quinta-feira, 7 de maio de 2009

"La Danseuse Malade": a libertação do butô



« O corpo é a minha oficina; e o meu ofício, conhecido como dança, é uma tarefa de restauro do humano »
Tatsumi Hijikata

Mais uma vez dança-se. « La Danseuse Malade », de Boris Charmatz, com interpretação dele próprio e Jeanne Balibar. O texto base é de Tatsumi Hijikata, fundador do butô, mas este espectáculo não é butô nem o pretende ser, é acima de tudo experimentação e liberdade de movimentos. 7 e 8 de Maio, pelas 21h30, no Grande Auditório da Culturgest.

Jeanne não é bailarina profissional, Boris não tem experiência de teatro. Ele é bailarino, co-fundador da associação edna em 1992, e já criou um conjunto de peças que fizeram história, continuando a sua actividade enquanto intérprete e improvisador. Hoje é director do Centre chorégraphique national de Rennes et de Bretagne. Livros, filmes, projectos atípicos. Uma predisposição para experimentar. Ela é actriz, primeiro de Comédie-Française, depois de cinema de autor. A partir de 2003, também cantora. Ela gosta de experimentar.
O encontro entre Jeanne Balibar e Boris Charmatz dá-se em 2005 no âmbito do projecto en Micronésie de Pierre Alféri. Os dois pegam num texto de Tatsumi Hijikata. Bailarino e coreógrafo japonês, Tatsumi Hijikata, é considerado o pai do butô (dança das trevas), estilo de dança japonesa. Quando estreia o seu primeiro trabalho dentro deste género em 1959, Kinjiki (Forbidden Colours), o sentimento de afronta que se apodera do público no final da peça é tão intenso que resulta na expulsão de Hijikata do Festival. O seu estilo acaba por se caracterizar como uma reacção contra a dança moderna no Japão, que Hijikata sentia que se demonstrava como superficial e colada ao Ocidente. Este sentimento evidencia-se pela sua resistência ao modernismo – Hijikata vai explorar a fraqueza ao invés da força, preferindo a retracção à expansão. Inspira-se, também, na literatura francesa e no surrealismo, nomeadamente no erotismo, na violência e nos tabus da sociedade moderna.
Charmatz avança “Não sei se gosto do Hijikata”, “ (…) eu não sei se sou capaz de gostar de Hijikata : ele parece sujo, morto, impotente, virgem e obsceno”, mas avança para essa experimentação, ao lado de Janne. Acredita na vontade de transmissão dos seus escritos, que têm em si mesmo a capacidade de movimento da dança e butô. O trabalho que desenvolve é por baixo e ao lado do butô, não é uma reinvenção desta arte. Não é na verdade uma encenação, é antes uma libertação desses mesmos escritos, onde já encontramos a miséria, a lama, a deformidade. É experimentação entre um bailarino que não tem experiência de teatro e uma actriz que não é bailarina. Existe um trabalho sobre fragmentos, uma tentativa de se libertar da tradição da transmissão da dança através do corpo a corpo. No início existe a penumbra, eles estão loucos, gritam, saltam, arrancam o chão. « Quando os faróis da carrinha iluminam o palco, é como se uma repentina lucidez tomasse conta de ambos. Jeanne começa literalmente a despejar o texto para cima do público quando entra na carrinha. Boris desapareceu de cena. Passado algum tempo a carrinha arranca e começa a andar em círculos. A dado momento, percebe-se que transporta Boris (como uma carcaça), com os seus arranques, recuos e embalos. Há ainda um ataque de um cão – animal esgalgado, apedrejado pela miudagem, tripas de fora – e tudo acaba com Jeanne, cara branca e vestida de negro, a dançar ao som da música de Boris. Como refere Gérard Mayen, “Todos estes elementos deverão permitir aos artistas colocarem-se na sua relação com o texto. Mais do que um dueto entre Boris Charmatz e Jeanne Balibar, haveria um trio com Hijikata, através das suas palavras, que fazem estar junto mas não juntam; que reúnem no limite, no tormento, na dilaceração.” »
Dança e obscuro estão sempre presentes. Encontram-se, tal como Jeanne e Boris num dueto onde interagem várias artes.




“ (…) Calcorreando meticulosamente Tóquio – onde não está forçosamente extinta esta geração que com as mãos concebeu os olhos – cheguei aos materiais. Que só tive depois que juntar no meio de uma juventude ocupada aqui a roçar-se num atelier de galvanização, acocorada ali numa garagem. Olho para as mãos. Liberta-se delas um movimento de partículas mal desbastadas. A coluna vertebral inclina-se ligeiramente para a frente. Uma dança desce-lhe pela ladeira. Para um olhar infeliz pode-se mudar de gelatina. Cabeças ardentes. A vingança reprimida de um mamilo baixou um pouco a cabeça; é preciso que o material seja antes de mais um amante. Aproximo-me. O odor estabelece entre mim e os rapazes um equilíbrio quase ascético; de modo geral, todos estes corpos excessivamente esticados, como as varetas de um guarda-chuva que criam uma barreira ao que cai, todos esses corpos enviesados, quebradiços, insensibilizados pelo sofrimento, dão de muitas maneiras prioridade a linhas quase decalcadas dos seus vinte anos, em vez e no lugar de todas as figuras sedutoras. Na imensa Tóquio há corpos a morrer.”

Tatsumi Hijikata

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado no Jornal Semanário (30-04-2009)

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