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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Norberto Lobo e Lula Pena - A não comunicação em palco



Esferas individuais impenetráveis

Imaginámos dois dos melhores músicos portugueses em palco, uma guitarra e uma voz inabaláveis. O convite da ZdB estava feito, Lula Pena e Norberto Lobo juntos, num só palco. O concerto foi no passado sábado, um pouco depois das 23h, e o resultado não foi o esperado, pelo menos para o público. Foram momentos de falta de comunicação espelhados nos sons que se perdiam entre um lado e o outro do palco, apesar da proximidade física, própria de um espaço pequeno como a Galeria Zé dos Bois.

Esperava-se intensidade. As expectativas valem o que valem, há que saber geri-las, mas a verdade é que a julgar pelo momento de que se falava do Festival BOM, de empatia e simetrias, de improviso, a expectativa era de comunicação entre os dois. Mesmo que uma dupla improvável, faria sentido dar continuidade à experiência. Assim se ouviu e se leu por aí.


O concerto começou com muitos problemas técnicos, numa sala cheia, onde as pessoas esperavam de certeza um começo melhor. As questões pairavam no ar: ter-se-ia feito um sound-check antes do concerto? Alguém vai fazer alguma coisa ou vamos continuar a ouvir estes zumbidos insuportáveis?
Lula e Norberto continuavam a tocar. O problema era com a ligação à guitarra de Lula Pena, mas mesmo vendo espelhado no seu rosto o incómodo da situação, continuou a tentar sobrepor a sua voz ao problema técnico. Passado algumas músicas e já com o desespero a sentir-se na plateia, o técnico de som decide trocar o cabo.
Mais tarde, o amplificador de Norberto Lobo também tem os seus problemas, mas ele é mais perspicaz. Assume essa falha técnica e passa rapidamente para a guitarra acústica, alterando um pouco a forma como iria tocar aquela canção. Este episódio poderia não ser contado, mas a verdade é que serve para explicar a atitude dos dois músicos em palco, tão distinta e, talvez por isso, tão pouco empática. Lula Pena apresentou as suas canções, no seu tom, num universo fechado, em que, apesar da qualidade do seu trabalho, se sentia que não havia respiração ou espaço para deixar Norberto partilhar as mesmas canções.
Por sua vez, Norberto apresentou-se com menos força, talvez por não ter espaço para isso, mas com uma dificuldade enorme (apesar da vontade) em entrar naquele universo que não era o seu. Apesar disso, a perspicácia, a vontade e a luta contra o individualismo foram notáveis no músico, durante todo o concerto.

É verdade que os dois músicos trabalham habitualmente sozinhos. A voz de Lula Pena é exploratória, mas muito centrada em si, fechada, sem dar espaço a quem a acompanha. Norberto Lobo é uma guitarra acústica. Neste concerto também muito uma guitarra eléctrica. Apesar da sua qualidade inegável enquanto músico e artista, a sua força neste concerto parecia ter sido apagada. O dedilhado não foi aproveitado e a experimentação não parece mesmo ser o seu universo. A intensidade desvaneceu-se ali, em palco, lado a lado com Lula Pena. Ela estava num altar e Norberto não conseguia entrar, não por incapacidade artística ou por não estar à altura, mas porque a quebra de comunicação entre os dois era irremediável.

De notar que, apesar de globalmente ter sido um concerto com pouco sentido, a verdade é que houve momentos de beleza musical, mas que tinham sido igualmente bonitos no bar Maria Caxuxa, em 2008, quando Lula Pena apresentou maior parte destas canções a solo. Nos espaços em que Norberto se soltou, deu ares da sua graça e lembrou-nos da sua capacidade de nos fazer viajar nas notas da sua guitarra.

A admiração que nutrem um pelo outro também tem alguma mística e por isso o concerto deverá ter sido um bom momento para ambos. A desolação foi o não funcionar. Esperavam-se inéditos e surpresas como tinham apregoado, mas para quem viu o concerto de Lula Pena no Maria Caxuxa, foi uma repetição, mas de menos qualidade e intensidade da parte da cantora e acompanhada por um músico que merecia ter tido outro destaque. “La Isla Bonita” também ficou pelo caminho. Diziam que seria de improviso, sem grande alinhamento, a deixar as coisas correr. Não foi assim, o alinhamento estava lá e as coisas não fluíram. A fragilidade passou para o público, mas não como se esperava. Este não foi um concerto de Lula Pena e Norberto Lobo, foi um concerto de Lula Pena, com toques de Norberto Lobo, duas esferas que acabaram por não se tocar, nem nos tocar a nós. Resta-nos a consolação de que ambos continuarão a fazer um bom trabalho sozinhos e a tocar-nos dessa forma.


ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado no Jornal Semanário (30.01.2009)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Intensidades: voz e guitarras


Norberto Lobo e Lula Pena
O primeiro concerto juntos

Imaginem dois dos melhores músicos portugueses. Esta coisa de dizer os melhores tem sempre um risco associado, mas Norberto Lobo é mesmo um dos melhores guitarristas contemporâneos e a voz de Lula Pena é inabalável. Imaginem agora os dois juntos num só palco. Acontecerá. Dia 24 de Janeiro, na Galeria Zé dos Bois, às 23h. Imperdível para quem procura intensidade.

A ideia de juntar estes dois músicos para fazerem música um com o outro surgiu de Nelson Gomes e Pedro Gomes, da Filho Único. Pela simetria no que fazem, porque há algo que os aproxima, talvez o processo, ou a maneira de fazer as coisas. Na altura, o concerto acabou por não acontecer. Pena ou não, assim tem uma beleza diferente, porque é fruto do acaso.
Lula Pena viu o Norberto no Festival BOM, no Barreiro. Depois trocaram. Ele foi para os bastidores, ela para a frente do palco. Quando ela terminou o seu concerto, acabaram por tocar uma música, juntos, de improviso. Nessa actuação a empatia foi notável, não é das duplas mais improváveis, nem das mais prováveis, mas acabou por fazer sentido, ali. O melhor foi que quem viu gostou e entre o público estava Sérgio Hydalgo, da ZdB que acabou por lhes propor um concerto juntos, para poderem explorar este processo de tocar no mesmo palco, dar continuidade à experiência.


Dois músicos que trabalham habitualmente sozinhos. Lula Pena expressa-se muito através do seu corpo, com uma voz que funciona como instrumento e que explora como um rio, como terra, como céu. A sua voz apela a todos os sentidos, canta as memórias mais antigas e as suas raízes, com uma pronúncia que nos faz questionar a sua origem. Um dia brasileira, outro árabe, outro africana. Funde musicalmente linhas comuns e distintas.
“Phados”, o seu primeiro e único disco, continua a ecoar em palco e a ser fonte de outras explorações. Ela canta a fatalidade. Conceptualmente mexe na raiz do fado de Amália, na música de Caetano e Chico Buarque, e na morna de Cesária Évora. Brinca e trabalha com os sons, com aquilo que consegue fazer com a sua voz, com a sua respiração, com o seu corpo enquanto jarro de água que vai deixando cair uma voz/água límpida e fresca, quente e cheia de aparas de lápis coloridos, que misturados resultam em músicas de uma unicidade extrema. Lula Pena é como o universo que junta todas as músicas, como “terra mãe”. Intensa.


Norberto Lobo é uma guitarra acústica. De tenra idade e citadino fez um disco de uma qualidade inegável e que nos faz viajar de bicicleta pelo seu universo de acordes perfeitos. “Mudar de Bina” tem uma duração de mais ou menos 30 minutos, um pouco mais, e reúne em si dez canções, sempre instrumentais, de uma maturidade rara. Ele compõe com a presença do background de Carlos Paredes, dedica-lhe o disco aliás, mas também evoca melodias da música popular brasileira. De incrível dedilhado, que recorda os ensinamentos de John Fahey e a escola de Takoma tem uma carreira curta, mas nem por isso pouco importante. Já partilhou palcos com incontornáveis músicos contemporâneos como Devendra Banhart, Larkin Grimm e Lhasa. Norberto Lobo muda-nos a vida. Intenso.
Os dois músicos aceitaram em boa parte o desafio da ZdB por causa de uma simples canção, que funcionou de improviso e que permitiu que ambos acreditassem neste projecto. Os dois abrem novos horizontes.
O concerto espera-se com inéditos e surpresas, com poucas músicas conhecidas dos seus projectos individuais, mas a “La Isla Bonita” de Madonna será alvo de uma versão. Os dois à viola, com base no improviso, terão apenas um esboço do alinhamento, mas deixarão as coisas correr. Existirão canções inéditas e recentes, cantadas em línguas diferentes, com letras da sua autoria e de outros O que ambos garantem é que vai ser um concerto assente no improviso. É suposto que essa fragilidade passe, transpareça para o público.
Eles admiram-se, o futuro é incerto; ambos acreditam que os caminhos se continuarão a cruzar. É verdade que preparam a edição de discos individuais e têm outros projectos planeados, mas no entretanto vão viajando pelos lugares comuns, passear juntos. Depois de um fortuito encontro no Barreiro, encontram-se em Lisboa para um concerto em conjunto. Estabelecem relações emocionais e conceptuais musicalmente. O momento vai ser o momento do concerto. Só pode ser assim.


ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado no Jornal Semanário (23.01.2009)