes lugares, mas ao trazerem estas culturas a um só espaço, mostram-nos também a sua transculturalidade.
Ásia, África, América do Sul, entre outros, têm contribuído para a disseminação da cultura, nomeadamente através de centros urbanos, como o caso de Tóquio. A realidade espalha-se a um nível global, dominando esferas artísticas e com grande adesão por parte do Ocidente. É o caso da música do mundo, que constatávamos há pouco através do sucesso do FMM (Festival de Músicas do Mundo – Sines), mas também da dança, do cinema e de outras artes de palco e audiovisuais.
Além desta procura de divulgação e espaço artístico, o CCB Fora de Si responde ainda a uma abertura do mercado cultural ao turismo, uma vez que se decorre nos meses de verão, quando a maioria das instituições culturais lisboetas fazem uma pausa na sua programação. Aliás, o projecto venceu o prémio especial Turismo de Portugal em 2008.
O CCB Fora de Si consiste num evento que vem de encontro a esta tendência cultural e de mercado, com um programa que decorre nos meses de Julho e Agosto. O foco este ano está na Ásia e na África. Os dois continentes estão em destaque, com iniciativas criativas oriundas da Índia, do Tibete do Japão, da Nigéria, do Mali, da Etiópia, do Senegal e do Níger. Além disso, e promovendo também o diálogo entre culturas, Portugal é representado através de um programa denominado “Belém Urbana”- um projecto pensado aos olhos do festival, que procura valorizar e dar a conhecer a componente artística portuguesa, envolvendo música, dança, artes visuais, cinema, artes de rua. Foi realizada uma selecção (7 de 230 projectos apresentados) e agora, durante um fim-de-semana (14 a 16 de Agosto), é dada a conhecer a diferentes públicos, também porque se procurou programar estes espectáculos do “Belém Urbana, na sua maioria, num ambiente exterior e, por isso, acessível a vários públicos. A Praça do Museu vai ser ocupada com espectáculos de música e dança ao ar livre, sendo o principal espaço de actuação, mas acontecem coisas em todo o CCB: nos jardins, no caminho pedonal. Parece que só nestes eventos se dá uso a toda a capacidade da arquitectura da instituição.
Nos fins-de-semana de Julho decorreu a Lisbon Jazz Summer School e, por isso, as actividades envolventes focaram-se também no jazz, através de concertos e ateliers para os mais novos e para as famílias. No mês de Agosto haverá concertos e outros espectáculos. Este fim-de-semana, e até 2 de Agosto, destaca-se a programação dedicada à Ásia. Hoje ao fim da tarde, “Tumbala”, um grupo de personagens fantásticos, que invade as ruas com as suas máquinas. Este é um projecto musical que interage através da sua performance. Também hoje, e amanhã, Johan Lorbeer apresenta “Tarzan”, uma das suas mais conhecidas performances, onde desafia as leis da gravidade.
O fim-de-semana recebe ainda Suheela, uma inglesa de origem indiana que reúne em si a música de vários continentes por onde foi passando e que formam a sua identidade; “Agua”, um filme realizado pela indiana Deepa Mehta que retrata a marginalização das viúvas indianas, “Terra”, o segundo filme da trilogia, e “Fogo”, apresentando assim os três filmes que valeram o reconhecimento à realizadora. Do Japão, no dia 2, chega um projecto de música e dança improvisadas de Hajime Fujita, que procura pensar a dança e a arquitectura com a ajuda da música.

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado Jornal Semanário (31-07-2009)

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Projecto Estúdios no Maria Matos

O salto de pára-quedas
3 Espectáculos em 3 semanas




“Sempre”, “Pedro Procura Inês” e “Bobby Sands vai morrer Thatcher assassina” são três espectáculos que surgem do projecto Estúdios, uma parceria entre o Teatro Maria Matos e o Mundo Perfeito. 3 espectáculos em 3 semanas. Cada semana 1 espectáculo. 4 dias de criação e 3 de apresentação. Em cada semana tudo pode acontecer, tudo pode mudar. Tiago Rodrigues, um dos criadores participantes neste projecto, deu-nos a sua visão do processo. Tudo o que foi feito até agora pode não ser apresentado. Qualquer semelhança entre os nomes dos espectáculos, as palavras de Tiago Rodrigues (e mesmo as minhas) e a realidade pode ser pura coincidência.

A ideia era esta: juntar artistas portugueses e estrangeiros e fomentar a experiência, o risco. Roubando a imagem a Tiago Rodrigues, é como se estivessem todos a saltar de pára-quedas e cada um dobrasse o pára-quedas do outro. À partida surgem espectáculos de grande risco, onde a experimentação é a palavra de ordem. Mas a ideia mais forte é a de confiança.
O processo de criação responde a um desafio, que foi o de colocar um grupo de artistas (Alex Cassal, Cláudia Gaiolas, Felipe Rocha, Michel Blois, Paula Diogo, Tiago Rodrigues e Thiare Maia), que não se conhece, a criar em conjunto. A ideia de espectáculo é desmistificada neste projecto, porque tudo o que um espectáculo envolve, como os tempos de criação e mesmo toda a estrutura, até de comunicação e técnica, é posto em causa. “Esta discussão de haver um espaço de experimentação, que é também entre o Maria Matos e o Mundo Perfeito, tem tido um acompanhamento muito convicto de que isto é um processo de trabalho que pode oferecer coisas que ainda não foram oferecidas em Lisboa, dentro das artes performativas. A ideia do projecto é interessante, mas a convicção de toda a estrutura é ainda mais interessante (…)”.
No processo, os artistas disponibilizam todas as ferramentas que têm e estão disponíveis para o outro, para aquilo que cada um individualmente propõe. Nas palavras de Tiago Rodrigues: “ (…) criar um espectáculo numa semana implica, por um lado, um esforço tremendo de persuasão dos outros, por outro, estar completamente disponível para os caminhos propostos (…). É mais do que partilhar experiências, é “usar essa experiência em conjunto”. “Não há outra hipótese senão confiar, porque eu vou saltar de um avião e é bom que aquele pára-quedas esteja bem dobrado. Individualmente eu faço uma proposta, mas a minha proposta vai estar protegida pelo empenho dos outros. Essa lógica de colaboração tem sido altamente eficaz, porque é a única forma de saber que começamos a trabalhar numa segunda-feira e que estreamos em quatro dias.”


O processo é este: cada um traz o material que quiser, propõe e experimenta-se, mas há uma decisão colectiva. Usa-se aquilo que é o melhor de cada um ou aquilo que cada um consegue impor aos outros a partir da sua capacidade de persuasão. “Trabalhar em democracia implica ser altamente individualista, ou seja, estamos a trabalhar colectivamente, por isso o meu objectivo, às vezes, é convencer os outros de que a minha ideia é a melhor.”
Em “Sempre”, sentia-se um experimentalismo seguro, como se tivessem a experimentar coisas que efectivamente sabiam resultar, sentia-se uma certa “rede” na criação, uma procura de respostas óbvias tendo em conta o pouco tempo que tinham tido para criar o espectáculo. Tiago Rodrigues diz que no segundo espectáculo (em cena até amanhã) existe uma maior ousadia, porque já perceberam que são capazes. “No primeiro, nós não sabíamos se era possível. Agora sabemos que sim, queremos fazer um espectáculo mais perigoso, e ir mais longe nesse formato. A possibilidade de acidente é muito maior, vamos mais desprevenidos e a desejar esse estado de alerta.”
Por outro lado, em “Sempre” existia uma tentativa de criar uma linha de compreensão, passar uma história, dar um sentido, que se pretende manter, mas não de forma limitativa, ou seja, que permitindo aos espectadores criar o seu próprio sentido.
No dia em que entrevistei Tiago Rodrigues, dois dias antes da estreia do segundo espectáculo, a ideia subjacente era esta: “(…) Se pudesse dizer sobre o que é que é este espectáculo diria que é sobre a tentativa de construir um espectáculo numa semana, de comunicar, e da comunicação ser falha e ser rica também porque transforma (…). É um espectáculo construído à volta da ideia de cópias de originais, de adulteração, embora isto seja uma interpretação minha, muito pessoal.”
Tendo em conta que não há um limite para ter o processo fechado, a não ser que 2 horas antes do espectáculo tem de existir uma construção preparada para mostrar, tudo o que foi dito ou feito até agora pode não ter nada a ver com o produto final desta semana. E para a próxima: quem sabe? Só sabemos que estreiam o último espectáculo no dia 23 e até dia 25 tudo pode ser posto em causa.

ANA MARIA DUARTE

Artigo publicado Jornal Semanário (17-07-2009)

Créditos das Imagens: José Frade

O universo das crianças explorado nas Curtas

Vila do Conde recebe 15 mil espectadores
Festival de Curtas de Vila do Conde


Vila do Conde muda mesmo durante uma semana. As pessoas que por ali passam são outras. Este ano, no recém-estreado Teatro Municipal de Vila do Conde, estiveram no total 15 mil espectadores. Realizadores, actores e outros que tais, andam por ali, nos mesmos restaurantes, nos mesmos espaços, todos com o intuito de ver curtas, de saber o que se tem feito por cá e pelo mundo.

A programação da 17ª edição do Curtas deste ano era bastante heterogénea, e para além das sessões de cinema, havia ainda as oficinas, exposições e coisas para os mais novos. Na primeira noite do fim-de-semana estava programado um filme-concerto com Vinicius de Cantuária e Naná Vasconcelos. Vinicius não pode vir e veio antes Norberto Lobo, que já andava por lá desde o inicio do festival. Num primeiro momento musicaram o filme “Manhatta”, de 1929, onde se destacou a percussão, mas onde tanto o diálogo entre os dois, como o diálogo com o filme não funcionaram tão bem como no segundo momento, em que conversaram com as imagens de “Ny Ny”, de 1957, de Francis Thompson. Aqui, Norberto recorreu à guitarra eléctrica e foi possível viajar de novo a New York e entrar num mundo de imagens moldadas por sons.
No dia seguinte ainda passavam filmes a competição. À noite anunciavam os premiados. E logo a seguir puderam-se ver duas sessões de filmes que já tinham vencido. E assim foi possível ver a maioria dos filmes premiados.
Ao nível internacional, o grande prémio “Cidade de Vila do Conde” foi para “A História da Aviação”, um filme franco-húngaro, realizado por Balint Kenyeres. Uma família faz um picnic. São um grupo de pessoas de classe média-alta. A mãe não encontra a filha, que anda pelas montanhas a ver um voo até ao mar. É uma história situada na Normandia no início do século XX.
O prémio animação foi entregue a “Dust Kid” (Coreia do Sul), um filme de Jung Yumi. Fala de uma rapariga que encontra rapazes de pó, mas na verdade acho que Yumi nos queria contar da aceitação da sua criança interior, que por muito que ele a tentasse apagar voltou sempre. Um filme de uma simplicidade tocante, com movimentos delineados a preto e branco.
O prémio de melhor curta-metragem europeia foi para “Renovare” (Alemanha/Roménia), de Paul Negoescu, que nos dá 3 olhares sobre um mesmo momento, através de três personagens, e o prémio do Público foi para a animação francesa “Logorama”, de François Alaux, Hervé de Crécy e Ludovic Houplain, onde temos um mundo de marcas levado ao absurdo. A ironia do consumismo e do marketing levada ao extremo, através de um tumulto na cidade de L.A.
Na categoria dos vídeos musicais venceu “The BPA – Toe Jam” (Reino Unido) de Keith Schofield e na competição Take One!, o filme “Eu adoro este som!” (Portugal), de Zulmira Gamito, Filipe Fernandes e Rui Matos, que também explora o musical, mas o das crianças, fazendo-nos reflectir e rir sobre esta ideia do que sentem os miúdos através da música.
Uma das conclusões que surgiram ao sair de Vila do Conde foi o facto de muitos filmes explorarem o universo das crianças. Era o caso deste filme, mas também do vencedor “A História da Aviação” e de “Echo” que contava a história de dois rapazes que mataram uma rapariga, em que se explora o confronto com a realidade, aquilo que está por trás do acto, a influência dos pais no comportamento humano, como em “The Ground Beneath”, de René Hernandez, que venceu na categoria “Curtinhas”, que consiste numa viagem emocional de um jovem adolescente, Kaden, que vive uma vida de medo e ameaças, focado na figura do seu pai, mas que nos fala, com um olhar um pouco moralista, da oportunidade e da capacidade de mudança e auto-descoberta (pormenor estranho: um filme que explora a violência emocional estar enquadrado na secção “Curtinhas”, dedicada a um segmento infanto-juvenil).
Destaques ainda para “Madam Butterfly” (Taiwan), de Tsai Ming Liang, que ganhou o prémio ficção, e “Entrevista con la Tierra” (México), que venceu o prémio documentário.
Em competição nacional o vencedor foi “Canção de Amor e Saúde” de João Nicolau. O humor do realizador de Rapace continua sublime. Curtas de Vila do Conde chegou ao fim, mas com a promessa de que para o ano haverá mais.

ANA MARIA DUARTE

Artigo publicado Jornal Semanário (17-07-2009)

Diz-me o que assinas, dir-te-ei quem és.

“Contracções” na Culturgest
A realidade empresarial dos contratos surreais


“Contracções” é um espectáculo que nos fala do mundo empresarial, da realidade dos despedimentos e daquilo a que estamos dispostos a renunciar para manter um emprego. A peça, com encenação de Solveig Nordlund, está em cena na Culturgest até sábado. A interpretação é de Joana Bárcia e Cecília Henriques.

A apresentação de uma peça com esta temática não poderia ser mais actual. Integrado no Festival de Almada, “Contracções” explora, no palco da Culturgest, um universo de fragilidades humanas: a incapacidade de acção perante as empresas que contratam. Assinado por Mike Bartlett – jovem dramaturgo britânico – o texto aborda o tema dos despedimentos, das condições estabelecidas nos contratos de trabalho, na forma de integração social dentro das empresas, de uma forma extraordinária, em que recorre à sátira, conseguindo um texto divertido, mas de alerta de consciência.
Emma é uma jovem vendedora que, em determinado momento da sua vida, decide assinar um contrato com uma multinacional. Nesse papel especifica-se as condições e as formas do trabalho, nomeadamente o grau permitido de relacionamento de colegas dentro da empresa. A directora controla tudo ao milímetro, verificando se todas as cláusulas do contrato estão a ser cumpridas. É um tema levado ao limite, às últimas consequências, tocando o absurdo, mas que, infelizmente, toca muitas vezes a realidade. O direito ao trabalho e as exigências laborais são algo cada vez menos considerado por quem pratica este género de contratos. Dizem eles: “nada de relações românticas ou sexuais”. Mesmo que se concorde, porque temos de assinar um papel que nos indica este tipo de comportamentos a manter. Que cores de verniz posso usar?
Segundo a encenadora Solveig Nordlund, este é um espectáculo que tem actualidade dada a época de despedimentos, da crise, conjuntura que leva as pessoas a sacrificar os seus próprios valores e crenças para manter o emprego. «“Contracções”, do jovem dramaturgo britânico Mike Bartlett, trata de um assunto sinistramente actual. É uma peça humorística que nos deixa o riso atravessado. A cada dia que passa parece-me mais realista.» – diz Solveig. Que nos riamos, para não chorar, mas este mundo existe mesmo. E quando não vem nos contratos ainda há a hipótese da crítica pela não integração neste meio.
Estreado no passado dia 13 de Julho, o espectáculo ficará em cena, no Pequeno Auditório da Culturgest, até amanhã, sempre às 21h30.

ANA MARIA DUARTE

Artigo publicado Jornal Semanário (17-07-2009)

Sons do mundo rumo a Sines

O regresso das músicas do mundo
FMM em Sines e Porto Covo


Sines já é conhecida como a capital da “world music” em Portugal. Aliás, este é o 11º ano em que esta cidade recebe o Festival Músicas do Mundo (FMM). Entre 17 e 25 de Julho, em Sines (com extensão para Porto Covo), o público poderá assistir a um conjunto de concertos que integra alguns dos melhores projectos ao nível das músicas do mundo.

O Festival de Músicas do Mundo está de volta à costa alentejana, com 37 projectos musicais programados, dos quais mais de 20 estão em estreia absoluta no país. A origem dos projectos tem as mais variadas origens: Europa, África, Médio Oriente, Ásia e Américas.
A primeira parte do festival – 17, 18 e 19 de Julho – tem lugar em Porto Covo. A partir de 20 de Julho, a música transita para os três palcos da cidade de Sines: Centro de Artes de Sines, Praia Vasco da Gama e Castelo medieval. De Cuba chega um pianista – Chucho Valdés – um dos melhores no jazz, que conta já com cinco Grammys ao longo da sua vida artística. Da Índia chega o mestre da “slide guitar”, Debashish Bhattasharya, eleito melhor artista da Ásia / Pacífico nos BBC Radio 3 World Music Awards 2007. Ainda neste grupo de músicos convidados premiados pelo mundo, está o grupo de hip hop senegalês Daara J Family, melhor grupo africano da edição de 2004 dos mesmos prémios, e um dos mais interessantes projectos da folk europeia, a banda polaca Warsaw Village Band, revelação com selo BBC em 2003.
No campo das revelações vêm as cumbias psicadélicas de Chicha Libre e a doce música de intervenção de Rupa & The April Fishes, exemplos do melhor da criação musical cosmopolita com origem nos EUA. Fazem ainda parte deste conjunto de revelações o grupo chinês Hanggai, a cantora israelita Mor Karbasi e o quarteto de jazz britânico Portico Quartet, todos autores de discos de estreia lançados em 2008, com boa recepção.
Além disto, constituem promessas de espectáculos, dada a sua componente visual forte, os congoleses Kasaï Allstars, o brasileiro Cyro Baptista, o argentino Ramiro Musotto, a orquestra de Afrobeat do nigeriano Dele Sosimi e a Orquesta Típica Fernández Fierro, um dos melhores agrupamentos de tango argentino da actualidade.


Em palco sozinhos, mas prometendo também bons concertos, foco no “bluesman” James Blood Ulmer, uma das figuras de referência da música negra norte-americana, no trovador do Burkina Faso, Victor Démé, e em Mamer, um surpreendente jovem cantautor com raízes do interior da China.
Destaque ainda para os italianos Circo Abusivo, numa fusão cigana, para os britânicos The Ukrainians, que nos trazem folk punk, e a mistura de jazz, heavy metal e “world music” da banda finlandesa Alamaailman Vasarat.
Em termos de projectos com origem lusófona, os nomes sonantes são os dos O’questrada, Wyza, que traz música angolana contemporânea, Carmen Souza, com jazz vocal de sabor cabo-verdiano, o duo Assobio, o sitar indiano de Paulo Sousa, o quinteto Melech Mechaya, e ainda Janita Salomé, Uxia Senlle, Acetre, Narf e Manecas Costa.
Um dos concertos imperdíveis será certamente o do cantor Bibi Tanga, natural da República Centro-Africana, que terá a seu lado o DJ francês Le Professeur Inlassable.
A encerrar o festival, no dia 25 de Julho, estará primeiro o jamaicano Lee ‘Scratch’ Perry, uma das figuras mais importantes do reggae e do dub, que terminará os concertos no palco do Castelo, e depois os franco-argelinos Speed Caravan que fecham o festival, junto à Praia Vasco da Gama.
O FMM é uma organização da Câmara Municipal de Sines e tem vindo a dinamizar a cidade através desta festa, além de promover a descoberta de novos artistas e de expressão musical em Portugal. Para este ano, a organização espera mais de 80 mil espectadores. O preço do bilhete para cada noite de música é de 5 euros em Porto Covo e de 10 euros no Castelo. O custo dos espectáculos no Centro de Artes de Sines varia entre os 5 euros (22, 23, 24 e 25 de Julho) e 10 euros (20 e 21 de Julho). Os sete concertos realizados na Avenida Vasco da Gama, junto à praia, têm entrada livre.

ANA MARIA DUARTE

Artigo publicado Jornal Semanário (10-07-2009)

O cinema invade Vila do Conde

17º Curtas de Vila do Conde
Festival Internacional de Cinema


Está de volta o “Curtas Vila do Conde”, um festival internacional de cinema, que conta este ano com a 17ª edição. Simultaneamente acontece a reabertura do Teatro Municipal de Vila do Conde, que esteve em remodelação desde 2006. De 4 a 12 de Julho, Vila do Conde transforma-se, recebendo uma série de filmes que no seu todo constroem uma programação emblemática e que privilegia a diversidade.

O Curtas Vila do Conde começa amanhã e durante nove dias apresentará um conjunto de abordagens e propostas do universo cinematográfico, cruzando-as com outras linguagens artísticas como as artes plásticas, vídeo-arte e música.
Em foco estarão dois cineastas libaneses – Joana Hadjithomas e Khalil Joreige – em retrospectiva, através da projecção de curtas e longas-metragens, mas também fotografia e instalação vídeo. Também em destaque, mas integrada na secção “In Progress”, está a filandesa Salla Tykkä, que tem vindo a desenvolver um percurso singular entre a fotografia, o vídeo e o cinema, e cuja obra tem vindo a ser vindo a ser aclamada a nível internacional.
No que diz respeito às secções competitivas, o festival integra a “Competição Internacional”, com aproximadamente 40 curtas-metragens de todo o mundo, a “Competição Nacional” com cerca de 15 filmes em estreia absoluta, a competição de filmes de estudantes portugueses, “Take One!”, a competição “Remixed” para filmes experimentais, e ainda uma competição de vídeos musicais e uma competição “Kids”, com filmes para os mais jovens.
A competição nacional mostrará 11 filmes que reflectem o momento de prestígio internacional que o cinema português atravessa actualmente, sendo a maioria estreias. Também a secção “Take One!” poderá mostrar novos artistas nacionais, já que apresenta trabalhos dos estudantes das escolas de cinema e audiovisuais portuguesas. Composto por uma competição de filmes de escola, conta com uma selecção final que resultou num total de 12 filmes, e proporciona ainda um programa formativo, sob a forma de workshops.
Uma das características essenciais do Curtas tem sido a sua capacidade de adaptação e de crescimento. Este ano apresenta duas novas secções competitivas: a competição “Remixed”, onde está mais presente o experimentalismo, através de curtas, longas, live cinema, filmes concertos, performances e instalações que exploram a flexibilidade dos territórios do cinema com outras áreas artísticas; e a pensar no público mais jovem, a nova secção “Curtinhas”, uma aposta na formação e sensibilização de públicos que resulta das experiências anteriores do Curtas e do projecto anual ANIMAR, que há 4 anos programa actividades de educação pela imagem dirigidas a crianças e jovens de diferentes faixas etárias. Para além de uma série de outras iniciativas – workshops para pais e filhos, espaço infantil nas instalações do Festival – inclui uma competição de filmes para crianças.
A secção “In Progress” vem uma vez mais revisitar autores cujas obras foram já exibidas em Vila do Conde, acolhendo o mais recente trabalho do realizador norte-americano Jim Jarmusch em antestreia nacional, e o regresso de Manoel de Oliveira, após a homenagem realizada em 2008 pelo Curtas a propósito da comemoração do seu 100º aniversário, com a curta-metragem “Romance de Vila do Conde”, filmada na cidade na década de 60 com a participação de José Régio.
O festival conta ainda com o programa especial “Back to the future”, numa revisitação ao futuro, este ano dedicado à produção cinematográfica da Grécia, Suécia, Dinamarca, Finlândia e Roménia. Ver-se-ão as utopias do século passado, que nos fazem regressar a um futuro brilhante.
Simultaneamente ao festival, decorrerá o 13º Mercado da Curta Metragem, dedicado exclusivamente a profissionais, que permite o visionamento em vídeo de todos os títulos inscritos, curtas-metragens recentes de todo o mundo listadas com todos os dados mais importantes.
A sessão oficial de abertura do Festival acontece amanhã, às 22h00, na Sala 1 do Teatro Municipal de Vila do Conde, com o filme-concerto de Tigrala, projecto de Norberto Lobo e mais dois músicos, que interpretará uma banda sonora original para “Tabu” (1931), o último filme do cineasta alemão F.W. Murnau, co-realizado com Robert J. Flaherty, e ainda com a estreia nacional do filme "The Limits of Control" de Jim Jarmusch. Consulte o programa completo em www.curtas.pt.

ANA MARIA DUARTE

Artigo publicado Jornal Semanário (03-07-2009)

A Paixão em “Pitié!”

Novas dimensões de Bach
Criação de Platel e Cossol


“Pitié!” é o mais recente trabalho de Alain Platel e de Fabrizio Cossol. Um espectáculo que partiu da “Paixão segundo São Mateus” para criar algo baseado nas ideias de colectividade, de partilha, de paixão em vez de compaixão, onde aquilo que se procura é quase uma mensagem contrária à de sacrifício. As vozes ecoam pelo palco, os movimentos são de tensão, mas “I love you” é a mensagem que acaba por apaziguar as almas que assistem a este diálogo entre corpo e voz, entre Cossol e Platel, e entre os dois e Bach. Dias 3 e 4 de Julho, no Centro Cultural de Belém. Mais tarde, no Porto.

“Pitié!” surge no seguimento da experiência de 2006, com “VSPRS”, em que também Platel e Cossol foram co-autores. O espectáculo tem como fio condutor a transposição musical da Paixão de Cristo, composta por Johann Sebastian Bach, aqui delicadamente reorquestrada por Fabrizio Cassol, mas Platel confere a esta obra-prima de Bach uma inesperada dimensão de sensualidade e cor. Cassol centra-se na dor de uma mãe, parte que não existe na versão original da “Paixão segundo São Mateus”, no que diz respeito ao inevitável sacrifício dos seus descendentes. A parte de Cristo é adaptada para duas almas com um destino comum, conferindo sentido à composição. Cassol optou por três cantores: uma soprano para a mãe, e duas vozes muito parecidas uma com a outra (contralto / mezzo e contratenor) para as crianças. A orquestra está assente no Trio Aka Moon, juntamente com Magik Malik (flauta e vozes), Tcha Limberger (violino), Phillippe Thuriot e Krassimir Sterev (acordeão), entre outros. A história é transformada em música. Nas vozes estarão Claron Mc Fadden, Laura Claycomb, ou Melissa Givens; Cristina Zavallon, Maribeth Diggle ou Monica Brett-Crowther e Serge Kakudji. Interpretam o espectáculo, os bailarinos do “les ballets C de la B”: Elie Tass, Emile Josse, Hyo Seung Ye, Juliana Neves, Lisi Estarás, Louis-Clément Da Costa, Mathieu Desseigne Ravel, Quan Bui Ngoc, Romeu Runa e Rosalba Torres Guerrero.
“Erbarme dich” é uma das árias mais conhecidas da “Paixão segundo São Mateus”, sendo também um dos alicerces da música e conteúdo composta por Cassol. Surgem várias questões: “a nossa capacidade vai além da piedade? A compaixão será algo que ansiamos ardentemente quando a vida e morte se tornam demasiado opressivas?” O tema principal da “Paixão segundo São Mateus”, abordado intensamente, é o sacrifício individual, o de nós mesmos. “Para quê e para quem estaríamos prontos a sacrificar a nossa própria vida?” – esta é uma pergunta que não parece ter muito sentido tendo em conta a sociedade contemporânea, mas Alain Platel coloca-a aos bailarinos e faz-nos pensar sobre isto. Platel quer trabalhar com os bailarinos na forma de dança “bastarda” procurando uma tradução física de emoções muito intensas, processo que já vem de “VSPRS”, e acaba por conseguir criar, com os seus bailarinos, com os músicos e cantores, um espectáculo que assenta na força do grupo, na união, já que ele aspira a algo que transcenda o individual.
O termo “compaixão” dá-nos antes “a paixão partilhada com os outros”. Aliás, a mensagem do primeiro dueto é: “I love you”. São duas horas de espectáculo. Desde os primeiros sons, os primeiros movimentos dos corpos em palco que se vive a ideia de sacrifício e de compaixão, mas em “Pitié!” existe uma ideia de paixão, mais do que compaixão, uma mensagem que é murmurada isolada e colectivamente, através dos corpos e dos sons, corpos que provocam tensão num espectáculo em que são as vozes interiores que sobem à superfície e as exteriores vêm de um certo desejo de encontra. Diz quem viu que se sai sereno, apaziguado e desarmado do espectáculo. E depois da vinda do mestre Platel a Lisboa, o espectáculo “Pitié!” seguirá para o Porto para desarmar mais algumas almas. Nos dias 7 e 8 de Julho, no Teatro Nacional São João, integrado no “Dancem! 09”.

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado Jornal Semanário (03-07-2009)
Créditos da imagem: Chris Van der Burght

CocoRosie no CCB

Uma viagem intensa
A dupla da inocência e da sensualidade

Vieram e arrasaram de uma forma intensa. A dupla CocoRosie esteve primeiro em Vila Flor, num Centro Cultural esgotado (20 Junho) e, na noite seguinte, no Grande Auditório do CCB. O segundo espaço não encheu para receber as CocoRosie, mas quem decidiu ir saiu mais uma vez rendido a este novo mundo.




Bastou entrar no CCB e ver o palco pintado de objectos vários e brinquedos, que nos levavam para o tal universo onírico, para começar a viagem. E essa foi realmente intensa, encantadora e sublime.
Bianca e Sierra surgiram com uma bandeja de chá, que bebericaram na frente do palco. Começaram com uma lengalenga daquelas que as miúdas da escola primária cantam no recreio, e foram apresentando uma série de canções, que tanto nos transportavam para o R&B, como para a melancolia e a magia de “La maison de mon rêve”. Ficámos muitas vezes entre a inocência e a sensualidade, conseguidas pela música, mas também pela presença de Sierra e Bianca. Até as projecções se integraram nesta dualidade: onírico/real, infantil/sexual, mostrando as eternas imagens dos “Ursinhos Carinhosos” e dos “Pequenos Póneis”, mas também imagens de praias, de pessoas, de lugares que existem mesmo, de uma pomba branca que voa e não sai do mesmo sítio, de Barbies e modelos americanas, desconstruindo ideais de beleza, entre maços de dólares e fogo-de-artifício.


Acompanhadas por um pianista/teclista e por um baterista, desta vez as manas não trouxeram Tez, o beat-boxer que as costuma acompanhar em concerto, sendo Bianca que através da mesa de mistura nos foi dando o beat, já que a bateria foi sempre bastante monótona, não trazendo grande mais-valia ao concerto. A troca de instrumento dos músicos foi quase constante, principalmente para Sierra que tocou piano, harpa e guitarra, entre outros. Bianca esteve sempre mais ligada à experimentação, através de objectos que nos vão dando sons meio infantis misturados com gravadores e instrumentos de sopro. O concerto passou por “La maison de mon rêve”, por “Noah’s Ark” e “The Adventures of Ghosthorse”, tendo ainda tempo para apresentar o novo disco “Coconuts, Plenty of Junk Food”. A interacção entre as duas é sublime, é mais um diálogo com duas pessoas que valem mesmo por si só, criando momentos perfeitos entre a suavidade da voz de Sierra-Rose, que toca tantas vezes a ópera, e a batida e segurança das vocalizações de Bianca. Este concerto passou pela folk electrónica, R&B, e dream pop. A esfera indie intimista foi envolvida por tantos outros sons.
Já no final surgem duas mulheres para dançar, quebrando um pouco todo o ambiente que tinha sido criado, mas Sierra e Bianca estão em festa. Com dois encores, um em que nos oferecem a incrível versão de “Turn me on”, outro onde Bianca faz VJ e DJ com um vídeo de Alexyss Tylor “Love Honor & Respect Your Vagina” directamente do youtube, a despedida foi difícil. Nunca pensei ouvir no Grande Auditório do CCB as CocoRosie, muito menos gritando “Vagina Power”. Rendo-me uma vez mais.

ANA MARIA DUARTE

Artigo publicado Jornal Semanário (26-06-2009)

Créditos das imagens: Nuno Moreira