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segunda-feira, 26 de outubro de 2009

África em Belém

CCB Fora de Si
Últimos fins de semana de Agosto


O CCB Fora de Si dedica os dois últimos fins-de-semana ao continente Africano, reforçando a sua essência de transculturalidade.
Julie Dossavi dá início a uma programação oriunda de África que se mantém até ao dia 28 de Agosto, data de encerramento do evento. Misturando formas de dança africana contemporânea, com um certo urbanismo, através de um conjunto de solos e duetos, mistura rituais tribais com saltos de ginástica. A bailarina e coreógrafa francesa faz-se acompanhar de percussionistas, voz e electrónica, numa criação distinta, cheia de expressividade. O espectáculo denominado P.I. (pays) é apresentado no dia 21 de Agosto, às 22h, na Praça do Museu.
O grupo Etran Finatawa, oriundo do Níger, é formado por tuaregues e wodaabe, dois povos nómadas com culturas muito diferentes. A sua música, com sonoridades bastante distintas, combina a riqueza de duas linguagens, já que os wodaabe tradicionalmente não utilizam instrumentos e centram-se na voz, enquanto que os tuaregues sempre recorreram a violinos e tambores. A sua música mistura estas duas origens num mesmo palco, neste caso, na Praça do Museu. O concerto está marcado para as 22h de sábado.
Para domingo à noite, a festa está reservada para os Terrakota, que fundem na sua música, uma série de influências musicais, nomeadamente o reggae e a música árabe, passando pelos sons afro-cubanos. Este é um projecto de origem portuguesa, mas que obteve rapidamente a internacionalização, conquistando pela sua energia e entusiasmo.
Ainda há tempo para cinema, sexta e domingo, às 21h, no Pequeno Auditório são projectados “Xala” e “Ceddo”, dois filmes do cineasta senegalês Ousmane Sembene, o primeiro realizador de um país africano a alcançar reconhecimento internacional. O filme “Xala” (1975) denuncia a opressão das raparigas jovens pela classe masculina colonialista, através do retrato de um casamento de uma adolescente com um homem mais velho. Em “Ceddo” (1977), documenta através de uma personagem feminina as incursões colonizadoras do islão e da europa na sociedade africana. Um retrato da luta pela resistência da cultura e das tradições africanas.
No segundo fim de semana dedicado a África também há cinema, de Haile Gerima, que se debruça sobre temas relativos aos problemas de integração social e racial. “Sankofa” (1993) é um filme que regressa à época da escravatura para nos fazer ver o funcionamento daquela época ao olhar dos africanos. “Adwa” (1999) fala da batalha de Adwa, entre etíopes e italianos, em que pela primeira vez uma nação colonizada vencia os seus ocupantes. Este filme parte desta batalha para chegar a um retrato da força da sua nação e do seu povo.
No dia 28 passa também “Kirikou et la Sorciere” (1998). Baseado num conto tradicional africano, este filme do realizador francês Michel Ocelot conta a história de Kirikou, um menino recém-nascido que chega ao mundo com a capacidade de falar e uma astúcia sem igual. kirikou decide enfrentar a feiticeira Karaba, a responsável pela falta de água na aldeia, e, pelo caminho, vai fazendo perguntas que mais ninguém se lembrou de perguntar.
A nova peça coreográfica da companhia senegalesa Jant-Bi baseia-se nas mais belas danças tradicionais africanas, oriundas de países como o Mali, a Guiné, o Burkina Faso, a Costa do Marfim, o Benim, o Congo e o Senegal. O espectáculo será apresentado na sexta feira, dia 28, no Grande Auditório.
“Retalhos em Viagem” é o conjunto de cinco solos, centrados em cinco personagens que transitam algures entre o que são e o que gostariam de ser, entre o que têm e o que lhes falta. As performances vão acontecendo ao longo do fim fe semana, no Jardim das Oliveiras.
Seun Kutil, filho do lendário afro-beat Fela Kuti, dirige a banda Egypt 80, que encerra o CCB Fora de Si. Herdou do seu pai a música de fusão, entre o jazz, o funk e os ritmos africanos, criada por Fela nos anos sessenta. As suas canções revelam a sua preocupação pelas graves questões políticas e sociais que afectam a África. Sábado, no Grande Auditório, às 21h. E assim terminará a programação de Verão do CCB, com grande destaque nos dois últimos fins de semana de Agosto para o continente Africano.

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado Jornal Semanário (21-08-2009)

Jovens criadores nacionais em destaque

CCB Fora de Si
Belém Urbana


Este fim-de-semana, o CCB Fora de Si foca-se numa programação dedicada aos jovens criadores nacionais. “Belém Urbana” é o projecto que está na origem do resultado apresentado. Pretende valorizar a componente artística portuguesa. Serão sete projectos escolhidos entre 230. Música, performance e instalação, de sexta a domingo.

Catarina dos Santos é uma cantora e percussionista portuguesa, que reside em Nova Iorque. Mistura sons tradicionais portugueses, africanos e brasileiros, com jazz. “No balanço do mar” combina funk e ritmos de Nova Orleães, que traz na bagagem para o concerto, esta noite, às 22h.
Os Tora Tora Big Ban juntam jazz, world music, afro, latin, reggae e funk, numa só orquestra. O concerto da banda acontece no dia seguinte, à mesma hora.
No sábado também haverá baile, com inspiração nos anos 70. “O Baile dos Candeeiros” é uma performance com inspiração no “Baile dos cinco candeeiros”, originalmente criado na Foz do Douro. Candeeiros humanos participam e dinamizam o baile, a partir das 21h30.
Os Groove 4tet surgiram da necessidade que tinham de criar algum espaço sonoro onde pudessem expor as suas influências e ambições musicais diversas. No domingo, dão um concerto na Praça do Museu, apostando em covers de artistas soul, blues, funk e jazz, mas também em alguns originais.
Além da música, durante todo o fim-de-semana estarão presentes 3 instalações: “Azulejos Humanos” de Nuno Maya e Carole Purnelle; “Resíduos Urbanos” de Filipa Guimarães e “This is a Love Act” de Teresa Luzio. “Azulejos Humanos” é uma instalação interactiva que utiliza videoprojectores para criar azulejos virtuais. As cores e os movimentos das pessoas e das suas roupas são projectados em tempo real na fachada do CCB, criando padrões animados.
Na entrada do CCB encontrar-se-á uma quantidade de lixo espalhado, feito de diversos materiais. Será “Resíduos Urbanos”, a instalação de Filipa Guimarães, que chama a atenção para este fenómeno urbano, através de uma mensagem interventiva social e ambientalmente.
“This Is A Love Act” é uma instalação com um compromisso de amor impresso. Com este trabalho, Teresa Luzio pretende exibir um compromisso amoroso e estabelecer uma ligação emocional com o público. Esta instalação estará na entrada, nas bandeiras coloridas do CCB.
A programação completa-se com oficinas no Jardim das Oliveiras (Oficina Cidade Portátil), oficinas hip hop.

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado Jornal Semanário (14-08-2009)

Reencontro com a Ásia

CCB Fora de Si
Projectos multi-culturais


O CCB Fora de Si dedicou a programação do passado fim-de-semana à Ásia. Este fim-de-semana mantém-se o foco neste continente, contribuindo para a partilha de origens e o conhecimento de projectos multi-culturais.

Johan Iorbeer traz “Working Class Hero”, um espectáculo denominado de “still life performance”. O seu trabalho é desenvolvido numa fronteira muito ténue entre a imagem e a apresentação, sendo que o artista alemão se foca principalmente no fenómeno da percepção, desenvolvendo posturas no espaço que reflecte a alienação surrealista do quotidiano. A percepção do público é normalmente tocada pela perturbação. O espectáculo será apresentado no caminho pedonal, sexta e sábado às 18h e domingo, às 17h.
Durante o fim-de-semana serão projectados dois filmes que retratam de diferentes formas o Tibete, de dois realizadores que procuram a sua origem.
“Stranger in my Native Land” (1998) é um retrato cinematográfico, numa visão muito pessoal, de Tenzing Sonam, à sua terra de origens, no Tibete. Tenzing é filho de pais tibetanos e nasceu em Darjeeling, no nordeste da Índia. Neste filme o realizador reencontra-se com vários familiares e percorre o Tibete desde Amdo a Lhasa. Além do regresso às origens, este é um filme com uma visão política, onde podemos assistir ao desespero da opressão do país, resultante da ocupação chinesa.
“Dreaming Lhasa” (2005) é um filme de Karma, realizadora tibetana residente em Nova Iorque. O filme regista a visita de Karma ao refúgio de Dalai Lama no norte da Índia, documentando o percurso e as histórias dos prisioneiros políticos que conseguiram fugir do Tibete.
É, à semelhança de “Stranger in my Native Land”, um regresso às origens, pelo menos uma tentativa de entendimento e de conhecimento da terra de onde veio, mas simultaneamente sente-se que Karma tenta fugir de uma relação que mantinha em Nova Iorque. Nesta viagem conhece um antigo monge que acaba de fugir do Tibete com quem vai estabelecer uma ligação pessoal, transformando o filme num registo auto-biográfico, além de documental dos prisioneiros fugidos da sua terra natal. A projecção dos filmes está programada para o Pequeno Auditório do CCB, sexta-feira, às 21h, e domingo, à mesma hora.


Noe Tawara também marcará presença durante estes dias, no Centro Cultural de Belém. A artista de 24 anos estreou-se, em 2001, no Teatro de Tóquio, sob a direcção de Yoko Narahasi. A partir daí tem construído um percurso notável no teatro e no cinema independente japonês. Actriz, coreógrafa e bailarina, apresentará uma dança de “jiuta-mai”, uma dança tradicional japonesa exclusivamente feminina, muito intimista e elegante, acompanhada pelas cordas do instrumento Shamisen e por música vocal de canto melódico ou narrativo. Este espectáculo será apresentado no dia 7, na Praça do Museu. No dia 8, Noe Tawara apresentará outro espectáculo onde funde a dança “jiuta-mai” com a dança contemporânea, no Jardim das Oliveiras.
Borrões de tinta, fotocópias, cartão, candeeiros articulados, tecnologia vídeo, um computador, música. Todos estes elementos estarão juntos num só espectáculo. A companhia Paper Cinema dá vida a um elenco de marionetas desenhadas à mão, na noite de sábado, no Pequeno Auditório Praça do Museu.
Associado a este espectáculo está um conjunto de actividades: uma oficina para crianças dos 5 aos 12, que as convida a conhecer a magia do universo cinematográfico e de manipulação plástica que serve de background aos seus espectáculos. Dias 8 e 9 de Agosto, na Fábrica das Artes.
YungChen Ilhamo nasceu em Lhasa. Depois da sua internacionalização através da colaboração com músicos como Annie Lennox ou Sheryl Crow, começou a ser considerada a “voz do Tibete”.
Aos 23 anos fugiu do Tibete, devido à opressão chinesa, atravessando os Himalais e estabelecendo-se na Índia, onde começou a sua carreira musical, com as recordações de canções tradicionais tibetanas que aprendera com a família. Actualmente YungChen reside em Nova Iorque e a sua música é um reflexo de si em todos os lugares por onde passou. Será possível ouvi-la no sábado, na Praça do Museu.
A programação do CCB fora de si continuará pelo mês de Agosto, com iniciativas ao nível da música e da performance.


ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado Jornal Semanário (07-08-2009)

Belém urbana com tons asiáticos e africanos

CCB Fora de Si
Transculturalidade e turismo



O CCB Fora de Si procura apresentar, este ano, e à semelhança do ano passado, uma programação orientada para o multiculturalismo, numa procura de espectáculos e iniciativas que espelhem a diversidade da criação artística, nas suas mais variadas formas de expressão. No fundo procura-se chegar a um programa que seja sinónimo de transculturalidade.

A transculturalidade é a resposta uniforme a uma dicotomia que se estabeleceu entre a globalização e a especificidade das culturas, porque depois de se conseguir uma maior mobilidade entre os continentes, fruto dessa globalização, da emigração e da acessibilidade à informação a um nível global, o que permitiu um crescimento da maioria das culturas, houve uma necessidade de encontrar, de novo, porque se tinham de alguma forma esbatido, as especificidades de cada cultura ou país. Se por um lado a programação fdo CCB fora de Si e de outros festivais, como é o caso do Festival de Músicas do Mundo, em Sines, procuram demonstrar esta contaminação cultural que existiu graças à maior mobilidade, acessibilidade e por isso de partilha, por outro lado mostram-nos culturas únicas, que têm vindo a procurar manter as suas especificidades e individualidade. No fundo mostram-nos a essência de cada um destes lugares, mas ao trazerem estas culturas a um só espaço, mostram-nos também a sua transculturalidade.
Ásia, África, América do Sul, entre outros, têm contribuído para a disseminação da cultura, nomeadamente através de centros urbanos, como o caso de Tóquio. A realidade espalha-se a um nível global, dominando esferas artísticas e com grande adesão por parte do Ocidente. É o caso da música do mundo, que constatávamos há pouco através do sucesso do FMM (Festival de Músicas do Mundo – Sines), mas também da dança, do cinema e de outras artes de palco e audiovisuais.
Além desta procura de divulgação e espaço artístico, o CCB Fora de Si responde ainda a uma abertura do mercado cultural ao turismo, uma vez que se decorre nos meses de verão, quando a maioria das instituições culturais lisboetas fazem uma pausa na sua programação. Aliás, o projecto venceu o prémio especial Turismo de Portugal em 2008.
O CCB Fora de Si consiste num evento que vem de encontro a esta tendência cultural e de mercado, com um programa que decorre nos meses de Julho e Agosto. O foco este ano está na Ásia e na África. Os dois continentes estão em destaque, com iniciativas criativas oriundas da Índia, do Tibete do Japão, da Nigéria, do Mali, da Etiópia, do Senegal e do Níger. Além disso, e promovendo também o diálogo entre culturas, Portugal é representado através de um programa denominado “Belém Urbana”- um projecto pensado aos olhos do festival, que procura valorizar e dar a conhecer a componente artística portuguesa, envolvendo música, dança, artes visuais, cinema, artes de rua. Foi realizada uma selecção (7 de 230 projectos apresentados) e agora, durante um fim-de-semana (14 a 16 de Agosto), é dada a conhecer a diferentes públicos, também porque se procurou programar estes espectáculos do “Belém Urbana, na sua maioria, num ambiente exterior e, por isso, acessível a vários públicos. A Praça do Museu vai ser ocupada com espectáculos de música e dança ao ar livre, sendo o principal espaço de actuação, mas acontecem coisas em todo o CCB: nos jardins, no caminho pedonal. Parece que só nestes eventos se dá uso a toda a capacidade da arquitectura da instituição.
Nos fins-de-semana de Julho decorreu a Lisbon Jazz Summer School e, por isso, as actividades envolventes focaram-se também no jazz, através de concertos e ateliers para os mais novos e para as famílias. No mês de Agosto haverá concertos e outros espectáculos. Este fim-de-semana, e até 2 de Agosto, destaca-se a programação dedicada à Ásia. Hoje ao fim da tarde, “Tumbala”, um grupo de personagens fantásticos, que invade as ruas com as suas máquinas. Este é um projecto musical que interage através da sua performance. Também hoje, e amanhã, Johan Lorbeer apresenta “Tarzan”, uma das suas mais conhecidas performances, onde desafia as leis da gravidade.
O fim-de-semana recebe ainda Suheela, uma inglesa de origem indiana que reúne em si a música de vários continentes por onde foi passando e que formam a sua identidade; “Agua”, um filme realizado pela indiana Deepa Mehta que retrata a marginalização das viúvas indianas, “Terra”, o segundo filme da trilogia, e “Fogo”, apresentando assim os três filmes que valeram o reconhecimento à realizadora. Do Japão, no dia 2, chega um projecto de música e dança improvisadas de Hajime Fujita, que procura pensar a dança e a arquitectura com a ajuda da música.

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado Jornal Semanário (31-07-2009)

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Cinema Turco em Belém

Dois filmes turcos serão apresentados este fim de semana no Cine-Belém, parte integrante da programação CCB Fora de Si. “On the way to school (A caminho da escola)” conta uma história passada numa remota aldeia turca. A narrativa conta sobre um professor que tenta ensinar turco, com muito esforço, às crianças curdas. Este filme debruça-se essencialmente sobre as relações e as dificuldades sentidas tanto de comunicação, como de relacionamento, entre curdos e turcos. Através da história das crianças, que não falam turco, e do professor, que não fala curdo, os realizadores Orhan Eskikoy e Ozgur Dogan simbolizam as dificuldades das relações actuais entre turcos e curdos. Um ano de luta pelo entendimento, numa remota aldeia turca, que nos faz reflectir sobre todos os anos de luta necessários.

“Each Dream is a Shattered Mirror (Cada sonho é um espelho estilhaçado)” é também um filme de origem turca, realizado também por Orhan Eskikoy e Ozgur Dogan. Novamente a aldeia remota. Desta vez da Anatólia. A personagem central é Coskun, o filho mais velho de uma família que vive nessa aldeia. Coskun é preso como activista político durante o seu segundo ano de faculdade. Este filme narra as consequências que o afastamento do filho provoca no seio da sua família nuclear, durante os nove anos que passa em cativeiro. O fim do filme acontece com o regresso de Coskun a sua casa e ao seio da sua família.

Com entrada livre e projecção no Pequeno Auditório, dias 29 e 31 de Agosto, às 22h30. Ambos os filmes são legendados em inglês e português.
Artigo publicado no Jornal Semanário - Agosto (ed. 26.08.2008)