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segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

A Man in a Room Gambling



Gavin Bryars Ensemble
Iniciativa paralela à exposição de Juan Muñoz

Gavin Bryars Ensemble interpreta “A man in a room gambling”, numa iniciativa paralela à exposição hoje, dia 19 Dezembro, às, 22h00, no Auditório de Serralves.
O Gavin Bryars Ensemble interpreta uma selecção de temas que resultam da colaboração de Bryars com Juan Muñoz. “A Man In A Room Gambling” surgiu de uma encomenda da BBC Radio 3 e da Artangel, e foi concebido para ter o carácter de um programa de rádio, e desenvolvendo-se segundo uma sequência de textos sobre estratégias usadas em jogos de cartas, acompanhados por música. “Desde o lançamento do trabalho, este tem vindo a ser apresentado como concerto musical ao vivo, onde conjuntos de quatro ou cinco peças são interpretados em sequência, como neste caso, e a orquestração tem sido modificada para dar uma instrumentação ligeiramente diferente a cada peça. O objectivo continua a ser, como no caso da Shipping Forecast, o de dar ao ouvinte a vaga impressão de que isto pode ser uma actividade altamente dramática e gerar a sensação de um espaço imaginário nestes cinco minutos.....”. O programa deste concerto inclui ainda “The North Shore”, a obra memorial que Bryars dedicou a Muñoz.
Gavin Bryars é um compositor e contrabaixista inglês com trabalho realizado em áreas musicais tão diversas como o jazz, a improvisação e a composição musical, abordando linguagens como a experimentação, o minimalismo e o neoclassicismo. Ao longo da sua carreira, Byrars tem também investido em várias colaborações com encenadores e coreógrafos, de onde podemos destacar Robert Wilson (na ópera Medea”, ou na inacabada “CIVIL WarS”), Merce Cunningham (em “Biped”) ou Lucinda Childs (com “Four Elements”) Entre as suas obras mais conhecidas encontramos “The Sinking Of The Titanic” e “Jesus Blood Never Failed Me Yet”.
A propósito deste projecto, Gavin Bryars diz que quando o convidaram para esta colaboração, “(…) Obviamente, a ideia de trabalhar com um escultor num meio não-visual era muito interessante e constitui um desafio, especialmente quando percebi que íamos tentar descrever acções que envolvem truques e ilusões visuais e depois inseri-las num contexto de difusão radiofónica.(…). Para o nosso projecto, que acabou por se chamar “A Man in a Room Gambling” (“Um homem num quarto, apostando”), Juan escreveu dez textos, cada um descrevendo a manipulação de cartas de jogar – distribuindo as cartas do fundo do baralho, evitando fracassar no Three-Card Trick (truque de três cartas), escondendo uma carta na mão, etc. Algum deste material foi recolhido dos ensaios do mestre canadiano, S. W. Erdnase especialmente do seu livro “The Expert at the Card Table” que contém alguns dos mais perfeitos truques envolvendo a manipulação de cartas. Decidimos que cada episódio duraria cinco minutos e seria concebido para ser difundido antes do último noticiário da noite para assegurar que o programa, pelo menos na Grã-Bretanha, seria ouvido um pouco como o “Shipping Forecast” (Prognóstico Marítimo), que é difundido pelo BBC a quatro horários muito específicos durante cada dia. Do seu lado, Juan imaginou um ouvinte conduzindo o seu carro na autoestrada à noite, estupefacto por encontrar esta curiosidade efémera e talvez enigmática, precisamente na mesma maneira que a maioria dos ouvintes reagem ao Shipping Forecast.”
Serralves recebe um programa que nos possibilita ver aquilo que foi construído para a rádio, durante duas horas. Por outro lado, a RUC (Rádio Universitária de Coimbra) estará em Serralves, para uma emissão especial entre as 22h e as 24h em 107.9 FM. A transmissão em directo possibilita aos ouvintes a vivência desta obra inicialmente concebida para a rádio, mesmo se desta forma os ouvintes não experenciam a obra em partes, como inicialmente, mas numa sequência que seguramente nos transportará para um lugar imaginário e que nos fará compreender melhor, ou pelo menos ter uma visão de um ângulo diferente, da obra de Juan Muñoz.

ANA MARIA DUARTE

Artigo publicado no Jornal Semanário (19.12.2008)

Juan Muñoz: uma retrospectiva


Forma humana de arte
Escultura em Serralves

A exposição do escultor Juan Muñoz no Museu de Serralves poderá constituir, por si só, um motivo para ir ao Porto. Depois de ter passado por Londres e Bilbao, a mostra de um dos escultores mais inovadores dos últimos anos poderá ser vista até ao dia 18 de Janeiro.

Exposição co-produzida pela Tate Modern, Londres, e a Sociedad Estatal para la Acción Cultural Exterior de España – SEACEX, em associação com o Museu de Arte Contemporânea de Serralves, a exposição do escultor espanhol Juan Muñoz, chega à cidade do Porto, depois de passar pela Tate Modern, em Londres, e pelo Museu Guggenheim, em Bilbao.
O artista Juan Muñoz faz parte de uma geração de artistas europeus surgidos nos últimos vinte anos, cuja obra alargou consideravelmente a linguagem da escultura, por ter recolocado a figura humana no centro da arte, criando tantas vezes obras que provocam não só sensações momentâneas através da utilização da ilusão óptica, mas que nos provocam sensações e reflexões retardadas no tempo por nos recolocar numa posição de questionamento artístico e individual. Ao longo da sua carreira, precocemente terminada, Muñoz conseguiu devolver à figura humana um lugar central na arte mas recolocando-a, através da sua perspectiva única, num local ao mesmo tempo familiar e estranho.
Muñoz nasceu em Madrid em 1953. Na década de setenta viajou para Inglaterra para estudar no Croydon College e na Central School of Art and Design. Em 1982 viajou para os Estados Unidos, prosseguindo os estudos no Pratt Centre de Nova Iorque. Teve a sua primeira exposição em 1984 na galeria Fernando Vijande, de Madrid. Desde então expôs os seus trabalhos frequentemente na Europa e em outras partes do mundo. O escultor faleceu subitamente, aos 48 anos de idade, na sua casa de Verão em Ibiza, a 28 de Agosto de 2001. Na altura da sua morte a sua obra Double Bind estava em exposição na Tate Modern, em Londres. Foi este o museu a mostrar primeiro esta exposição que possibilita ao público conhecer e viajar pela sua obra, através de uma visão que funciona em retrospectiva.
A exposição, agora patente em Serralves, inclui obras chave de todos os aspectos do trabalho de Juan Muñoz, incluindo as bem conhecidas esculturas e instalações, mas também som e os esboços dos desenhos Raincoat, entre outras séries. Inovadora e abrangente, esta mostra cria, através do encontro com as suas conversation pieces ou esculturas sonoras, formas inteiramente novas de ver e pensar sobre nós.
Muñoz alcançou a notoriedade em meados da década de 1980, altura em que protagonizava o movimento vanguardista do regresso à forma humana na arte. As figuras de Muñoz não são, contudo, a matéria tradicional da escultura clássica. “Situadas em ambientes arquitectónicos, podem estar sentadas em bancos ou colocadas a meia altura numa parede. São, com frequência, figuras de um circo, de um teatro ou de um quadro de Velázquez – anões, pontos de teatro, bailarinas – imobilizadas num momento e subentendendo uma história implícita que ao público cabe imaginar.”. Esta não-categorização das figuras, que por isso podem ser categorizadas e rotuladas pelo público, ou não, porque cabe a cada um integrá-las num espaço próprio, distanciado da própria condição de escultura, constitui a principal essência do trabalho de Muñoz, que desta forma criou no seu tempo um movimento de vanguarda, mas que perdura pela sua capacidade de fazer reflectir, sem tempo.
Além disso, e apesar de naturalistas, as figuras que constituem as suas esculturas têm uma estatura inferior à dos humanos, parecendo por isso feitas à escala real quando observadas à distância mas distantes do observador quando vistas de perto, uma ilusão óptica frequentemente utilizada pelo autor. Esta é, sem dúvida, uma exposição a não perder e que ficará aberta ao público, no espaço do Museu de Serralves, durante mais um mês, tendo inaugurado no mês de Outubro. A próxima visita guiada a esta exposição será realizada a 13 de Janeiro, às 18h30, por João Fernandes.
ANA MARIA DUARTE

Artigo publicado no Jornal Semanário (12.12.2008)