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segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O regresso da casa de cultura

Rentrée 2009
Nova temporada na Culturgest


Rentrée. Todos querem saber o que vem aí. Depois de apresentarmos a temporada do CCB, segue-se a da Culturgest, um dos espaços com uma programação mais interessante na cidade de Lisboa. Música, com maior incidência no jazz, teatro, dança, cinema e exposições. Entre Setembro e Dezembro há espaço para tudo e o melhor é que em Janeiro há mais.

Habitualmente os panos baixam no final de Julho e voltam a abrir em Setembro. Este ano não é excepção. Hoje mesmo recomeça a roda vida de espectáculos na Culturgest. O jazz é uma aposta muito forte nesta instituição cultural, e a abertura da programação começa exactamente com o clarinetista e saxofonista francês Louis Sclavis, acompanhado por duas figuras nova-iorquinas: Craig Taborn (piano) e Tom Rainey (bateria).
Com uma sonoridade bastante diversa chegam os Son de la Frontera, um grupo flamenco formado por herdeiros do mestre Diego del Gastor, no dia 19 de Setembro. Em Outubro marcarão presença Henri Texier e Strada Sextet (dia 1) e António Pinho Vargas com dois solos (dia 31).
O “Ciclo Isto é Jazz” volta em Novembro, primeiro com Sten Sandell Trio (dia 5), depois com Nate Wooley e Paul Lytton (15 de Dezembro). Teremos ainda a oportunidade única de ver Hank Jones Trio, um dos músicos do jazz mais excepcionais, que sobe a palco, do alto dos seus 91 anos, para um concerto memorável.


Um dos destaques da programação de música, que aliás é o que predomina em quantidade durante os 4 meses que se seguem, é Gonzales, um canadiano com formação clássica em piano e que apresenta o espectáculo “Solo Piano”, a 4 de Novembro, uma mistura de showman com um recital de piano. A 11 de Novembro, o espectáculo “Zoetrope, assinado por Rui Horta e Micro Audio Waves, regressa ao palco da Culturgest, onde foi apresentado o ano passado. Uma poderosa performance multimédia que segundo a casa vale a pena reprogramar.
Passa ainda pela Culturgest a OrchestrUtopica, no dia 17 de Setembro, com o espectáculo “Transfronteiras”, em interacção com a obra visual de Luís de Campos, e no dia 29 de Outubro, com “Crash!”; o projecto Musica Elettronica Viva, no ciclo Imagens Projectadas.
No teatro marcarão presença os encenadores Cristina Carvalhal, Philippe Quesne e Rachel Chavkin.
“A Orelha de Deus” é um espectáculo encenado por Cristina Carvalhal, que tem por base o texto, com o mesmo nome, de Jenny Schwartz, onde se cria todo um universo paralelo com contornos de história infantil, mas onde se explora uma história dramática de um casal que perdeu um filho. Entre 24 e 30 de Setembro, no Pequeno Auditório.
Em Outubro, chegam dois espectáculos de Philppe Quesne e Vivarium Studio. O primeiro é “L’effet de Serge” (5 e 6), em que interroga a forma do solo através da representação e dentro dela, a partir da ideia de apresentação de pequenos espectáculos num apartamento, semanalmente, para amigos. “La Mélancolie des dragons” (8 a 10), em que explora a ideia aproximada de uma utopia, em que não há violência e há atenção às coisas e às pessoas. É um espectáculo na linha tangente.
O quarto espectáculo de teatro é um texto da “Team”. “Architecting” (23 a 25 de Novemrbro) é o olhar de uma jovem arquitecta, Carrie Campbell, da América, através de uma história que nos fala de americanos que tentam sobreviver enquanto tudo muda mesmo ali ao lado.
Na dança, “Anticorpo” de e por João Costa, coreografa e dança sobre o tema do sistema imunitário e a sua complexidade. O espectáculo abre a temporada da Culturgest no que diz respeito à música (25 e 26 de Setembro). Em Novembro, Vera Mantero apresenta o projecto final de dois anos de formação de 15 alunos no Programa de Estudo, Pesquisa e Criação Coreográfica do Fórum Dança.
No âmbito do Festival Temps d’Images, estão programados “Nada. Vamos ver”, de Gustavo Círiaco (18 e 19 de Novembro) e“Der Mann ist verruckt”, uma performance de Tãnia Carvalho e Vera Suchánková (20 e 21 de Novembro).
No último mês do ano, está agendado o regresso de Clara Andermat, com “So Solo”, o primeiro em que é autora e intérprete, e por isso único.
Entre 18 e 20 de Dezembro, é ainda possível assistir a “Good Morning, Mr.Gershwin”, um espectáculo de José Montalvo e Dominique Hervieu, que fala do prazer dos corpos em movimento.
Apesar de todo esta panóplia de espectáculos que se espera que tragam valor artístico e de partilha cultural ao mercado nacional, ainda haverá espaço para a participação nos habituais festivais: doclisboa em Outubro, Cinanima, em Novembro, e Nippon Koma, em Dezembro, além das exposições e outros eventos que serão desvendados à medida que o Outono avance.

ANA MARIA DUARTE

Artigo publicado Jornal Semanário (11-09-2009)

Novidades da “rentrée” cultural

Artistas associados e portugueses
Centro Cultural de Belém em 2009/2010



O Verão começa a ter linhas mais ténues e a palavra “rentrée” vai soando em cada esquina por onde passamos. Seja na rua, seja nos palcos, vamos sentindo o recomeço de tudo o que o fim do Verão implica. As temporadas são apresentadas nos mais diversos pontos do país e as vozes querem-se a ouvir dizer o que há de novo, quais as promessas artísticas e o que podemos ver e rever. O CCB é um desses espaços cuja voz já se ouve, desvendando as suas apostas para a nova temporada.

Podemos começar já a enumerar os nomes dos que vêm aos palcos deste espaço específico, mas comecemos pelos artistas e companhias associadas para a temporada 2009/2010 do CCB, que por si já dizem muito sobre aquilo que será a programação deste ano e qual é a linha condutora deste espaço lisboeta. Rui Horta é apresentado como artista associado, o Teatro Praga como companhia associada. A cada um destes foram pedidas três criações, cada uma delas com uma dimensão diferente (pequena, média e grande).
Rui Horta aceitou o desafio de criar três obras, que pressupõem uma reflexão mais alargada sobre o próprio percurso de criador. Abordam temáticas diferentes, mas unem-se no “questionamento do papel do corpo no discurso coreográfico e teatral.” Será acima de tudo uma reflexão criativa, um laboratório onde se procuram respostas. “Talk Show/Até se apagar o corpo” (Outubro) procura o corpo como sistema de comunicação e levanta a questão do seu desaparecimento ao longo da vida no amor. “As lágrimas de Saladino” (Março) reflecte a saturação do corpo e o olhar sobre o corpo do outro. “Local Geographic” (Maio) é o último espectáculo da trilogia e é uma reflexão sobre a identidade, abordando o corpo íntimo. Rui Horta avança que quebrou a linha, que tinha vindo a seguir nos seus últimos espectáculos, de envolvimento do público no espaço cénico, tomando-o como agente integrante da criação. Estas três obras contrariam esta ideia de investir o espaço da sala.
O Teatro Praga, a companhia associada da temporada, foi convidado pelo CCB para proporcionar um modo de programação e de concepção de espectáculos aproveitando as três salas, tal como acontecerá com os espectáculos de Rui Horta. O Teatro Praga persegue, com diferentes dimensões, o percurso de uma nova ética, explorando a dicotomia entre mal e bem, a revolução e a conservação, caminhando, supostamente, para outra arte. Em Setembro, Março e Julho, apresentarão, respectivamente, “Padam, Padam”, “Oil ain’t all, J.R.” e “Sonho de uma noite de Verão”). Não é uma trilogia, são três espectáculos unidos pelo facto de não haver relações objectivas entre eles.


Além da inserção pela residência artística de uma companhia de teatro e de um coreógrafo, que vem estender a outras áreas o que já existia na música clássica, com orquestras residentes em cada uma das temporadas, o CCB aposta este ano nos criadores portugueses, tanto na dança como no teatro. Lia Rodrigues, Leonor Keil, Amélia Bentes e Olga Roriz, na dança. No teatro, Jorge Silva Melo que leva a cena um texto original de José Maria Vieira Mendes e a “Comemoração” de Harold Pinter. “La Musica” de Margueite Duras sobe a palco encenada por Solveig Nordlund e Luísa Costa Gomes apresenta a tradução de “O Príncipe de Homburgo”, de Heinrich von Kleiste.
Na música, residem a Divino Sospiro, a Orquestra de Câmara Portuguesa, a OrchestrUtopica e o agrupamento de câmara Schostakovich Ensemble. A Orquestra Sinfónica Portuguesa e a Orquestra Metropolitana de Lisboa também farão aqui as suas habituais temporadas.
Maria João Pires tem regresso agendado para Janeiro de 2010, acompanhada por Rufus Müller (tenor) para uma peça do repertório de Lied de FranzShubert. Em Fevereiro, um ciclo dedicado a Schumann, composto por recitais de piano e concertos de câmara. Apesar de toda esta programação de música clássica, que o CCB mantém, a aposta no jazz tem vindo a crescer. Renovam-se as quintas de jazz, tanto no Inverno, com Dose Dupla, como no Verão, com o Jazz às 5as. Vem também aí a terceira edição da Lisbon Jazz Summer School. Como pinceladas refrescantes, ao longo do ano, existirão concertos de outras sonoridades: Brad Mehldau, Jason Moran, Andrea Pozza, Scott Hamilton, Gilberto Gil, Bernardo Sassetti e Fausto Bordalo Dias.
No que respeita aos Festivais, o CCB terá o ciclo dedicado a Istambul, explorando cinema, dança, fotografia, música e literatura. Em Abril regressam os Dias da Música, este ano dedicados às “Paixões da Alma”, com inspiração em Descartes. A Fábrica das Artes do CCB continua a trabalhar no sentido de disponibilizar espectáculos, oficinas e exposições com o foco nos mais novos, acompanhando a programação anual. À primeira vista a temporada 2009/2010 do Centro Cultural de Belém parece vir tornar mais consistentes as opções que têm vindo a ser tomadas aos poucos: o proporcionar residência e focar num tipo de criação por época artística, e também uma programação com mais incidência em artistas nacionais. Vamos vendo aos poucos as cortinas a abrir e as luzes a acender.

ANA MARIA DUARTE

Artigo publicado Jornal Semanário (04-09-2009)

sexta-feira, 17 de julho de 2009

A Paixão em “Pitié!”

Novas dimensões de Bach
Criação de Platel e Cossol


“Pitié!” é o mais recente trabalho de Alain Platel e de Fabrizio Cossol. Um espectáculo que partiu da “Paixão segundo São Mateus” para criar algo baseado nas ideias de colectividade, de partilha, de paixão em vez de compaixão, onde aquilo que se procura é quase uma mensagem contrária à de sacrifício. As vozes ecoam pelo palco, os movimentos são de tensão, mas “I love you” é a mensagem que acaba por apaziguar as almas que assistem a este diálogo entre corpo e voz, entre Cossol e Platel, e entre os dois e Bach. Dias 3 e 4 de Julho, no Centro Cultural de Belém. Mais tarde, no Porto.

“Pitié!” surge no seguimento da experiência de 2006, com “VSPRS”, em que também Platel e Cossol foram co-autores. O espectáculo tem como fio condutor a transposição musical da Paixão de Cristo, composta por Johann Sebastian Bach, aqui delicadamente reorquestrada por Fabrizio Cassol, mas Platel confere a esta obra-prima de Bach uma inesperada dimensão de sensualidade e cor. Cassol centra-se na dor de uma mãe, parte que não existe na versão original da “Paixão segundo São Mateus”, no que diz respeito ao inevitável sacrifício dos seus descendentes. A parte de Cristo é adaptada para duas almas com um destino comum, conferindo sentido à composição. Cassol optou por três cantores: uma soprano para a mãe, e duas vozes muito parecidas uma com a outra (contralto / mezzo e contratenor) para as crianças. A orquestra está assente no Trio Aka Moon, juntamente com Magik Malik (flauta e vozes), Tcha Limberger (violino), Phillippe Thuriot e Krassimir Sterev (acordeão), entre outros. A história é transformada em música. Nas vozes estarão Claron Mc Fadden, Laura Claycomb, ou Melissa Givens; Cristina Zavallon, Maribeth Diggle ou Monica Brett-Crowther e Serge Kakudji. Interpretam o espectáculo, os bailarinos do “les ballets C de la B”: Elie Tass, Emile Josse, Hyo Seung Ye, Juliana Neves, Lisi Estarás, Louis-Clément Da Costa, Mathieu Desseigne Ravel, Quan Bui Ngoc, Romeu Runa e Rosalba Torres Guerrero.
“Erbarme dich” é uma das árias mais conhecidas da “Paixão segundo São Mateus”, sendo também um dos alicerces da música e conteúdo composta por Cassol. Surgem várias questões: “a nossa capacidade vai além da piedade? A compaixão será algo que ansiamos ardentemente quando a vida e morte se tornam demasiado opressivas?” O tema principal da “Paixão segundo São Mateus”, abordado intensamente, é o sacrifício individual, o de nós mesmos. “Para quê e para quem estaríamos prontos a sacrificar a nossa própria vida?” – esta é uma pergunta que não parece ter muito sentido tendo em conta a sociedade contemporânea, mas Alain Platel coloca-a aos bailarinos e faz-nos pensar sobre isto. Platel quer trabalhar com os bailarinos na forma de dança “bastarda” procurando uma tradução física de emoções muito intensas, processo que já vem de “VSPRS”, e acaba por conseguir criar, com os seus bailarinos, com os músicos e cantores, um espectáculo que assenta na força do grupo, na união, já que ele aspira a algo que transcenda o individual.
O termo “compaixão” dá-nos antes “a paixão partilhada com os outros”. Aliás, a mensagem do primeiro dueto é: “I love you”. São duas horas de espectáculo. Desde os primeiros sons, os primeiros movimentos dos corpos em palco que se vive a ideia de sacrifício e de compaixão, mas em “Pitié!” existe uma ideia de paixão, mais do que compaixão, uma mensagem que é murmurada isolada e colectivamente, através dos corpos e dos sons, corpos que provocam tensão num espectáculo em que são as vozes interiores que sobem à superfície e as exteriores vêm de um certo desejo de encontra. Diz quem viu que se sai sereno, apaziguado e desarmado do espectáculo. E depois da vinda do mestre Platel a Lisboa, o espectáculo “Pitié!” seguirá para o Porto para desarmar mais algumas almas. Nos dias 7 e 8 de Julho, no Teatro Nacional São João, integrado no “Dancem! 09”.

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado Jornal Semanário (03-07-2009)
Créditos da imagem: Chris Van der Burght

Dancem! agora ou calem-se para sempre

Dancem! 09 no Porto
11 espectáculos de dança contemporânea

Há 13 anos atrás disseram pela primeira vez: “Dancem!”. Estamos em 2009 e a dança no Porto é contínua, para felicidade daqueles que têm visto as artes performativas crescer, mas é sempre entusiasmante poder ver o Alain Platel e o Philippe Decouflé na mesma semana que a Olga Roriz e o Paulo Ribeiro. Dancem! é um conjunto de espectáculos de dança contemporânea, que decorrem entre 25 de Junho e 12 de Julho, no Teatro Nacional São João e no Teatro Carlos Alberto.



Já passaram pelos palcos deste festival de dança os espectáculos de Clara Andermatt, de Gilles Jobin, Martine Pisani, de La Ribot, dos DV8 e também de Tiago Guedes e Francisco Camacho. A ideia do Dancem! é mesmo esta: a de criar um diálogo activo entre uma geração de criadores nacionais e internacionais dentro da esfera da dança contemporânea. A programação da edição deste ano está a cargo de Paulo Ribeiro, tal como aconteceu em 1997, e revela abrangência e abertura. Na totalidade são 11 espectáculos que se dividem entre o Teatro Nacional São João e o Teatro Carlos Alberto.
A programação tem início no dia 25 de Junho, com o colectivo belga Peeping Tom, que traz “Le Jardin” (25 de Junho), “Le Salon” (26 de Junho) e “Le Sous Sol” (28 de Junho). Em “Le Jardim” exploram as fronteiras da normalidade, enquanto em “Le Salon” nos falam da velhice e do fim de uma família. A trilogia termina com “Le Sous Sol”, que escava no além-túmulo, mas com muitos regressos ao passado. Em todas as peças se mistura teatro e dança, numa via solitária onde se vive das pequenas felicidades da vida.
No entretanto, no dia 27 de Junho, no Teatro Nacional São João, Olga Roriz apresenta “Paraíso”, para depois, no dia 30, nos levar antes ao “Inferno”, no mesmo palco. Olga Roriz escolhe um conjunto de canções e a partir daí constrói a peça, sem chegar à ilustração. Se na primeira não queremos sair, na segunda também não, porque em “Inferno” não há a noção de bem ou de mal, há antes música libidinosa do Brasil.
Nos dias 3 e 4 de Julho, ambos os teatros recebem espectáculos. No São João é possível ver Philippe Decouflé, com “Sombreros”, onde se vive o poder das sombras, no domínio da experimentação, acompanhadas por Brian Eno e Libolt. No Carlos Alberto, Né Barros apresenta “Story Case”, que, segundo o criador, “trata de lugares vazios e de pessoas sem história, no sentido de uma história ainda não vista, ainda não realizada. Tal como o corpo na dança, os indivíduos em Story Case surgem-nos e é no decorrer do tempo que os vamos documentando até eles se tornarem personagens. (…)”.


Philipe Decouflé apresenta um outro espectáculo – “Solo”, nos dias 6 e 7 de Julho, no Teatro Carlos Alberto. Ele dança na primeira pessoa, a sua existência está na dança, disso não há dúvida. E este espectáculo trará uma série de imagens suas, fragmentos de si.
Alain Platel também estará presente, ou não fosse ele o mestre dos C de la B. Depois do espectáculo no CCB (dias 3 e 4 de Julho), Alain Platel seguirá para o Porto para desarmar mais algumas almas. A mensagem de “pitié!” é: “I love you”. Surgem corpos que procuram vozes, interiores e exteriores. Diz-se por aí que quem o vê sai desarmado. Nos dias 7 e 8 de Julho, no Teatro Nacional São João.
Paulo Ribeiro, programador do ciclo, apresenta “Maiorca”, no mesmo Teatro, nos dias 10 e 11 de Julho. “Há muitos anos atrás, Jorge Salavisa desafiou-me para coreografar os 24 Prelúdios de Chopin interpretados pelo Pedro Burmester. Na altura não me senti capaz de encarar tamanho desafio. Hoje faz todo o sentido. (…).” – apresenta o próprio.
O espectáculo que fecha o ciclo é “Orphée et Eurydice”, de Marie Chouinard, no Teatro Carlos Alberto (10 a 12 de Julho). Uma obra excessiva, com humor e intimidade, uma dança exploratória e demoníaca, numa multiplicidade de caminhos.
18 dias, 11 espectáculos de dança na cidade do Porto. Na sua base dancem! é um convite aberto à procura da atenção de uma multidão de vozes, de corpos que têm uma forma própria de comunicar. Dois espaços que recebem nomes incontornáveis do movimento contemporâneo. Só é preciso disponibilidade para ouvir e ver, sentir nos casos mais intensos.

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado Jornal Semanário (26-06-2009)

sexta-feira, 22 de maio de 2009

A luz de Shantala na dança pura e na narrativa



Cruzamentos entre dança indiana e contemporânea
Shantala Shivalingappa, embaixatriz do “Kuchipudi”



Shantala Shivalingappa cruza a dança clássica indiana com a dança contemporânea do ocidente que começou por explorar com Pina Bausch. O estilo Kuchipudi, do qual se tornou embaixatriz no Ocidente, cruza a narrativa com a dança pura, sendo um casamento entre o corpo inteiro e as emoções que a narrativa lhe provoca, alternando momentos e movimentos de dança pura e partes narrativas tirada da mitologia indiana onde toda a arte expressiva, mímica e gestual são exploradas. São estes cruzamentos que propõe em “Namasya” (22 e 23 de Maio, 21h) e “Gamaka” (24 Maio, 17h), no Centro Cultural de Belém.

Shantala Shivalingappa é oriunda de Madras, a quarta maior cidade indiana, situada no sul do país. Foi criada em Paris pela sua mãe. Paris e Madras deram-lhe um cruzamento entre o ocidente e o oriente. Desde cedo que foi orientada para a dança indiana, pela sua mãe, a bailarina Savitry Nair. Inspirada pela pureza do estilo Kuchipudi do seu mestre Vempati Chinna Satyam, foi formada com rigor, mas desde os 13 que dança com alguns dos maiores na cena da dança e do teatro, como Maurice Béjart, Peter Brook ou Pina Bausch, com quem Shantala reconhece ter descoberto uma nova forma de dançar. Essa foi a sua primeira experiência numa forma de dançar que não a dança clássica indiana e assim entrou num novo universo gestual. “Com ela e com os seus bailarinos aprendi a pensar e a sentir o movimento de forma diversa, desde a concepção até à execução: espontaneidade, liberdade e rigor, fluidez, movimento irradiado do corpo mas também do coração.”


Contudo, é no Kuchipudi, um dos inúmeros estilos de dança clássica indiana, que se encontra mais familiarizada. O Kuchipudi é uma dança clássica indiana que surgiu no século XV no sul da Índia. Como todos os estilos de dança indiana, o Kuchipudi tem as suas raízes no Natya Shastra, tratado de arte dramática com mais de 2000 anos que estabelece uma codificação muito precisa para a dança, a música e o teatro. No Kuchipudi, habitualmente acompanhado por canto, percussões, flauta e vina (instrumento de cordas indiano), a dança, a música e o ritmo são desenvolvidos de forma indissociável e é esta forte relação entre os elementos que determina a sua enorme beleza.
Hoje, Shantala divide o seu tempo entre a criação de novas coreografias kuchipudi, digressões dos seus espectáculos a solo, e a colaboração com diferentes artistas ocidentais numa exploração intensa da dança e da música. Estará no CCB durante 3 dias para apresentar “Namasya” e “Gamaka”.
Em Namasya, Shantala revela o seu indiscutível talento em quatro peças bem diferentes: “Ibuki” de Ushio Amagatsu, um dos mestres da primeira geração do butô; “Solo”, que Shantala ensaiou com Pina Bausch e que reflecte as influências que recebeu da coreógrafa alemã; “Shift”, de sua autoria; e “Smarana”, de Savitry Nair, com música tradicional do norte da Índia.
Pegou nestes coreógrafos pelo valor coreográfico e emocional. “Os seus trabalhos tiveram um efeito magnético sobre mim e estimularam o meu desejo de explorar o movimento e a emoção que se solta dele. Fui verdadeiramente seduzida pela ideia de trabalhar com esses dois coreógrafos a partir da minha gestualidade e da minha técnica de dança clássica indiana, acreditando na universalidade da dança, do movimento e da emoção que suscitavam, sem ser necessária uma linguagem técnica comum.”
“Gamaka” é antes um recital de kuchipudi para quatro músicos e uma bailarina. O termo Gamaka designa, na música clássica indiana, “o movimento vibratório sonoro entre as notas. Na dança, o Gamaka seria o movimento desenhado pelo corpo para chegar de um ponto ao outro.” Aqui toda a criação é vibração, e de um enredo complexo de sons e movimentos nasce um conjunto de imagens, emoções e formas. “Gamaka” é dedicada a essa vibração, também chamada OM, de onde toda a criação emana e se reabsorve. Estes dois espectáculos serão a oportunidade de ver uma vez mais a luz de Shantala.

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado Jornal Semanário (22-05-2009)

quinta-feira, 7 de maio de 2009

"Sombreros", uma viagem ao cinema


Uma experiência no limite da queda

“Sombreros” é um espectáculo de dança assinado por Philippe Decouflé, director da companhia DCA. Uma viagem pelo universo deste coreógrafo e uma homenagem ao cinema mudo. Dança do desequilíbrio, no limite da queda, na repetição cómica do erro. Dias 15 e 16 no Centro Cultural de Belém.


Esta não é uma obra narrativa, mas conta a viagem de François e Françoise numa viagem ao México. O título do espectáculo vem dos chapéus típicos daquele país, mas é também um jogo com a expressão da língua francesa "sombre héros" que em português se pode traduzir como “herói das sombras". Esta alusão vem do jogo de imagens, de luz e sombras que tanto recorda o cinema expressionista.
Este é o universo de Philippe Decouflé, bailarino e coreógrafo parisiense, que quando era pequeno queria ser desenhador de BD. A verdade é que o desenho está várias vezes presente no início do processo de criação, numa forma de desenho de imagens que lhe vão passando pela cabeça. O seu trabalho vem da vontade de trabalhar com formas geométricas simples e da mistura da luz, dos figurinos, dos movimentos. Do trabalho com Merce Cunningham e com Tex Avery ficou-lhe este desejo de movimento, quase delirante, em que procura o desequilíbrio, sempre no limite da queda.
Após uma carreira solitária como bailarino, Philippe Decouflé criou a sua própria companhia. DCA nasceu em 1983, e este universo da BD é representado em vários espectáculos, com um tom humorístico. ”Surprises”, “Fraîcheur limite”, “Soupière de luxe”, “Tranche de cake” são espectáculos que dão a conhecer Decouflé em França e na Europa, e “Codex” é também baseado no desenho, sendo inspirado numa enciclopédia desenhada por um jovem italiano, Luigi Séraphini, nos finais dos anos setenta, cujos animais fantásticos, plantas imaginárias e legumes vivos vão alimentar o imaginário coreográfico de Decouflé.
Em 1993, Decouflé assina “Petites pièces montées” onde ele “reflecte sobre o trabalho fantasmagórico de Georges Méliès” (ilusionista francês) e questiona o espaço interrogando-se “como vou fazer entrar e sair os meus bailarinos pelas pernas, como os vou fazer surgir do chão”. Posteriormente, o imaginário de Decouflé volta-se mais uma vez para as plantas, pássaros e legumes de Codex para criar “Decodex”, 2004, é o ano de “Tricodex”, nova peça criada para os bailarinos do Ballet da Ópera Nacional de Lyon.


O último espectáculo de Philippe Decouflé, “Sombrero”, criado em Outubro de 2006 no Théâtre de Nîmes, andou também em digressão por França, e esteve em residência no Théâtre National de Chaillot em Paris durante os meses de Maio e Junho de 2007. Viaja em digressão também pela Europa (Turim, Madrid em 2006, Londres, Wolfsburg em 2007, e Luxemburgo, Antuérpia em 2008). Em 2008, Philippe Decouflé cria uma nova versão de “Sombrero”: “Sombreros” actualmente em digressão em França e na Europa, assim como “Coeurs Croisés” e “Solo”.
“Sombreros” é um conjunto de quadros cheios de beleza e poesia e com um humor surpreendente que chega mesmo a tocar o absurdo. Era inevitável que o universo do desenho estivesse presente, essa fantasia acidental a partir de jogos de sombras e de luz. A música que Brian Eno compôs especialmente para o espectáculo intensifica a magia desta experiência, que nos faz viajar provavelmente não só pelo México, mas por toda este universo fantasioso que Decouflé tem vindo a criar ao longo dos anos, com a companhia DCA, e em tantos outros trabalhos paralelos, cinematográficos. As esferas cruzam-se, a dança passa para o cinema, o cinema para o palco onde se dança. Movimentos inexplicáveis que nos dão a ideia de estar numa corda-bamba, em permanente equilíbrio, tão perto do desequilíbrio, onde as formas geométricas nos são dadas pelas sombras projectadas, também elas jogando com a palavra “Sombreros” que afinal nos levam mais para um imaginário de desenho, do que para o imaginário das viagens. Este é um espectáculo para ver e ouvir com atenção, porque a música de Brian Eno é provavelmente um dos elementos mais fortes a sentir durante a experiência.


ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado Jornal Semanário (08-05-2009)

"La Danseuse Malade": a libertação do butô



« O corpo é a minha oficina; e o meu ofício, conhecido como dança, é uma tarefa de restauro do humano »
Tatsumi Hijikata

Mais uma vez dança-se. « La Danseuse Malade », de Boris Charmatz, com interpretação dele próprio e Jeanne Balibar. O texto base é de Tatsumi Hijikata, fundador do butô, mas este espectáculo não é butô nem o pretende ser, é acima de tudo experimentação e liberdade de movimentos. 7 e 8 de Maio, pelas 21h30, no Grande Auditório da Culturgest.

Jeanne não é bailarina profissional, Boris não tem experiência de teatro. Ele é bailarino, co-fundador da associação edna em 1992, e já criou um conjunto de peças que fizeram história, continuando a sua actividade enquanto intérprete e improvisador. Hoje é director do Centre chorégraphique national de Rennes et de Bretagne. Livros, filmes, projectos atípicos. Uma predisposição para experimentar. Ela é actriz, primeiro de Comédie-Française, depois de cinema de autor. A partir de 2003, também cantora. Ela gosta de experimentar.
O encontro entre Jeanne Balibar e Boris Charmatz dá-se em 2005 no âmbito do projecto en Micronésie de Pierre Alféri. Os dois pegam num texto de Tatsumi Hijikata. Bailarino e coreógrafo japonês, Tatsumi Hijikata, é considerado o pai do butô (dança das trevas), estilo de dança japonesa. Quando estreia o seu primeiro trabalho dentro deste género em 1959, Kinjiki (Forbidden Colours), o sentimento de afronta que se apodera do público no final da peça é tão intenso que resulta na expulsão de Hijikata do Festival. O seu estilo acaba por se caracterizar como uma reacção contra a dança moderna no Japão, que Hijikata sentia que se demonstrava como superficial e colada ao Ocidente. Este sentimento evidencia-se pela sua resistência ao modernismo – Hijikata vai explorar a fraqueza ao invés da força, preferindo a retracção à expansão. Inspira-se, também, na literatura francesa e no surrealismo, nomeadamente no erotismo, na violência e nos tabus da sociedade moderna.
Charmatz avança “Não sei se gosto do Hijikata”, “ (…) eu não sei se sou capaz de gostar de Hijikata : ele parece sujo, morto, impotente, virgem e obsceno”, mas avança para essa experimentação, ao lado de Janne. Acredita na vontade de transmissão dos seus escritos, que têm em si mesmo a capacidade de movimento da dança e butô. O trabalho que desenvolve é por baixo e ao lado do butô, não é uma reinvenção desta arte. Não é na verdade uma encenação, é antes uma libertação desses mesmos escritos, onde já encontramos a miséria, a lama, a deformidade. É experimentação entre um bailarino que não tem experiência de teatro e uma actriz que não é bailarina. Existe um trabalho sobre fragmentos, uma tentativa de se libertar da tradição da transmissão da dança através do corpo a corpo. No início existe a penumbra, eles estão loucos, gritam, saltam, arrancam o chão. « Quando os faróis da carrinha iluminam o palco, é como se uma repentina lucidez tomasse conta de ambos. Jeanne começa literalmente a despejar o texto para cima do público quando entra na carrinha. Boris desapareceu de cena. Passado algum tempo a carrinha arranca e começa a andar em círculos. A dado momento, percebe-se que transporta Boris (como uma carcaça), com os seus arranques, recuos e embalos. Há ainda um ataque de um cão – animal esgalgado, apedrejado pela miudagem, tripas de fora – e tudo acaba com Jeanne, cara branca e vestida de negro, a dançar ao som da música de Boris. Como refere Gérard Mayen, “Todos estes elementos deverão permitir aos artistas colocarem-se na sua relação com o texto. Mais do que um dueto entre Boris Charmatz e Jeanne Balibar, haveria um trio com Hijikata, através das suas palavras, que fazem estar junto mas não juntam; que reúnem no limite, no tormento, na dilaceração.” »
Dança e obscuro estão sempre presentes. Encontram-se, tal como Jeanne e Boris num dueto onde interagem várias artes.




“ (…) Calcorreando meticulosamente Tóquio – onde não está forçosamente extinta esta geração que com as mãos concebeu os olhos – cheguei aos materiais. Que só tive depois que juntar no meio de uma juventude ocupada aqui a roçar-se num atelier de galvanização, acocorada ali numa garagem. Olho para as mãos. Liberta-se delas um movimento de partículas mal desbastadas. A coluna vertebral inclina-se ligeiramente para a frente. Uma dança desce-lhe pela ladeira. Para um olhar infeliz pode-se mudar de gelatina. Cabeças ardentes. A vingança reprimida de um mamilo baixou um pouco a cabeça; é preciso que o material seja antes de mais um amante. Aproximo-me. O odor estabelece entre mim e os rapazes um equilíbrio quase ascético; de modo geral, todos estes corpos excessivamente esticados, como as varetas de um guarda-chuva que criam uma barreira ao que cai, todos esses corpos enviesados, quebradiços, insensibilizados pelo sofrimento, dão de muitas maneiras prioridade a linhas quase decalcadas dos seus vinte anos, em vez e no lugar de todas as figuras sedutoras. Na imensa Tóquio há corpos a morrer.”

Tatsumi Hijikata

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado no Jornal Semanário (30-04-2009)

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Gustavia: o universo burlesco

A arte e a representação que hão-de vir
Mathilde Monnier e Maria La Ribot



"Gustavia" é a união de duas coreógrafas com dois percursos diferentes: Mathilde Monnier e Maria La Ribot. A união dá-se como um casamento em torno de um ponto comum: a reflexão sobre as questões do futuro da arte e da representação. Gustavia é nome de mulher, mas acima disso é um nome artístico fictício. A coreografia é assinada por Mathilde e Maria e interpretada por elas mesmas, num universo que fala de temas que ultrapassam a dança: a mulher, a morte, o teatro, a representação de si, o artista e o seu papel. O palco da reflexão é a Culturgest, nos dias 3 e 4 de Abril, às 21h30.

O espectáculo estreou no festival de dança de Montpellier de 2008 e junta duas coreógrafas. O trabalho de La Ribot passa por um sistema que lhe permite pesquisar, desenvolver e questionar os limites temporais, espaciais e conceptuais da dança, onde usa um vocabulário exigente, com humor e ligações geométricas. Desenvolve espectáculos que ligam as artes vivas, a performance e as artes gráficas, tendo vindo a demonstrar um interesse pelo vídeo, criando peças filmadas em directo do ponto de vista do corpo em movimento.


Mathilde Monier é uma coreógrafa de decisões artísticas de impacto. Nos anos 80 trabalha com Jean-François Duroure, desenvolve um trabalho de confronto, seja através do texto, dos ambientes criados, do movimento da arte. Um dos temas que mais tem trabalhado é o do prazer, da libido na dança. O ano passado apresentou em Portugal “Tempo 76”, criado em torno da noção de uníssono.
Embora com percursos profissionais muito distintos, conheceram-se em 1987 numa apresentação de Mathilde na terra natal de Maria, Madrid. A vida cultural fervilhava com festivais. A partir de 1999 a relação estreita-se e as trocas tornam-se mais frequentes até culminar com a decisão de fazer Gustavia.
As duas profissionais juntam-se numa reflexão comum sobre as questões do futuro da arte e da representação, tomando como base o burlesco clássico, que possui técnicas de troca de papéis e de uma linha de “toca e foge”.
“O burlesco é a arte de transformar a incompetência em competência, pode surgir do excesso de palavras, ou da sua ausência. O burlesco atravessa não só o cinema, mas também o palco, a performance, as artes plásticas. O burlesco do corpo apoia-se no esforço gratuito, na repetição e no acidente. O que é legível no burlesco está oculto na dança, uma vez que esta, na sua essência, não tem nada, ou quase nada, de cómico.
Não é um género, mas permite a utilização de práticas e de maneiras de pensar próprias. Através de uma utilização indirecta dos instrumentos do burlesco, Gustavia procura falar livremente do seu métier: desvios, inquietações, catástrofes e alegrias da relação entre a arte contemporânea e a vida.
Há um enorme paralelismo entre Gustavia e os filmes de cinema mudo. Aliás, o nome Gustavia é inspirado n’Os Palhaços de Fellini. Monier e La Ribot recorrem a elementos cómicos que provocam riso nas plateias. O que as moveu no início deste projecto foi esse universo burlesco, a ideia de mulher, a curiosidade, a história, o teatro e a dança. Repetição, exagero e acidente foram palavras de ordem no processo criativo. A construção passou pela improvisação, pela continuidade do trabalho de ambas, ora uma, ora outra, pegando naquilo que cada uma dava e transformando, continuando, questionando, exagerando, fragmentando, desconstruindo, para construir, para criar. O resultado é um dueto em forma de solo partilhado, a figura de Gustavia desdobra-se.
Em frente a um microfone, botas, cuecas e camisolas pretas. Elas murmuram, cerram lábios e olhos, queixam-se, suplicam, oram, lamentam. Trabalham sobre movimentos idênticos, linhas de mimetismo, passando pelo cómico, num equilíbrio mútuo, brutal.
Na última cena do espectáculo elas estão lado a lado, falam uma por cima do outro, usando gestos e onomatopeias repetitivas, falam da mulher, falam dos próprios movimentos que fizeram antes. Falam do futuro.
O palco é coberto de tecidos negros, onde elas jogam com a repetição, com a acumulação, com o ilusionismo e a queda. Gustavia é uma só mulher, em duas, num palco, num só dueto solista.

ANA MARIA DUARTE

Artigo publicado no Jornal Semanário (03-04-2009)

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Companhia Nacional de Bailado - A dança em movimento


Digressão e criação de públicos

A Companhia Nacional de Bailado dá continuidade à digressão nacional, depois de ter passado por Almada, Beja e Faro no último mês de 2008. A digressão continua em Janeiro e Fevereiro, em Santa Maria da Feira, Lamego e Évora. Estas foram as cidades escolhidas para dar continuidade à digressão nacional da CNB iniciada com o bailado “O Quebra-Nozes.” Agora retomam a digressão com um programa de repertório contemporâneo dando assim a conhecer a versatilidade dos bailarinos numa programação diversificada. Os espectáculos que partem agora para digressão nacional são “Isolda” de Olga Roriz, “Lento para quarteto de cordas” de Vasco Wellenkamp e “Cantata” de Mauro Bigonzetti.


“Isolda” de Olga Roriz foi estreado em Lisboa a 31 de Janeiro de 1990 no Grande auditório da Fundação Calouste Gulbenkian pelo extinto Ballet Gulbenkian. Com música de Wagner, figurinos de Vera Castro e desenho de Luz de Orlando Worm é uma criação de Olga Roriz, agora interpretada por bailarinos da CNB, que nos deixa em suspenso. Tudo se passa entre o universo onírico e a morte, numa recordação de dor e prazer. Balança-se entre o prelúdio e a morte. Nas palavras de Olga Roriz: “Agarrei no tema da Isolda sem tragédia, mas de uma forma dramática no sentido teatral. Afinal, é a mulher quem reina no amor. A dramaticidade de Isolda foi encontrada por uma expressividade puramente física, não emocional. O movimento tanto é lento e suspenso como veloz, térreo e brusco. Os figurinos decoram o corpo, concedendo-lhe um ar tratado e criando uma atmosfera operática. Quero mostrar o progresso do cansaço através dos fatos pesados e pedi às bailarinas para não lutarem contra esse cansaço. Pretendi que sobressaísse a energia de cada uma delas e é aí que pudera acontecer a beleza deste trabalho. (…)”.
“Cantata” é uma homenagem à cultura e tradição musical italianas, uma criação popular, no sentido mais elevado do termo. Utiliza música italiana dos séculos XVIII e XIX, desde as canções de embalar ao Salentine pizziche e às serenatas napolitanas. Neste bailado, criado a partir de um encontro inesperado com um grupo de músicos de Nápoles e Puglia, a dança e a música misturam-se e interligam-se. Original e tradicional do sul de Itália, “Cantata” é uma coreografia plena de cores vibrantes, típicas do sul. Os gestos apaixonados evocam um tipo de beleza mediterrânica e selvagem. Uma dança instintiva e vigorosa explora as várias facetas da relação entre homem e mulher, estando muito presentes a paixão e a sedução.


“Lento para quarteto de Cordas” é a prova de que “viver fisicamente a música pode ser a mais sublime das emoções”. Aqui a dança surge dentro do canto e das imagens oferecidas.
As apresentações serão dia 31 de Janeiro no Europarque, em Santa Maria da Feira; no Teatro Ricardo Conceição, no dia 4 de Fevereiro, em Lamego e no dia 7 de Fevereiro, em Évora, no Garcia de Rezende.
Simultaneamente, a CNB apresenta espectáculos para escolas. A Companhia Nacional de Bailado tem sempre presente na sua programação espectáculos dedicados ao público escolar desempenhando assim a função pedagógica que lhe cabe junto das escolas, procurando introduzir o público jovem no mundo da dança e dar-lhes a conhecer a arte do movimento.
A mesma “Cantata” será apresentada dias 11, 12 e 13, às 15h no Teatro Camões (para maiores de seis anos). Nos dias 18, 25 e 26 de Março, às 15h, é apresentado “Coppélia ou A Rapariga dos Olhos de Esmalte”, uma coreografia de John Auld segundo Arthur Saint-Léon, Marius Petipa e Enrico Cecchetti e música de Léo Delibes. “Coppélia ou a Rapariga dos Olhos de Esmalte” é um bailado com história sem recurso à palavra, onde a ilusão e fantasia comunicam facilmente com o público.
Swanilda, a jovem namorada que fica com ciúmes da bela rapariga colocada à janela do fazedor de bonecos Dr. Copélius, e por quem Franz se deslumbra, resolve pôr à prova a fidelidade de Franz através de uma espiga. A trama simples e perfeitamente de acordo com o imaginário do sonho, aliadas às características encantatórias de todo o ambiente criado pelos cenários, figurinos e pela dança clássica, tornam este bailado um potencial espectáculo para todas as idades.
ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado no Jornal Semanário (16.01.2009)

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Olhar sobre 2008

2008 foi mais um ano de espectáculos. Foi de maior equilíbrio em quase todas as áreas, mas foi também um ano de cortes e isso notou-se nas mais diversas esferas artísticas. Apresentamos uma lista daqueles que consideramos os melhores momentos de 2008. Esta lista não é exaustiva e deve ser encarada como um olhar sobre momentos de qualidade artística e de criatividade, tendo consciência de que ficam muitos outros bons discos, concertos e palcos para recordar.

Melhores espectáculos de dança de 2008

1. “Cafe Müller” de Pina Bausch
2. “Glow” de Chunky Move (Fundação Calouste Gulbenkian)
3. “Beautiful Me” de Gregory Maqoma (Culturgest)
4. “Come together” de Rui Horta (Teatro Camões)
5. “Tempo76” de Mathilde Mannier (Culturgest)


A história de “Cafe Müller” é a história de uma excepção: 40 minutos de duração e seis intérpretes, entre os quais a própria Pina Bausch. A acção é despojada e cortante, no cenário pesa a angústia de uma solidão remota.
Levada pelo som dilacerante da música de
Purcell, Malou Airaudodança movimentos entrecortados, e as mesmas sequências são retomadas pela coreógrafa, que faz o papel de duplo, mas com um tempo sempre desfasado circula às cegas na selva de mesinhas e de cadeiras, que vão sendo retiradas por Borzik, assim traçando o seu percurso.
Cafe Müller é uma lamentação de amor, uma metáfora doce e inquieta sobre a impossibilidade de um contacto profundo. Impressiona pela sua pureza e violência. Uma obra sobre a mortalidade do amor.


Glow”, um corpo de luz em palco. 30 minutos de intimidade intensa juntando dança e tecnologia. O espectáculo veio ao Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, pela mão da companhia australiana Chunky Move, fundada em 1995 por Gideon Obawzanek, ex-bailarino da Sidney Dance Company, que assinou esta coreografia criada em 2006.
O espectáculo ficou certamente na memória de quem o viu. Uma dança energética, ao longo da qual a própria intérprete é que constrói a música e a iluminação. As sombras levantam a bailarina do chão, a bailarina eleva as sombras, tudo num jogo de luz, de imagens de angústia, de excitação, de empatia. Uma experiência intimista, com detalhe.


Beautiful Me”, com coreografia e interpretação de Gregory Maqoma, é um solo que leva três coreógrafos em si mesmo. O coreógrafo sul-africano desafia a noção de dança, na procura de uma definição ou redefinição da sua própria linguagem coreográfica. Maqoma subiu ao palco para dançar sozinho, mas levou três coreógrafos em si mesmo, reflectindo o seu trabalho e as suas linguagens. Akram Khan, Faustin Linyekula e Vincent Mantsoe foram os mestres que escolheu para o inspirar. Maqoma absorveu as suas ideias, juntou o seu brilho e humor e dá-lhes voz, no sentido corporal do termo.

"Come together" marcou a estreia do coreógrafo Rui Horta na criação para o elenco da Companhia Nacional de Bailado. Aqui, Rui Horta trabalhou uma das suas temáticas mais marcantes - a posição do indivíduo na sociedade e aquilo que representa. Rui Horta saiu da sua cápsula e explora este universo fora da sua escala mais pessoal. Além dos bailarinos usou outros elementos em palco: o vídeo e a música.


Tempo 76”, o espectáculo de Mathilde Monnier, desenvolve-se em torno da pesquisa em torno do uníssono e que faz reflectir o universo da dança contemporânea. Inovação em palco através de um corte com os tabus e da contradição intencional que nos faz reflectir. “Tempo 76”, cujo título se refere às 76 pulsações por minuto, explora as possibilidades da mesma organização de movimentos em corpos diferentes.
Nove bailarinos em cena rompem com os padrões dos mecanismos rítmicos através de uma releitura dos padrões sincrónicos e dos gestos repetitivos do quotidiano.


Melhores concertos de 2008

1. Nneka (Lux)
2. Thievery Corporation (Coliseu de Lisboa)
3. Kings of Convenience (Cidadela de Cascais)
4. Cat Power (Coliseu de Lisboa)
5. Omara Portuondo (Aula Magna)


Nneka é um animal de palco. Tem atitude. Veio da Nigéria, passando pela Alemanha e aterrou no Porto. A invicta foi convencida na noite anterior ao Lux. O piso inferior da discoteca estava a rebentar pelas costuras mesmo antes do concerto começar. Ao som dos ritmos reggae, hip-hop e soul, a artista revelou-se uma mulher, com cara de miúda, cheia de atitude e feeling na voz. «No Longer at Ease» era o mote. De punho erguido, foi usando os interlúdios para os seus manifestos políticos. Apesar de muitos não estarem claramente com vontade de os ouvir e estarem apenas lá para a festa, essa é a essência de Nneka e sem ela seria tudo menos intenso. É por essa vontade de se manifestar, de protestar contra as petrolíferas e de sentir tão penosamente a fome em África, que Nneka se torna tão genuína.
Com ritmo na cintura e de olhos fechados, ergue os seus pensamentos e canta com alma. Na sala estremeceu-se e transpirou-se dança em versão rendida. Eu rendi-me à sua atitude de manifestação de quem balança num mix urbano-africano. A sua entrega tão imensa num corpo tão pequeno mostra-a enquanto animal de palco.


Os Thievery Corporation aqueceram a noite de 19 de Outubro deste ano. A festa fez-se de sorriso nos lábios e muita dança nas ancas. O calor que se fazia sentir no Coliseu misturou-se com o espírito de intervenção de “Revolution Solution” e "El Pueblo Unido", apresentado já quase no final do espectáculo. Já no encore, depois de duas horas e muito de concerto, tocaram "The Richest Man in Babylon", mas as almas estavam sedentas de mais e os corpos queriam dançar até ao fim da noite. A banda regressou para um segundo encore. As luzes do tecto acenderam, mas eles voltaram para mais um tema não programado, apresentado pela cantora brasileira, que veio “substituir” Seu Jorge em alguns temas. “Sol Tapado” foi a canção escolhida para o fim de um concerto suculento. Extasiante, essa noite de domingo, em que quando saímos ainda se sentia o calor.


Poderia ser a mesma coisa ouvir os Kings of Convenience ao vivo ou em disco, mas não é. O duo norueguês é de uma qualidade excessiva em estúdio, e em palco assume-se como algo inédito. O primeiro imprevisto aconteceu e foi a origem de uma noite com muito e bom humor. A demora em chegar o capo para a guitarra lançou Oye para uma performance além da música.
Mais tarde outra surpresa, além das canções novas que foram mostrando. Passaram a quatro instrumentos de cordas, com a junção do contrabaixo e do violino, e o piano passou a ser regra. “Stay Out of Trouble” deu início ao primeiro show improvisado de “mouth trumpet” de Erlend Oye. Parecia ele que já estava a desejar que pudesse não tocar guitarra durante esse concerto. E isso acabou por acontecer. A guitarra estragou-se. Não havia outra e deu-se nova mudança no alinhamento. O “trompete” foi ganhando espaço no improviso.


Quando chegaram ao espaço deles para tocar, a ansiedade já era grande. Finalmente subiu ao palco a banda Dirty Delta Blues Band, que começou mesmo sem Chan Marshall. Tomaram os seus lugares e tocaram na penumbra, até à chegada da mulher que todos queriam ver. Quando se começou a ouvir a sua voz, mesmo sem a ver, quase que se ouviu o suspiro de alívio generalizado a ecoar pela sala. A espera já ia longa, mas rapidamente ela começou o espectáculo, dançando e deslizando sobre os seus sapatos brancos, de sapateado. A primeira fase do concerto passou-a Cat Power nessa estranha e sensual dança, na boca de cena, pescando corações, numa postura que escondia sorrisos entre as canções. Da espécie de desaquação ao palco, daquela que também não consegue viver sem eles, nasce um charme incrível que conquista muitos dos amantes de Chan Marshall. O concerto foi crescendo, terminando num agradecimento louvável.


Omara Portuondo esteve em Lisboa para um concerto inesquecível. Há quem fale de falhas técnicas e de que a voz dela já não é o que era. A verdade é que a diva cubana de 78 anos tem uma presença invejável e ritmo na alma. Entrou em palco a dançar, com uma fita e flor no cabelo, com um vestido leve, de cor clara.
Portuondo canta de uma forma que por vezes chega a ser teatral, de tão expressiva, representando as histórias e os sentimentos que vai recordando através das letras das suas canções.
Bendita Omara. Que inquietude. Até o segurança da Aula Magna dançava, meio direito, mas era inevitável reparar no sorriso de quem estava a viver aquele momento de luxo. A embaixadora de Cuba não veio para uma despedida. De passos incertos e voz intensa e emotiva, Omara promete continuar a cantar. E nós agradecemos.


Melhores espectáculos de teatro de 2008

1. “Vita Mia”, de Emma Dante (Centro Cultural de Belém)
2. “Curtas”, Primeiros Sintomas (Espaço Ginjal)
3. “As Criadas”, de João Garcia Miguel (Centro Cultural de Belém)
4. “Mona Lisa Show”, de Pedro Gil (Centro Cultural de Belém)
5. “Kamp”, de Hotel Modern (Centro Cultural de Belém)


Vita Mia” foi apresentado no ciclo dedicado ao trabalho de Emma Dante, que apresentava três perspectivas diferentes sobre o tema da família, oferecendo-nos simultaneamente, reflexos da cultura siciliana e da sua imagem de família.
O público entra e encontra um quarto vazio, apenas com uma cama ao centro. O quarto não é confortável, tem um ambiente denso. Um buraco negro, um salto para o vazio. A mãe olha para os seus três filhos com doçura e tristeza, passa-lhes o ensinamento de que a vida é efémera e por isso tão preciosa. A vida é uma corrida à volta desta cama: será um refúgio, um espaço de tranquilidade e repouso, um início ou um fim em si mesmo? Este quarto e esta cama transbordam tristeza e loucura. Este espectáculo é uma vigília fúnebre, é nada mais nada menos que uma tentativa de adiar esta dança que antecede a morte, que transborda de loucura. Um olhar sobre a história através dos olhos da personagem.


Curtas” é uma mostra teatral de peças de curta duração. Produzida pela “Primeiros Sintomas” junta um conjunto de autores, actores e encenadores que mostram o seu trabalho durante uma peça com alguns minutos. No Espaço Ginjal, foi um dos espectáculos mais interessantes deste ano, pela sua capacidade de mudança, de integração do espaço e das pessoas, pela fluidez do discurso artístico conseguido numa peça tão fragmentada como esta, que no fundo são várias peças. O todo além das partes.


A peça “As Criadas” trouxe uma nova abordagem ao texto de Jean Genet, que no final da primeira metade do século XX causou tanta polémica pela sua forte crítica à hierarquia das classes sociais e às relações de escravatura. João Garcia Miguel misturou o teatro com o audiovisual, num palco repleto de boas soluções de encenação e de cenografia.
O espaço cénico transmite, nesta encenação, o sufoco do próprio texto. A encenação de Garcia Miguel cria uma espécie de nova linguagem teatral, através da repetição, presente não só no discurso (por exemplo, os actores repetem várias frases que são ditas nas três línguas), mas presente na música que vai surgindo em diferentes versões, na movimentação do cenário e por vezes no vídeo.


Kamp” significa barbárie. Kamp trata de um dos campos de concentração mais bárbaros da história: Auschwitz. Reconstrução de uma realidade histórica. Esse é o objectivo que Hotel Modern tenta atingir em “Kamp”.
Este espectáculo é mais do que teatro, é uma mistura forte de animação, teatro e até cinema. “Kamp” mostra a tragédia, a dor, o pânico. É algo que nos sufoca, que nos faz revolver o estômago e as entranhas, tal como a própria história. Talvez por o sabermos tão perto da realidade. É tão real, as imagens doem e têm um silêncio sufocante.


Eles falam de si próprios, abrem-se ao público como se fosse um reality show. Como se de uma montra se tratasse. No fundo falam de nós ou de pessoas que conhecemos, em diálogos cruzados, que por vezes se tocam, dando respostas uns aos outros, criando dúvidas. Diálogos murmurados que nem sempre estão em foco. A certa altura estão todos a falar ao mesmo tempo. “Mona Lisa Show” é assim.
Tudo acontece entre a passadeira, os projectores e as personagens. Em termos temáticos não nos traz nada de novo, mas dá-nos flashes, fragmentos que podem fazer a diferença. Clichés e frases que toda a gente já disse ou já ouviu: “Quero acabar contigo. Não é sobre ti, sou eu. Preciso de espaço. A comida é quase tão boa como a da mamã. Não desistas de mim.” É de um naturalismo pop soberbo.

Ana Maria Duarte
Artigo publicado em Jornal Semanário (31.12.2008)

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Branca de Neve, por Preljocaj


Versão fiel com espaço para simbolismo

“Branca de Neve” é a mais recente criação do Ballet Preljocaj, um bailado contemporâneo romântico baseado na versão do conto de fadas dos irmãos Grimm. Na linha das grandes obras de repertório inscritas na memória colectiva da dança, como a “Cinderela” ou “A Bela Adormecida”, Preljocaj propõe-nos a revisitação do conto da “Branca de Neve” para toda a família. O coreógrafo queria contar uma história e decidiu partir daí, contando com a participação de 26 bailarinos, acompanhados por alguns dos mais belos excertos das sinfonias de Mahler e com cenários de Hierry Leproust e figurinos de Jean-Paul Gaultier. O espectáculo será apresentado nos dias 27, 28 e 29 deste mês, no Centro Cultural de Belém.

Angelin Preljocaj é francês, filho de pais albaneses. Iniciou os seus estudos de dança clássica, tendo-se depois dedicado à dança contemporânea com Karin Waehner. Em 1980, vai para Nova Iorque trabalhar com Zena Rommett e Merce Cunningham, tendo continuado os estudos em França com a coreógrafa americana Viola Farber e Quentin Rouillier. Junta-se, em seguida, a Dominique Bagouet até à fundação da sua própria companhia em Dezembro de 1984. Desde então coreografou 38 peças, desde duos a grandes formações.
Algumas das criações mais recentes de Angelin Preljocaj como “Empty Moves” e “Eldorado” foram elaboradas num universo de maior abstraccionismo. Desta vez queria contar uma história, pelo que decidiu partir do conto “Branca de Neve”, mantendo-se fiel à versão dos irmãos Grimm, para criar um bailado romântico contemporâneo. A história é conhecida de todos, o que deu maior liberdade para se concentrar na linguagem dos corpos dos seus 26 bailarinos, dando mais atenção ao simbolismo e ao espaço, sem que, de qualquer forma, se perdesse o rumo da narrativa, já que essa tem um fio condutor e um espaço na memória colectiva já garantido. A fidelidade à versão dos irmãos Grimm é algo que o coreógrafo foca elevando-o ao lugar essencial no seu trabalho. A história é esta, as variações que são feitas dependem apenas de algumas visões e análises de determinados símbolos existentes no texto e no contexto do mesmo. A reivindicação do termo bailado advém exactamente da reunião dos 26 bailarinos da companhia, o que reflecte não só a vontade de trabalhar em universos opostos, mas também a importância que o coreógrafo dá a este seu trabalho.

Para “Branca de Neve”, Angelin Preljocaj construiu uma dramaturgia musical com alguns dos mais belos excertos das sinfonias de Gustav Mahler, cujos contornos românticos encantaram o coreógrafo e que combinam na perfeição com o universo maravilhoso conseguido pelos cenários de Hierry Leproust e pelos figurinos de Jean-Paul Gaultier. Eles dançam ao som das sinfonias de Mahler, cujos magníficos contornos são de essência romântica. “Historicamente, os contos de Grimm também o são, mesmo se o seu estilo límpido nos transporte para uma forma de contemporaneidade. É uma tarefa delicada, procurar emocionar. A música de Mahler é manipulada com grande cuidado, mas hoje é um risco que eu tinha vontade de assumir.”
Preljocaj conseguiu o que queria, trabalhar no oposto, “escrever algo de muito concreto e abrir um parêntese feérico e encantado. Para não cair nas minhas próprias rotinas, claro. E também porque, como toda a gente, adoro histórias.”.
Este espectáculo e a criação de Preljocaj permite-lhe contar uma história através da dança, de forma delicada e apaixonante. Os corpos dizem coisas além das histórias, assim como as energias e o próprio espaço, onde os personagens experimentam e sentem, de modo a conhecer a sua própria transcendência. Além disso, segundo o autor “Branca de Neve contém objectos maravilhosos para o imaginário de um coreógrafo”. Trata-se de um bailado narrativo, com dramaturgia, em que os lugares são representados pela cenografia de Thierry Leproust, e os bailarinos encarnam usufruem dos figurinos de Jean-Paul Gaultier.

A madrasta é a personagem central do conto e é nela que está o ponto de reflexão e de questionamento de Preljocaj ao desenvolver este seu trabalho. “É ela que eu também questiono, pela sua vontade narcísica em não renunciar à sedução e ao seu lugar como mulher, ao ponto de sacrificar a sua enteada. A inteligência dos símbolos pertencem tanto aos adultos, como às crianças, dirige-se a todos e é por isso que eu adoro os contos.” Uma história a ouvir, um bailado a deixar tomar o seu espaço.

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado no Jornal Semanário (24.12.2008)

sábado, 29 de novembro de 2008

Veneno, duração e desinibição


Três coreografias num espectáculo - Dança no Teatro Camões

Integrado no ciclo de dança com 6 Companhias Portuguesas convidadas pela Companhia Nacional de Bailado, será apresentado “Veneno/ Eurídice e o Instante/ Finale” no Teatro Camões, pela Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo, nos dias 5 e 6 de Dezembro.

“Veneno” tem coreografia de Rui Lopes Graça e é uma peça no limite. Segundo Rui Lopes Graça: “É a ideia que criamos acerca de nós próprios e dos outros. Como um vírus, que nos contamina sonhos e convicções; Separa-nos e isola. Torna-nos ilhas de coração pobre e vacilante. No espelho da vida criam-se as proporções exactas do antídoto.”. O veneno da Tarântula, “cuja picadela torna os homens muito sonolentos, frequentemente podendo também por vezes ser fatal. A Tarântula é assim chamada a partir do nome da cidade de Taranto, onde podem ser encontradas em grande número. Muitas pessoas acreditam que o veneno da Tarântula varia em característica de dia para dia ou de hora a hora, pois induz grande diversidade de paixões naqueles que são picados; alguns cantam, outros riem outros choram, outros choram incessantemente; alguns dormem enquanto que outros são incapazes de dormir; alguns vomitam ou suam ou tremem; outros caem em terrores contínuos ou em frenesins, raivas e fúrias. Este veneno provoca paixões por diferentes cores de tal forma que alguns têm prazer com o vermelho, outros com o verde e outros com o amarelo.”, pode ler-se no dicionário universal de 1690, por Antoine Furretière. Dizia-se que em alguns casos a doença poderia durar até 50 anos e que a música podia curar o seu veneno. Este espectáculo mostra-nos então essas situações de limite, de tensão, em que se vivem experiências contraditórias. Sete figuras dançam em cena e evoluem ao ritmo da música. Esta é uma dança envenenada pela própria tarântula, porque estão lá a alucinação, a aproximação da morte, a dor, o humor e o amor. Rui Lopes Graça consegue pegar no conceito de veneno, especificamente o da tarântula, e explorar as sensações da vida a partir da aproximação ou semelhança de estados humanos a estados de intoxicação com o  veneno da tarântula. A exploração deste universo leva-nos a imagens de permanente tensão e de limite, tal como alguém que foi picado por uma tarântula ou alguém que vive no limite do seu ser individual.

“Eurícide e o instante” tem coreografia de Vasco Wellenkamp e música de Philip Glass. Nesta peça Vasco Wellenkamp trabalha sobre o próprio conceito de duração. Sobre o tempo e o seu fluir, a partir da linha desenhada pela música de Glass, que repete motivos e ritmos, onde Vasco Wellecamp procura uma segunda linha. Entre o desvio e a entrega, o movimento do homem e da mulher percorre a música como um lugar. O lugar-comum entre o público e o palco parece ser a música que acaba por ser a base dos movimentos. A cadência e o ritmo são eles que levam a esta movimentação em palco, de duas pessoas que se entregam e se afastam tendo em conta a corda musical onde caminham.

Em “Finale” temos a coreografia de Henri Oguike e música de René Aubry. A partir das cadências latinas do compositor francês René Aubry, “Finale” é um bailado divertido e de rápido andamento que fecha o programa apresentando toda a companhia. Este espectáculo transborda vitalidade, divertimento, prazer, alegria. Um conjunto de bailarinos desinibidos e que espalham ideias frescas pelo palco. Uma forma de terminar leve, mas sensorial e que sopra energia.

Três olhares sobre a dança, três temáticas diferentes, em que se apresenta na totalidade a Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo.

O espectáculo, a ser apresentado no próximo fim de semana, terá início às 21h30, sendo composto por três espectáculos diferentes, com a duração de 1h30 no total. Os bilhetes custam entre 5 e 15 euros.

ANA MARIA DUARTE

Artigo publicado no Jornal Semanário (28.11.2008)

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Pessoa de saltos altos



Feminine, de Paulo Ribeiro

Este fim-de-semana, o coreógrafo Paulo Ribeiro apresenta o espectáculo “Feminine”no Grande Auditório da Culturgest. Depois de “Masculine”, apresentado no Teatro Maria Matos (2007) o coreógrafo mostra-nos a sua visão do universo de Pessoa de saltos altos. Através de um quinteto de cinco mulheres (quatro bailarinas e uma actriz) viaja sobre as preocupações mais superficiais do sexo feminino: o cabelo, os saltos altos, os homens. Elas dançam com os corpos que transpiram sensualidade, em movimentos contidos que desaguam num prazer prolongado.

Paulo Ribeiro aproximou a dança de Pessoa, em 2007, ao criar “Masculine”, onde abordava o universo, de forma a mostrar as idiossincrasias de um homem: coisas quotidianas, mas não só. Uma bola de futebol e energia masculina estavam presentes a partir das vozes e corpos de quatro bailarinos. A pesquisa desenvolvida sobre a obra de Fernando Pessoa acabou por revelar a vontade de abordar a sua relação com as mulheres. Assim nasceu “Feminine”. Paulo Ribeiro substituiu a bola pelos saltos altos e mergulhou na beleza estética, na emocionalidade. Antes da estreia deste espectáculo no Teatro Nacional São João, o coreógrafo disse em entrevista: “A ideia de trabalhar Fernando Pessoa já me persegue há muito tempo. Mas pensei sempre em trabalhar não em torno da obra, mas do homem: aquele homem em particular, com os seus defeitos. Uma pessoa, não apenas um génio escritor. As pessoas são essencialmente humanas: à volta daqueles momentos geniais há muitos outros momentos, normalíssimos, banais.” Este quotidiano já era experienciado em “Masculine”, mas agora é muito mais claro, revelando o poeta das horas banais.
Pessoa é coreográfico no sentido em que vai escrevendo em sequência, existe uma evolução nos seus textos e Paulo Ribeiro explora muito bem essa visão. Em “Feminine” ele vai mais longe e o que acaba por surgir é o olhar de Pessoa sobre a mulher. A peça tem, tal como “Masculine”, uma componente muito humorística, e um lado muito sexual, explorado na fisicalidade: Ser o meu corpo passivo a mulher – todas – as mulheres; Que foram violadas, mortas, feridas, rasgadas pelos piratas; Ser no meu ser subjugado a fêmea que tem de ser deles; E sentir tudo isso – todas estas coisas duma só vez pela espinha!
As palavras do poeta desafiam as das mulheres em palco, que se deixam perder pelas suas próprias narrativas. A poética do movimento feminino percorre a peça, misturada com o ardor colocado em cada gesto. O espaço de sensações é apenas interrompido pela força maior do coreógrafo, de brincar com as suas criações, de as colocar a rir de si próprias.

No processo de trabalho de construção desta peça, a diferença entre homens e mulheres acentuou-se. Paulo Ribeiro afirma que “(…) com os homens havia uma grande margem de interpretação, apesar de os parâmetros estarem definidos, tanto que foi necessário refreá-la, travá-la. Em “Feminine”, pelo contrário, a peça está coreografada ao milímetro. As estruturas iniciais são mais sólidas e mais severas.” Neste espectáculo há um trabalho muito pop, no cenário, nos figurinos sentem-se os anos 70. Há uma certa nostalgia que passa não só pelo facto de Pessoa ser um escritor dessa época, mas também por Paulo Ribeiro se inspirar na respiração da esperança existente nessa altura.
O coreógrafo entrega tudo nas suas criações e isso transpira para quem o recebe com abertura. “Tenho a impressão de não viver se não morrer para voltar a viver”, diz Paulo Ribeiro. “É um combate permanente de que preciso. E salpico isso para os meus intérpretes.” Tanto em “Feminine” como em “Masculine” sente-se um esgotamento por parte dos intérpretes, que depois nos possibilita ver a sua verdade, mostrando sempre actividade. A sua natureza é essa, a de mexer com as pessoas através de abanões efervescentes.


Há questões que nos acompanham sempre, há pessoas que estão sempre presentes, há dúvidas que não devem ser esclarecidas, elas são a razão para se estar atento. Não são precisas respostas. Precisamos sim de encantamento, precisamos de praticar a simplicidade para atingir o fascínio da multiplicidade.

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado no Jornal Semanário (ed. 21.11.2008)
Fotografias de José Alfredo

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Dois Tempos


Esta noite e amanhã, o Teatro Camões recebe mais uma companhia convidada. O espectáculo está integrado no ciclo de dança que a Companhia Nacional de Bailado promove até Dezembro, que consiste em receber 6 companhias de dança portuguesas. Desta vez o nome que avança é o Quorum Ballet, com direcção artística de Daniel Cardoso. O espectáculo intitula-se de “Dois Tempos” e terá lugar nestas duas noites de Novembro, às 21h.
“Dois tempos” engloba “The Other Side” e “Relações”. A coreografia de “The Other Side” é assinada por Daniel Cardoso, Jonathan Hollander e Thaddeus Davis, directores artísticos do Quorum Ballet, Battery Dance Company e Wideman/Davis Dance, respectivamente. O principal objectivo deste espectáculo é a fusão da dança e da arte de Nova Iorque e de Lisboa. É explorado o tema da opressão, através da colaboração entre os três coreógrafos que unem os seus discursos, tendo como ponto central a existência da opressão a um nível global. “The Other Side” oferece uma experiência inédita e é uma peça fruto da colaboração dos três coreógrafos que juntam as suas experiências numa trilogia que representa o início de muitas e inovadoras criações artísticas. O programa conta também com a música original do compositor norte-americano Polar Levine.“Relações” apresenta uma coreografia de Daniel Cardoso. Cada bailarino vai construindo um carácter específico, baseando-se nas experiências e vivências do quotidiano e procurando definir uma determinada personalidade. Quando esboçadas essas personalidades criam ligações entre si, através da interacção que se vai desenvolvendo de forma tão espontânea quanto previsível ou incutida, que consequentemente determina outras interacções, como um ciclo. A determinado momento o público dá-se conta de que ele próprio faz parte das relações e se encontra em sintonia com a música e os bailarinos, e o que mais o prenderá, à partida, será essa consciência. “Relações” pretende levar as personalidades numa e a uma viagem coreográfica.
ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado no Jornal Semanário (ed. 14.11.2008)

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Tensão dos corpos em “Random”

Hoje e amanhã no Teatro Camões, às 21h, será apresentado o projecto Random, com coreografia de Rui Lopes Graça. Este espectáculo é fruto da colaboração entre duas estruturas: “Objecto Ansioso” e “Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo”.
Um espectáculo criado para cinco intérpretes, com aproximadamente uma hora de duração, cujo propósito é especular sobre uma experiência limite como a morte. Random tem origem exactamente nesse limite, sendo um exercício em torno desse último momento, essa última respiração, própria de um encontro com o limite. Por viver nesse limite, os corpos são tensos, provocam momentos soltos, desconexos e até destituídos de uma narrativa. Fazem fotografias, imagens que são de alguma forma depositadas num espaço de memória que se recria. Imagens que se precipitam de forma aleatória.
Random é um espectáculo onde a pulsão que emana dos corpos dos bailarinos contrasta com a inércia dos objectos que por vezes habitam o palco. Também existe contraste nas sonoridades, que vão desde o ambiente soturno aos ritmos dubstep, electrónica minimalista e experimental, até à música ambiente e acústica enraizada no folk. O ambiente sonoro criado impõe à obra momentos marcadamente distintos entre si e momentos que por vezes se diluem da forma etérea na atmosfera criada. Random é uma obra tensa, obscura e emocional. A estreia de Random é hoje no Teatro Camões a 7 de Novembro às 21 horas com repetição no dia 8 à mesma hora.

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado no Jornal Semanário (ed. 07.11.2008)
fotografias © Adriano Lira

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Tudo o que é bom acaba rápido


Coreografias metafóricas

O Teatro Camões recebeu a estreia de dois novos bailados, esta semana. Na abertura da Nova Temporada 2008/09, a Companhia Nacional de Bailado desafiou dois coreógrafos contemporâneos para criarem duas obras originais com bailarinos da CNB: o português Rui Horta e o romeno Edward Clug. "Come together" marca a estreia do coreógrafo Rui Horta na criação para o elenco desta companhia. "Four reasons", de Edward Clug, completa o programa. Ambos contam com música original e ao vivo, uma mais-valia que só aumenta a ideia de “imperdível”. As coreografias podem ser vistas em escassos quatro dias. Até sábado portanto. Ainda pode ver hoje às 21h ou amanhã às 16h e às 21h.


A unicidade destas duas coreografias é marcante. Em “Come together”, Rui Horta trabalha uma das suas temáticas mais marcantes - a posição do indivíduo na sociedade e aquilo que representa. Concebida para um elenco de 12 bailarinos, esse foi um dos “problemas”, no sentido de diferença, no processo de criação, uma vez que está habituado a trabalhar e a criar num ambiente mais intimista, com núcleos criativos mais pequenos. O próprio coreógrafo entendeu este desafio e apostou nele, vivendo-o em grande gozo, apesar de sentir esta diferença de uma forma antagónica relativamente ao que está habituado a fazer. Rui Horta sai da sua cápsula e explora este universo fora da sua escala mais pessoal.


“Trabalhar com a CNB é, de alguma forma uma metáfora desta mesma contradição, um desafio que eu abracei com entusiasmo. Acredito que a única forma de resolver esta equação é a ideia de colaboração e trabalho de equipa, onde o próprio grupo é comunicante e criativo. Tudo se joga no dia-a-dia, no estúdio de ensaio, e na capacidade de, em conjunto, encontrarmos estes mesmos espaços de criatividade e jubilação.” Este texto do coreógrafo possibilita-nos a tomada de consciência daquilo que procura quando aborda a relação do indivíduo com a sociedade. A equação de que fala é a do espaço singular do ser humano, no contexto singular em que vive ele próprio, inserido num conjunto. A ideia de conjunto é não só o “grupo”, ou os vários grupos sociais, económicos e culturais, mas também a sociedade enquanto organização e enquanto conjunto emocional. Como funciona a relação emocional e organizacional do indivíduo dentro desta máquina? De que forma somos condicionados pelo mainstream, pelas tendências, pelos limites que nos são impostos, ou que são apresentados como naturais? Como é que esta “organização” condiciona as nossas decisões e reduz as nossas escolhas e liberdades? De que forma podemos continuar a estimular a nossa originalidade e criatividade, que afinal é esperada, mesmo por aqueles que nos limitam?


A posição do indivíduo, com o seu espaço de identidade, no seio de sociedades profundamente organizadas, é um tema que atravessa recorrentemente o trabalho de Rui Horta. Além dos bailarinos são usados outros elementos em palco: o vídeo e a música. O vídeo volta a ser explorado em cena, dando "corpo" ao cenário e à iluminação.
A coreografia conta com música original de Tiago Cerqueira e tem a particularidade de, em determinado momento, ser co-criada por Mário Franco, um dos bailarinos da companhia, que também é contrabaixista e que a interpreta ao vivo. "Fui à procura desse momento de autenticidade em que numa companhia de bailado há também um músico, que, ao longo desta peça, sobressai em várias personalidades fortes".


Quanto à peça musical "Four reasons", que dá o nome à criação de Edward Clug, é uma composição de quatro sonatas para piano e violino da autoria do esloveno Milko Lazar especialmente encomendada para esta nova criação coreográfica. A música é interpretada ao vivo pelo próprio compositor e pela violinista Jelena Zdrale. A partir da interacção dos dois músicos com os oito bailarinos, a peça vai-se desenvolvendo, como se fosse um desfile surrealista, construído por imagens que quebrem a realidade a que estamos habituados, pelas diferentes dimensões e contemplações. Neste dialogar de movimento e som são explorados espaços comuns, permitindo aos intervenientes, bailarinos e músicos, reflectir e criar aí um momento de intimidade, relacionado com as suas experiências espontâneas em palco.
O ambiente e o espaço são moldados pela dança, pelos corpos dos bailarinos. Edward Clug refere que a coreografia "se desenvolve como se fosse um desfilar de vários quadros surreais que quebram a nossa realidade e levam a nossa mente para algures, flutuando através destes quadros".

Ambas as peças nos transportam para reflexões sobre a realidade e a sociedade. Uma será mais crua, explorando a relação entre o indivíduo e o contexto em que se insere; a outra funciona mais como viagem ao surrealismo, às emoções espontâneas que se criam em palco.

ANA MARIA DUARTE

Artigo publicado no Jornal Semanário (ed.24.10.2008)

Legenda da imagem: Bailado Four Reasons; créditos de Rodrigo de Souza