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sexta-feira, 10 de outubro de 2008

A capacidade de mudar depende de si


Naturalismo Pop
Mona Lisa Show de Pedro Gil

Atenção. O Mona Lisa Show vai começar. Luzes. 7 personagens, 7 histórias para contar, 7 pessoas em palco. Eles falam de si próprios, abrem-se ao público como se fosse um reality show. Como se de uma montra se tratasse. No fundo falam de nós ou de pessoas que conhecemos, em diálogos cruzados, que por vezes se tocam, dando respostas uns aos outros, criando dúvidas. Diálogos murmurados que nem sempre estão em foco. A certa altura estão todos a falar ao mesmo tempo. O concerto já começou.

Pedro Gil, mentor da ideia conceptual e encenador da peça teve a trabalhar neste espectáculo dois anos. Depois de “Homem-Legenda”, apresenta uma nova criação. A peça insere-se numa linha semelhante, a de espectáculo provocante. Os pensamentos de cada um ganham voz ou os pensamentos dos outros fazem-nos questionar os nossos próprios pensamentos. Os desejos mais íntimos podem estar em palco. Perguntas, muitas perguntas e nenhuma resposta, essa pode estar em cada um de nós. A temática versa sobre o amor, a família, a realização profissional e pessoal, o tempo e a qualidade de vida. Na prática são temas que reflectem os dias que vivemos na sociedade. Eles são de Lisboa e pertencem a este espaço.
Pedro Gil começou por criar um esboço das histórias que queria contar. Juntou a equipa de actores e partiram rumo a Montemor-o-Novo, onde fizeram uma residência artística, no Espaço do Tempo. As personagens foram ganhando forma e foram de algum modo reinventadas. O encenador considera que as personagens estão todas numa espécie de abismo. Todas já têm algumas conquistas na sua vida, têm um lugar seguro onde vivem. Mas, por isso mesmo podem mudar. Porque não? Apresento-os:


- Vai ser pai, trabalha no ramo imobiliário e corresponde-se na Internet com a Soraia, que através de uma fotografia falsa vai entrando nos pensamentos dele. Ricardo Gageiro dá voz a este homem.
- Mãe, esposa e publicitária a tempo inteiro, que se culpabiliza por ser sempre a última a ir buscar o filho ao infantário. Tem aulas de salsa, o único “luxo” a que se permite numa vida agitada. Ela é uma mulher cansada, que há meses que tenta acabar o livro que está a ler, nunca saindo da mesma página. Quer despedir-se, deixar de se esquecer das amigas e ter tempo. Raquel Castro numa óptima estreia.
- Casado há 26 anos. Dois filhos adultos. A filha descobriu que ele tem uma amante praticamente da idade dela. Ela está em pânico com o facto da mãe poder descobrir e confronta o pai com o facto de ter descoberto. Isto nunca lhe tinha acontecido. Será amor? Ele é António Fonseca.
- Namora há quatro meses. Mas o Nuno é que era. Tinham uma relação de perfeito encaixe. O Filipe quer ir viver com ela. E as luzes vermelhas acendem-se na sua cabeça: pânico, perigo, pensa rápido numa resposta. Ele é só “boa cama” na visão dela. Ele quer ser o pai dos seus filhos. Ela diz-lhe que quer uma relação aberta e que com ele nunca vai resultar. Acaba com ele. Quer um homem que a deixe ser livre sexualmente. Mónica Garnel tem um desempenho brilhante.
- Ele quer ser o filho ideal, visita pelo menos uma vez por mês a sua mãe. É homossexual e quer-lhe dar um filho. O seu pai nunca aceitou a sua sexualidade. Ele adora praia, o verão e as suas paixões. Romeu Costa é esse filho.
- É artista, mulher, bonita. Nasceu na Argentina, mas veio estudar para Portugal. Deixa a vida correr. Questiona-se. Um amigo dela, também artista, pergunta-lhe quando vai ela desistir de criar, quando vai ela ter a coragem para ir procurar a felicidade noutro lado. Ainhoa Vidal, a bailarina descobriu mais um talento.
- O pai tem cancro. Ele tem tantas perguntas para lhe fazer, o pai não tem nenhumas. O pai não aplaude as suas escolhas profissionais. O filho convida o pai para uma viagem. Não percebe como é que os dois nunca se embebedaram. Por David Almeida.



A encenação de Pedro Gil funciona muito na base do trabalho de actor. Tudo acontece entre a passadeira, os projectores e as personagens. Em termos temáticos não nos traz nada de novo, mas dá-nos flashes, fragmentos que podem fazer a diferença. Clichés e frases que toda a gente já disse ou já ouviu: “Quero acabar contigo. Não é sobre ti, sou eu. Preciso de espaço. A comida é quase tão boa como a da mamã. Não desistas de mim.” É de um naturalismo pop soberbo.
Até porque no meio de temas aparentemente banais, falam também de preconceitos, de problemas sociais e culturais e do poder dos ícones, da fama. Ao longo do espectáculo vão-se sentindo cortes emocionais, que por vezes são conseguidos pela música ou pela própria interrupção nos diálogos.
O que quer essencialmente é contar as histórias destas personagens e a forma como se relacionam, na actualidade: “Não procuro que as pessoas se identifiquem, apenas que aceitem, que sirva como uma janela que pode dar ou não num processo de reflexão.”.
A peça vem-nos relembrar que há possibilidade de fazer coisas que nunca tivemos coragem de fazer, escolhas, ter direito a, poder escolher. Saber dizer quero mais, quero diferente. Escolhi isto. Ser só eu, sem medos, sem desconfianças. Acabar a dizer: “Esta sou eu, a minha respiração” e parar de andar “Para trás e para a frente, como se fosse uma máquina: o que tenho de fazer, o que ficou por fazer”.
Pode mudar a sua vida? Não tanto, mas pode mudar algumas coisas da sua vida. Será um momento de libertação, desde que esteja disponível. A questão que o “Mona Lisa Show” deixa é: do que é que se vai lembrar amanhã?

ANA MARIA DUARTE

© imagens de José Franscisco Azevedo
Artigo publicado no Jornal Semanário (ed.10.10.2008)



segunda-feira, 25 de agosto de 2008

New York - Lisbon » "Homem-Legenda"

“Homem-legenda” nasce no contexto do programa de criatividade e criação artística do C.A.M. da Gulbenkian, assinado por Pedro Gil e Diogo Mesquita, com produção de Barba Azul Companhia Teatral. Um verdadeiro “One man show” que brinca com o público, explorando conflitos do homem comum. O Semanário esteve à conversa com Pedro Carmo, o actor que sobe a palco com o projecto.

Em palco um homem e uma legenda interagem entre si e com o espectador. Ensaios de auto-reflexão: sou o que quero ser ou o que a sociedade espera que eu seja? Qual o problema de assumir o que sou? Posso deitar cá para fora tudo aquilo que penso?
“Homem-legenda” é um espectáculo que consegue ser provocador de uma forma subtil. Ricardo (Pedro Carmo) dialoga com uma voz, a das legendas projectadas. Pedro Carmo neste espectáculo demonstra uma vez mais a sua fantástica força e energia de performance contagiante. Entrou neste espectáculo a convite de Pedro Gil, encenador em co-criação com Diogo Mesquita. “As ideias já estavam mais ou menos definidas, mas sempre senti ao longo do projecto de criação que estavamos a iniciar algo juntos.” Relativamente ao espectáculo apresentado na Gulbenkian e na Fábrica da Pólvora, as alterações têm mais a ver com o próprio espaço. “O espaço agora é mais intimista, na altura era um teatro convencional, agora é um café-teatro. A energia que eu ponho no espectáculo é diferente.” O contacto com as pessoas diverge devido a essa maior esfera de intimidade que o próprio Bar Teatro permite. “Antes eu olhava para eles do palco para a plateia e aqui vou para o pé do público, olho mais nos olhos. Quando saio sinto-me mais livre.”
Pedro Carmo dá voz a Ricardo, um homem comum, de 34 anos, consultor numa multinacional, com medo de assumir a sua identidade e compromissos. “Há muitas coisas com que me identifico, até porque o personagem foi construído por mim e é inevitável, mas acho que ele é mais um alter-ego do Pedro Gil. Todos os homens se identificam com alguma coisa.”
O objectivo do espectáculo é fazer as pessoas questionarem-se mesmo sobre coisas aparentemente inúteis. “Tudo tem um sentido e se pararem para pensar, talvez se consigam ouvir e compreender-se melhor. Há comportamentos tipificados do homem, mas a personagem toca profundamente o público feminino. Não é algo sexista.”
O percurso de Pedro Carmo como actor inicia-se no I.S.E.G, onde aliás se licenciou em economia, mas a sua formação teatral passa pela E.S.T.C., pela Gulbenkian e por Nova Iorque. Foi para esta cidade fazer um curso de representação para cinema. “Há um ano tive necessidade de parar. Fui estudar representação para cinema, com uma bolsa da Gulbenkian. Quanto a outras profissões pensei em voltar à economia, ou ser cozinheiro (risos), não fosse o facto de ter de voltar a estudar.”
Relativamente a projectos futuros, passam por regressar a Nova Iorque porque a cidade realmente o fascina. “Gosto de viver lá, mas o trabalho é cá. O ideal era andar cá e lá.” Provavelmente a fazer cinema, a grande paixão. Depois de ter entrado em “António, um rapaz de Lisboa” de Jorge Silva Melo e “Portugal S.A.” de Ruy Guerra e algumas curtas, confessa: “É a minha grande paixão, mas é díficil entrar nos meandros do cinema. O mercado em Portugal é pequeno e funciona muito pela química entre quem dirige e o actor. Tenho feito, mas não tanto como queria”.
Em termos de representação considera que NI e Portugal têm grandes diferenças. “95% do que se faz de teatro em NI não me diz nada. É um teatro pobre, muito realista, em desuso e não traz nada de novo. Mas na representação vão mais longe, mais fundo no trabalho de actor. Gostava mais de trabalhar ao nível do cinema.”
Pedro Carmo já esteve no papel de encenador, com o grupo de teatro amador teatroàparte e o Grupo de Teatro Focus. “Quando me convidaram, a minha primeira resposta foi “não estou preparado!”, mas depois descobri muito sobre mim. É algo que vai estar sempre lá. Quando deixei o grupo teatroàparte foi muito complicado, porque já tinhamos desenvolvido uma relação afectiva muito forte. Foram quatro anos muito intensos para mim, e espero que para eles também (risos), mas tinha de largar a encenação. Queria romper com tudo. Agora tenho de encontrar a minha veia estilistica. Encenar só por encenar não faz sentido. Assim como estava a precisar de parar como actor e agora sinto necessidade de voltar, também tem de haver essa urgência com essa urgência.”
Pedro Carmo é movido por paixões, pela intensidade de representar e isso sente-se e vê-se no brilho dos olhos quando fala dos seus projectos. Antes de voltar a Nova Iorque, entrega-se ao “Homem-legenda”, que vai ficar neste espaço até dia 24 de Junho, passando pelo “Serralves em Festa”. Uma excelente oportunidade para conhecer o talento deste actor e para parar e pensar.


Artigo publicado no Jornal Semanário - Maio 2006