terça-feira, 23 de dezembro de 2008

“No Cinema” – o espaço cinematográfico



Centro de Memória - novo espaço em Vila do Conde

O Centro de Memória, novo espaço cultural em Vila do Conde, abriu ao público, e para marcar este acontecimento, a Solar Galeria de Arte Cinemática inaugurou a exposição 'No Cinema', uma colectiva de diversos artistas, que estará patente naquele novo espaço até ao dia 30 de Julho de 2009. Na mostra são apresentados trabalhos de Cesário Alves, Sandra Gibson, Luis Recoder, Cristoph Girardet, Mathias Müller, Graham Gussin, Ariane Michel e Tsai Ming-liang.


O Centro de Memória é um espaço da Câmara Municipal de Vila do Conde, instalado na secular Casa de S. Sebastião. Com uma área de praticamente 2.700 metros quadrados, este edifício foi reestruturado para receber a componente destinada a exposições com temática focada na história da formação e evolução urbana, social e cultural da cidade. Os dois corpos novos duplicaram a área do edifício existente, perfazendo cerca de 5.400 metros quadrados, recebendo os depósitos do arquivo municipal, áreas de tratamento técnico, recepção, salas de exposições temporárias e permanentes, sala de leitura e sala polivalente, serviços educativos, espaço internet e cafetaria, compreendendo uma área de estanteria e módulo de armazenamento, naquilo que constituirá um dos mais modernos arquivos municipais. Existe ainda um jardim urbano dentro dos muros antigos do Solar, mantendo, no antigo logradouro, as pré-existências características de Vila do Conde medieval. Já de si este espaço tem bastante potencial, mas o que dizer quando vemos que além disso o projecto inaugural nos cativa de tal forma?
O cinema tem vindo a estabelecer uma relação privilegiada com o museu enquanto espaço expositivo, muito pela perda de magia das salas de cinema. Nas últimas décadas temos vindo a assistir ao desaparecimento das verdadeiras salas de cinema, substituídas pelos pequenos estúdios, nos anos 80, e depois pelos complexos de pequenas salas nas grandes superfícies comerciais. Assim, as salas foram desenraizadas, tendo começado a abandonar as suas áreas nobres, o centro das cidades. Constata-se uma certa nostalgia, que se tem manifestado em alguns dos cineastas da actualidade, assim como por artistas de outras áreas de expressão visual. Desta forma assistimos a uma integração dessa matéria noutros espaços que não as salas de cinema.



Em Vila do Conde, no contexto da realização do Curtas Vila do Conde – Festival Internacional de Cinema em Vila do Conde, que acontece pela primeira vez em 2002, e associado ao mesmo, surgiu um novo projecto que tem vindo a conferir especial atenção a este fenómeno da intromissão do universo cinematográfico no espaço de uma galeria, a Solar - Galeria de arte cinemática.
“No Cinema” é uma exposição, comissariada por Dario Oliveira, Mário Micaelo e Nuno Rodrigues, que parte de um conceito relacionado com a memória cinematográfica e artística, e que relaciona um evento, o do início da utilização deste espaço, com a sua própria essência programática. A Solar – Galeria de Arte Cinemática tinha trabalhado com Tsai Ming-Liang, um artista que tem um interesse por outros lugares de apresentação de imagens em movimento, como o museu. “It´s a dream” foi concebido por Tsai para a exposição Atopia e foi esta a ideia base de organização desta exposição. Trata-se de uma obra que convoca para o espaço do museu uma sala de cinema revestida com espelhos, habitada por uma tela e um conjunto de cadeiras provenientes duma antiga sala de cinema da Malásia (país de origem do cineasta, onde nasceu em 1957). Nesta última é apresentado um filme que, também ele, exibe uma sala de cinema abandonada onde se encontram as cadeiras transportadas para o museu.
Também uma outra instalação “Deanimated”, recentemente exposta na galeria Solar a propósito da exposição Martin Arnold, esteve na origem deste projecto. Foi a partir destas duas instalações, que convocam para o interior do museu a presença física da sala de cinema, que se decidiu conceber esta exposição para o espaço do Centro de Memória, cujo título remete para a vivência passada e presente do lugar do Cinema. Trata-se de uma musealização do espaço do cinema e do seu espectáculo, a projecção numa sala escura., alternando-se, inevitavelmente, a noção de tempo. É criada uma nova relação temporal e espacial com o espectador, que é testemunha de um espectáculo público desvalorizado e ultrapassado pela passagem da projecção pública ao consumo privado.





“No Cinema” reúnem-se as obras “Cine-Teatro Neiva” (2008) de Cesário Alves, “Light Spill' (2006) de Sandra Gibson e Luis Recoder, “Play” (2003) de Cristoph Girardet e Mathias Müller, “Unseen Film” (2001) de Graham Gussin, “The Screening” (2008) de Ariane Michel e “It's a Dream” (2007) de Tsai Ming-liang.
“Ao longo das várias salas de exposição define-se um percurso que introduz o visitante num espaço de imersão, um espaço no qual vai (re)descobrindo vestígios do espaço do cinema, num contexto de bulimia visual que privilegia o fluxo interminável e fragmentário de imagens. Por sua vez, fomenta-se a circulação do espectador, o qual põe de parte a atitude contemplativa/passiva anteriormente assumida na sala de cinema. Nesta exposição, o visitante é convidado a percorrer os espaços, a descobrir as formas e os sons dos próprios mecanismos que permitem a fruição dos filmes. Perante as múltiplas e simultâneas projecções, o espectador é levado a percorrer as diversas salas de exposição, a fazer escolhas, permanecendo ou descobrindo novos espaços, integrando a própria obra artística.”, assim nos é apresentado o conceito da exposição, nas palavras de Nuno Rodrigues.
Esta é uma forma um pouco triste de reviver o cinema tal como gostaríamos que ele fosse porque nos dá a ideia de que jamais voltará a ter o seu espaço privilegiado na urbe, mas talvez a magia esteja aí, na passagem do cinema ao espaço de estilo museológico, em que possamos elevá-lo ainda mais à luz e ao foco artístico, porque o cinema toma a voz dos artistas plásticos e os artistas plásticos o diálogo do cinema.

ANA MARIA DUARTE
Artigo Publicado no Jornal Semanário (24.12.2008)

Branca de Neve, por Preljocaj


Versão fiel com espaço para simbolismo

“Branca de Neve” é a mais recente criação do Ballet Preljocaj, um bailado contemporâneo romântico baseado na versão do conto de fadas dos irmãos Grimm. Na linha das grandes obras de repertório inscritas na memória colectiva da dança, como a “Cinderela” ou “A Bela Adormecida”, Preljocaj propõe-nos a revisitação do conto da “Branca de Neve” para toda a família. O coreógrafo queria contar uma história e decidiu partir daí, contando com a participação de 26 bailarinos, acompanhados por alguns dos mais belos excertos das sinfonias de Mahler e com cenários de Hierry Leproust e figurinos de Jean-Paul Gaultier. O espectáculo será apresentado nos dias 27, 28 e 29 deste mês, no Centro Cultural de Belém.

Angelin Preljocaj é francês, filho de pais albaneses. Iniciou os seus estudos de dança clássica, tendo-se depois dedicado à dança contemporânea com Karin Waehner. Em 1980, vai para Nova Iorque trabalhar com Zena Rommett e Merce Cunningham, tendo continuado os estudos em França com a coreógrafa americana Viola Farber e Quentin Rouillier. Junta-se, em seguida, a Dominique Bagouet até à fundação da sua própria companhia em Dezembro de 1984. Desde então coreografou 38 peças, desde duos a grandes formações.
Algumas das criações mais recentes de Angelin Preljocaj como “Empty Moves” e “Eldorado” foram elaboradas num universo de maior abstraccionismo. Desta vez queria contar uma história, pelo que decidiu partir do conto “Branca de Neve”, mantendo-se fiel à versão dos irmãos Grimm, para criar um bailado romântico contemporâneo. A história é conhecida de todos, o que deu maior liberdade para se concentrar na linguagem dos corpos dos seus 26 bailarinos, dando mais atenção ao simbolismo e ao espaço, sem que, de qualquer forma, se perdesse o rumo da narrativa, já que essa tem um fio condutor e um espaço na memória colectiva já garantido. A fidelidade à versão dos irmãos Grimm é algo que o coreógrafo foca elevando-o ao lugar essencial no seu trabalho. A história é esta, as variações que são feitas dependem apenas de algumas visões e análises de determinados símbolos existentes no texto e no contexto do mesmo. A reivindicação do termo bailado advém exactamente da reunião dos 26 bailarinos da companhia, o que reflecte não só a vontade de trabalhar em universos opostos, mas também a importância que o coreógrafo dá a este seu trabalho.

Para “Branca de Neve”, Angelin Preljocaj construiu uma dramaturgia musical com alguns dos mais belos excertos das sinfonias de Gustav Mahler, cujos contornos românticos encantaram o coreógrafo e que combinam na perfeição com o universo maravilhoso conseguido pelos cenários de Hierry Leproust e pelos figurinos de Jean-Paul Gaultier. Eles dançam ao som das sinfonias de Mahler, cujos magníficos contornos são de essência romântica. “Historicamente, os contos de Grimm também o são, mesmo se o seu estilo límpido nos transporte para uma forma de contemporaneidade. É uma tarefa delicada, procurar emocionar. A música de Mahler é manipulada com grande cuidado, mas hoje é um risco que eu tinha vontade de assumir.”
Preljocaj conseguiu o que queria, trabalhar no oposto, “escrever algo de muito concreto e abrir um parêntese feérico e encantado. Para não cair nas minhas próprias rotinas, claro. E também porque, como toda a gente, adoro histórias.”.
Este espectáculo e a criação de Preljocaj permite-lhe contar uma história através da dança, de forma delicada e apaixonante. Os corpos dizem coisas além das histórias, assim como as energias e o próprio espaço, onde os personagens experimentam e sentem, de modo a conhecer a sua própria transcendência. Além disso, segundo o autor “Branca de Neve contém objectos maravilhosos para o imaginário de um coreógrafo”. Trata-se de um bailado narrativo, com dramaturgia, em que os lugares são representados pela cenografia de Thierry Leproust, e os bailarinos encarnam usufruem dos figurinos de Jean-Paul Gaultier.

A madrasta é a personagem central do conto e é nela que está o ponto de reflexão e de questionamento de Preljocaj ao desenvolver este seu trabalho. “É ela que eu também questiono, pela sua vontade narcísica em não renunciar à sedução e ao seu lugar como mulher, ao ponto de sacrificar a sua enteada. A inteligência dos símbolos pertencem tanto aos adultos, como às crianças, dirige-se a todos e é por isso que eu adoro os contos.” Uma história a ouvir, um bailado a deixar tomar o seu espaço.

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado no Jornal Semanário (24.12.2008)

Mr. Antony Hegarty está de volta a Portugal


Antony actuará em Lisboa e no Porto durante o próximo ano. A acompanhá-lo vêm os The Johnsons, para a apresentação do novo álbum, “The Crying Light”. Grande notícia antes do final do ano, já em planeamento do próximo há tanto tempo.
Em 1998, Antony and The Johnsons editaram o primeiro álbum, homónimo. Nessa altura, nem todos estavam preparados para o ouvir, nem aceitar a sua singularidade. O seu lugar foi sendo conquistado, aos poucos, começando a ser reconhecido pelas suas múltiplas colaborações com as Cocorosie, com Devendra, entre outros. Hoje são uma banda de culto na música alternativa. Foi preciso esperar sete anos por um novo álbum de originais, mas a espera foi proveitosa. “I am a Bird Now” é um dos discos mais marcantes dos últimos anos e valeu à banda o Mercury Music Prize.
À semelhança do primeiro disco, “I am a Bird Now” foi escrito na íntegra por Antony Hegarty, mas graças ao sucesso do primeiro álbum, foi possível colaborar com artistas de grande renome, como Lou Reed, Boy George, Rufus Wainwright e Devendra Banhart para colaborarem nas gravações.
Depois da recente e muito aclamada colaboração de Hegarty com os Hercules & Love Affair, o músico lançou-se na gravação dum novo álbum, “The Crying Light” que será editado no início de 2009.
Numa progressão natural do EP “Another World”, a capa do álbum inclui um retrato de 1977 de Kazuo Ohno, um dos co-fundadores e mais reconhecidos bailarinos de Butoh, tirada por Naoya Ikegami em Tóquio.
No retrato, Kazuo Ohno é representado a tentar alcançar a luz, com o rosto e a postura reclinada a ecoarem elementos de berço e sepultura. A vida, a morte e a transcendência estão certamente evocadas neste retrato.
Venha o mês de Maio e esse álbum que a ânsia é grande. Os concertos serão nos dias 14 de Maio no Coliseu de Lisboa e 18 de Maio no Coliseu do Porto. Os bilhetes custam entre 20 e 50 euros, dependendo da proximidade física relativa a Antony e já estão à venda nos locais habituais.

ANA MARIA DUARTE

Artigo publicado no Jornal Semanário (24.12.2008)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Concentrado de tragédia, romance e desespero, para diluir em cada um de nós


Estreia mundial da ópera “Outro Fim”

Este sábado, dia 20, pelas 21h30, no Grande Auditório da Culturgest, terá lugar a estreia mundial da ópera “Outro Fim”, de António Pinho Vargas com libreto de José Maria Vieira Mendes, uma co-produção do Teatro Nacional de São Carlos e da Culturgest
“Outro Fim” é uma história operática, que inclui em si mesma todos os ingredientes: tragédia, romance, desespero. Sobre si pairam os dramas familiares, as histórias de vida dos que, face a um quotidiano pouco exaltante e exaustivo, acabam por chegar às tragédias, quase como se fosse esse o cume para onde caminham ao longo de toda a subida construída ao longo da obra.
O espectáculo repete no domingo, dia 21, à mesma hora. Os bilhetes têm o preço de 25 euros, mas, como é habitual na Culturgest, até aos 30 anos os bilhetes têm um preço único de 5 euros.

“Outro fim” acontece em tempo reduzido, como se fosse um concentrado, pronto a diluir dentro de cada um de nós. A princípio parece contemplar espaço para todos, mas no final tem apenas espaço para poucos, os essenciais. Tudo começa com José Maria Vieira Mendes, essa grande promessa contemporânea. Primeiro havia a memória de um filme, depois a leitura de um livro e depois foi escrevendo e compondo aquilo que passou à condição de libreto. Ele próprio assim o comunica, ao processo: “Havia a memória de um filme. Uma memória que não era muito mais nítida que as imagens da sobreposição de duas caras, duas películas justapostas a encaixarem-se. Era também a ideia de máscara, era a palavra “persona”, era as duas mulheres, as identidades a confundirem-se. Era um reforço da ficção, uma demonstração da ficção. Para refrescar a memória não revi o filme, mas li o livro. Roubei umas frases que já não sei se ficaram e interessei-me quase em simultâneo por uma antiga ideia de ópera. E depois fui começando até acabar num libreto de Série B. Ou seja, uma história operática, com todos os ingredientes – trágica, romântica, desesperada – mas em tempo reduzido. Concentrada e apertada. A princípio ainda com espaço para todos, mas no final já só com espaço para poucos. E por culpa disto, por falta de espaço e também de tempo, as identidades, lá está, misturam-se, sobrepõem-se e atraem-se como o mercúrio. Os muros apertam, as portas fecham-se, as “personas” são obrigadas a encolher, a juntar-se aos outros até deixarem de ser. Ou até se mostrarem – e este é um vício que ainda não sou capaz de abandonar – gente de um autor, coisa de papel, fina película sem carne nem osso.” Só este texto de José Maria Vieira Mendes já seria suficiente por si só a suscitar a necessidade composta de criação de António Pinho Vargas. É isso que acontece.
António Pinho Vargas pega no libreto “Outro Fim” de José Maria Vieira Mendes e constrói uma ópera, na qual conta com direcção musical de Cesário Costa; encenação e espaço Cénico de André Teodósio, em parceria com Vasco Araújo, e com interpretação de Larissa Savchenko (Mãe), Sónia Alcobaça (Mulher), Madalena Boléo (Cunhada), Luís Rodrigues (Homem), Mário Alves (Irmão) e ainda elementos da Orquestra Sinfónica Portuguesa. A equipa é já de si promissora. Quando o lê pela primeira vez, esse libreto, António Pinho Vargas sente três coisas: “que as palavras tinham uma plasticidade muito adequada a uma ópera, que a acção dramática se desenrolava com o ritmo de uma peça de teatro e, finalmente, que as personagens eram ricas, tinham espessura e complexidade psicológica. O trabalho de composição tinha, de facto, tudo para poder ser começado e assim, começa pelo texto, pela interpretação das situações e pela consideração do seu potencial.”
Vai criando materiais musicais que são sujeitos a transformações e a derivações de si mesmos conforme o desenrolar da acção e a contingência do próprio acto criativo. Por exemplo, “A divisão do palco em três lugares da acção visíveis em simultâneo, sendo um deles um café, motivou a escolha de divisões entre a localização principal dos músicos no fosso e de pequenos grupos instrumentais on stage em certos momentos.”
Esta é uma obra operática para ver este fim-de-semana na Culturgest, para saborear os ingredientes dentro de cada momento e de cada espaço no palco, mas para diluir posteriormente o essencial que estará comprimido espacial e temporalmente, mas não criativamente. Para deixar entrar.

ANA MARIA DUARTE

Artigo publicado no Jornal Semanário (19.12.2008)

A Man in a Room Gambling



Gavin Bryars Ensemble
Iniciativa paralela à exposição de Juan Muñoz

Gavin Bryars Ensemble interpreta “A man in a room gambling”, numa iniciativa paralela à exposição hoje, dia 19 Dezembro, às, 22h00, no Auditório de Serralves.
O Gavin Bryars Ensemble interpreta uma selecção de temas que resultam da colaboração de Bryars com Juan Muñoz. “A Man In A Room Gambling” surgiu de uma encomenda da BBC Radio 3 e da Artangel, e foi concebido para ter o carácter de um programa de rádio, e desenvolvendo-se segundo uma sequência de textos sobre estratégias usadas em jogos de cartas, acompanhados por música. “Desde o lançamento do trabalho, este tem vindo a ser apresentado como concerto musical ao vivo, onde conjuntos de quatro ou cinco peças são interpretados em sequência, como neste caso, e a orquestração tem sido modificada para dar uma instrumentação ligeiramente diferente a cada peça. O objectivo continua a ser, como no caso da Shipping Forecast, o de dar ao ouvinte a vaga impressão de que isto pode ser uma actividade altamente dramática e gerar a sensação de um espaço imaginário nestes cinco minutos.....”. O programa deste concerto inclui ainda “The North Shore”, a obra memorial que Bryars dedicou a Muñoz.
Gavin Bryars é um compositor e contrabaixista inglês com trabalho realizado em áreas musicais tão diversas como o jazz, a improvisação e a composição musical, abordando linguagens como a experimentação, o minimalismo e o neoclassicismo. Ao longo da sua carreira, Byrars tem também investido em várias colaborações com encenadores e coreógrafos, de onde podemos destacar Robert Wilson (na ópera Medea”, ou na inacabada “CIVIL WarS”), Merce Cunningham (em “Biped”) ou Lucinda Childs (com “Four Elements”) Entre as suas obras mais conhecidas encontramos “The Sinking Of The Titanic” e “Jesus Blood Never Failed Me Yet”.
A propósito deste projecto, Gavin Bryars diz que quando o convidaram para esta colaboração, “(…) Obviamente, a ideia de trabalhar com um escultor num meio não-visual era muito interessante e constitui um desafio, especialmente quando percebi que íamos tentar descrever acções que envolvem truques e ilusões visuais e depois inseri-las num contexto de difusão radiofónica.(…). Para o nosso projecto, que acabou por se chamar “A Man in a Room Gambling” (“Um homem num quarto, apostando”), Juan escreveu dez textos, cada um descrevendo a manipulação de cartas de jogar – distribuindo as cartas do fundo do baralho, evitando fracassar no Three-Card Trick (truque de três cartas), escondendo uma carta na mão, etc. Algum deste material foi recolhido dos ensaios do mestre canadiano, S. W. Erdnase especialmente do seu livro “The Expert at the Card Table” que contém alguns dos mais perfeitos truques envolvendo a manipulação de cartas. Decidimos que cada episódio duraria cinco minutos e seria concebido para ser difundido antes do último noticiário da noite para assegurar que o programa, pelo menos na Grã-Bretanha, seria ouvido um pouco como o “Shipping Forecast” (Prognóstico Marítimo), que é difundido pelo BBC a quatro horários muito específicos durante cada dia. Do seu lado, Juan imaginou um ouvinte conduzindo o seu carro na autoestrada à noite, estupefacto por encontrar esta curiosidade efémera e talvez enigmática, precisamente na mesma maneira que a maioria dos ouvintes reagem ao Shipping Forecast.”
Serralves recebe um programa que nos possibilita ver aquilo que foi construído para a rádio, durante duas horas. Por outro lado, a RUC (Rádio Universitária de Coimbra) estará em Serralves, para uma emissão especial entre as 22h e as 24h em 107.9 FM. A transmissão em directo possibilita aos ouvintes a vivência desta obra inicialmente concebida para a rádio, mesmo se desta forma os ouvintes não experenciam a obra em partes, como inicialmente, mas numa sequência que seguramente nos transportará para um lugar imaginário e que nos fará compreender melhor, ou pelo menos ter uma visão de um ângulo diferente, da obra de Juan Muñoz.

ANA MARIA DUARTE

Artigo publicado no Jornal Semanário (19.12.2008)

Juan Muñoz: uma retrospectiva


Forma humana de arte
Escultura em Serralves

A exposição do escultor Juan Muñoz no Museu de Serralves poderá constituir, por si só, um motivo para ir ao Porto. Depois de ter passado por Londres e Bilbao, a mostra de um dos escultores mais inovadores dos últimos anos poderá ser vista até ao dia 18 de Janeiro.

Exposição co-produzida pela Tate Modern, Londres, e a Sociedad Estatal para la Acción Cultural Exterior de España – SEACEX, em associação com o Museu de Arte Contemporânea de Serralves, a exposição do escultor espanhol Juan Muñoz, chega à cidade do Porto, depois de passar pela Tate Modern, em Londres, e pelo Museu Guggenheim, em Bilbao.
O artista Juan Muñoz faz parte de uma geração de artistas europeus surgidos nos últimos vinte anos, cuja obra alargou consideravelmente a linguagem da escultura, por ter recolocado a figura humana no centro da arte, criando tantas vezes obras que provocam não só sensações momentâneas através da utilização da ilusão óptica, mas que nos provocam sensações e reflexões retardadas no tempo por nos recolocar numa posição de questionamento artístico e individual. Ao longo da sua carreira, precocemente terminada, Muñoz conseguiu devolver à figura humana um lugar central na arte mas recolocando-a, através da sua perspectiva única, num local ao mesmo tempo familiar e estranho.
Muñoz nasceu em Madrid em 1953. Na década de setenta viajou para Inglaterra para estudar no Croydon College e na Central School of Art and Design. Em 1982 viajou para os Estados Unidos, prosseguindo os estudos no Pratt Centre de Nova Iorque. Teve a sua primeira exposição em 1984 na galeria Fernando Vijande, de Madrid. Desde então expôs os seus trabalhos frequentemente na Europa e em outras partes do mundo. O escultor faleceu subitamente, aos 48 anos de idade, na sua casa de Verão em Ibiza, a 28 de Agosto de 2001. Na altura da sua morte a sua obra Double Bind estava em exposição na Tate Modern, em Londres. Foi este o museu a mostrar primeiro esta exposição que possibilita ao público conhecer e viajar pela sua obra, através de uma visão que funciona em retrospectiva.
A exposição, agora patente em Serralves, inclui obras chave de todos os aspectos do trabalho de Juan Muñoz, incluindo as bem conhecidas esculturas e instalações, mas também som e os esboços dos desenhos Raincoat, entre outras séries. Inovadora e abrangente, esta mostra cria, através do encontro com as suas conversation pieces ou esculturas sonoras, formas inteiramente novas de ver e pensar sobre nós.
Muñoz alcançou a notoriedade em meados da década de 1980, altura em que protagonizava o movimento vanguardista do regresso à forma humana na arte. As figuras de Muñoz não são, contudo, a matéria tradicional da escultura clássica. “Situadas em ambientes arquitectónicos, podem estar sentadas em bancos ou colocadas a meia altura numa parede. São, com frequência, figuras de um circo, de um teatro ou de um quadro de Velázquez – anões, pontos de teatro, bailarinas – imobilizadas num momento e subentendendo uma história implícita que ao público cabe imaginar.”. Esta não-categorização das figuras, que por isso podem ser categorizadas e rotuladas pelo público, ou não, porque cabe a cada um integrá-las num espaço próprio, distanciado da própria condição de escultura, constitui a principal essência do trabalho de Muñoz, que desta forma criou no seu tempo um movimento de vanguarda, mas que perdura pela sua capacidade de fazer reflectir, sem tempo.
Além disso, e apesar de naturalistas, as figuras que constituem as suas esculturas têm uma estatura inferior à dos humanos, parecendo por isso feitas à escala real quando observadas à distância mas distantes do observador quando vistas de perto, uma ilusão óptica frequentemente utilizada pelo autor. Esta é, sem dúvida, uma exposição a não perder e que ficará aberta ao público, no espaço do Museu de Serralves, durante mais um mês, tendo inaugurado no mês de Outubro. A próxima visita guiada a esta exposição será realizada a 13 de Janeiro, às 18h30, por João Fernandes.
ANA MARIA DUARTE

Artigo publicado no Jornal Semanário (12.12.2008)

Histórias inimagináveis cheias de magia e poesia


O Óscar tem um jardim
Teatro de Marionetas do Porto

O Óscar é um menino e tem um jardim. À passagem das quatro estações do ano, este menino, que adora brincar e que tem como amigos não só os humanos, como o jardineiro Joaquim, mas também os animais e as plantas, vai-nos oferecendo o seu mundo. Neste jardim tudo pode acontecer, depende sempre da imaginação desta criança que partilha as histórias com as outras crianças, mas também com os adultos. “Óscar” é uma peça escrita para marionetas, embora tenha já sido representado em forma de teatro infantil. O texto e a encenação são de João Seara Cardoso e o teatro de Marionetas do Porto apresentou-a, pela primeira vez em 1999, tendo vindo a ser reposta em vários locais. 9 anos depois é apresentada no Centro Cultural de Belém, de 12 a 14 de Dezembro.

“O Óscar tem um jardim, e o jardim era assim (…)”, desta forma começa a história do Óscar e do seu jardim, o seu lugar de brincadeira preferido. Ali constrói mundos imaginários, onde se relaciona com animais e plantas, além do seu fiel amigo, o jardineiro Joaquim, que teima em enganar, escondendo-se atrás das árvores.
Eles são apenas três, os manipuladores das marionetas, essas que são senhoras e tomam conta do palco – Edgar Fernandes, Sérgio Rolo e Sara Henriques, mas contam uma história repleta de personagens aliciantes. Para ajudar existe um cenário de onde surge poesia que passa para o espaço. Uma espécie de “mesa-telhado-inclinado” por cujos postigos surgem e desaparecem as histórias. Além de toda a poesia envolvente, desenham-se linhas no texto de uma destreza que permite o desenvolvimento contínuo desta fábula.
Neste jardim é possível ver o Ouriço Ribeiro que anda a colher maçãs para a sua fábrica de compota de maçã, o porco Cambalhota que tanto “cambalhotou” que um dia foi parar à lua, de onde pede ajuda ao Óscar para voltar ao jadim. Além disso ainda há uma vaca radical que bebe as poças do jardim todas até ficar cheia de vontade de ir à casa de banho. Nesta altura já passámos pelas estações todas, porque a última é o inverno e a vaca já anda a beber a água da chuva, mas no entretanto tomamos contacto com uma laranjeira que só dá laranjas amanhã, um capitão Iglo que encalhou numa poça de água do jardim (Porquê? Porque a vaca bebeu as poças todas), as flores que andam sempre a mudar de lugar e a baralhar o pobre Joaquim, o Gigante que tem um outro mundo imaginário onde há um carrossel e tudo gira dentro da sua cabeça. O gigante come o Óscar dentro de uma baguete gigante, prometendo uma viagem que só poderia ser aliciante para uma criança, já que não faltarão doces e outras coisas mais. Mas ele volta ao palco. Há ainda a galinha Chocapic que choca um ovo que não é novo e vai-se a ver e é a bola de futebol do Óscar, e ainda por cima a galinha está a chocar o ovo mesmo em frente à porta de casa da lagarta, que está sempre a perguntar: “Já nasceu?”.
No mínimo este espectáculo tem um texto cheio de coisas engraçadas de tão inacreditáveis, mas que são mágicas por isso mesmo. “E agora já nasceu?”. O espectáculo vai-se desenrolando com estas histórias dentro da história, estruturado pela passagem das quatro estações, possibilitando também a aprendizagem, já que o jardim se vai vestindo de diversas roupagens. As histórias, a música, as cores, as palavras e os cheiros vão tomando a forma das sensações que caracterizam o jardim durante as diferentes fases do ano.
Mas mais do que um espectáculo didático, esta é uma peça que explora sensações e que possibilita uma viagem extraordinária. Esta é uma viagem ao interior de um rapaz porque nos deixa entrar nas suas aventuras, que são criadas a partir de elementos da sua imaginação. Divertimento puro. A mesma laranjeira de que falávamos há pouco anda a pentear uma laranja. Existem mesmo coisas inacreditáveis: verbos novos como lagartar ou cambalhotar, ideias sem nexo, mas que afinal fazem sentido e rimas sem fartar.
No fim chega o inverno. O Óscar já não pode brincar no jardim, mas continua a interagir com os seus elementos, a partir da janela da sua casa. Quando pára de chover, lá vai ele chapinhar nas poças de água. O inverno chega ao fim… e depois? Especialmente concebido para crianças a partir dos três anos de idade, “Óscar” é uma obra capaz de sensibilizar os adultos que acreditam que a vida também passa pela fantasia.
Quem dera às crianças de Lisboa e outras tantas poder brincar como antes, nas poças da chuva e nos jardins, criar estes mundos imaginários com os amigos de fantasia que agora vemos cada vez mais apagados. Quem dera a elas e quem dera a nós. A cidade era tão mais bonita quando as crianças corriam pelo bairro da Graça.

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado no Jornal Semanário (05.12.2008)

Improvisação e experimentação | Carlos Zíngaro e Pascal Contet

No âmbito do ciclo “Isto é Jazz?”, terá lugar, esta noite, pelas 21h30, no Pequeno Auditório da Culturgest, o concerto de Carlos Zíngaro. Ele é simplesmente um dos mais respeitados em termos de música jazz de imporvisação, em Portugal. É também o mais internacional, sendo amplamente reconhecido pela crítica. Tem mais de 50 discos editados e já foi distinguido pelo seu trabalho e percurso. Acho que são elogios suficientes e motivos também. Mas há mais um: ao seu lado está um dos “must” na improvisação – o acordeonista Pascal Contet.

O percurso de Carlos Zíngaro começou na década de 1970, neste universo, ao lado de músicos como Anthony Braxton, Richard Teitelbaum, Fred Frith, Derek Bailey, Joëlle Léandre, Otomo Yoshihide, George Lewis e Daunik Lazro. Estudou musicologia, música electro-acústica e música contemporânea (teatro-música), designadamente na Universidade Técnica de Wroclaw (Polónia) e na Creative Music Foundation (New York) onde contactou com Anthony Braxton e Richard Teitelbaum.
A carreira como violinista de orquestra deixou de lhe interessar face à curiosidade pelas músicas que a Portugal iam chegando na década de 60 apesar do isolacionismo promovido pela ditadura. Ele foi experimentando e incorporando coisas na sua linguagem. Fê-lo como um pioneiro absoluto entre nós dessas práticas musicais e no processo muito depressa se destacou a nível internacional, apesar de continuar a ser um pouco ostracizado ou pelo menos ter poucos olhares atentos sobre ele. O normal. Mas por acaso, agora que comemora os seus 60 anos, este concerto parece culminar um período de excepção: este é o seu quarto concerto português em espaços nobres. Depois do ZFP Quartet no Jazz ao Centro, do Spectrum String Trio nos Dias da Música em Belém (CCB) e do trio com John Butcher e Gunter Muller no Música Portuguesa Hoje (CCB), o dueto com Pascal Contet demonstra uma vez mais que não é possível confinar este enorme músico num âmbito bem definido e arrumado. “Isto é Jazz?” - pergunta-se. Zíngaro responde: «Continuo a não me considerar um “músico de jazz”, apesar de todo o fascínio que essa música sempre despertou em mim. Não tive nem tenho a vivência e o percurso técnico ou prático do jazz. O free jazz de finais de 1960 e inícios de 1970 era para mim quase mais um acto político, a revolta de quem fora “condenado” por um regime ditatorial a cerca de três anos e meio de serviço militar obrigatório, mais de dois dos quais em África, na guerra colonial. O direito a contradizer o que era “normal” na altura – o clássico bem-pensante, a pop melodiosa, o (muito pouco) jazz de hotel... Tais situações empurraram-me para radicalismos de que ainda hoje sofro as consequências, por parte de pessoas que me condenaram na altura a atitude revolucionária, mas depois da revolução passaram a considerar-se elas mesmas “revolucionárias”. No fundo, muito pouco mudou, pois agora algumas dessas pessoas esqueceram as suas “derivações revolucionárias” e são detentoras do poder. Não se contentando em determinar o que é ou não “jazz”, têm a capacidade fantástica de determinar o que é ou não é música! E como tal, apenas se não puderem boicotarão qualquer presença “perturbadora” do seu “status”...».
Ele foi pioneiro em Portugal na utilização das novas tecnologias na composição e interacção em tempo real e toca nos mais importantes festivais e concertos de “improvisação” e “nova música” na Europa, América e Ásia, a solo ou em grupos com os compositores/músicos internacionalmente mais significativos nestas áreas musicais.
Paralelamente colaborou com diversos coreógrafos, encenadores e realizadores como Olga Roriz, Vera Mantero, Giorgio Barberio Corsetti, Ricardo Pais, Ludger Lamers e Francis Plisson.
Contet, por sua vez, estudou na Alemanha (Musikhochschule de Hanover) e na Dinamarca (Conservatório Real de Copenhaga). Ao seu repertório habitual de concerto a solo (com obras de grandes nomes da música erudita, contamporânea ou barroca, como Gubaidulina, Kagel, Donatoni, Bartok, Couperin, Scarlatti, Monteverdi), juntou, depois de 1992, as criações de Ballif, Berio, Bedrossian, Cavanna, Drouet, Fedele, Fénelon, Françaix, Globokar, Jodlowsky, Moultaka, Monnet, Naon, Rebotier e Torres-Maldonado. Tal como Zíngaro, o seu percurso musical é marcado pelas constantes cumplicidades com outras formas artísticas como a dança contemporânea, o teatro, as artes visuais e pela persistente pesquisa de novos sons e novas fronteiras.

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado no Jornal Semanário (05.12.2008)

sábado, 29 de novembro de 2008

That Night Follows Day | Uma voz colectiva, um olhar adulto sobre as crianças


Já estreou a peça “That Night Follows Day (Que depois do dia vem a noite)” um espectáculo de Tim Etchells e Victoria. Esta é a segunda produção com crianças (embora para o público adulto) do Victoria, depois de “ÜBUNG”, de Josse Pauw, de 2001, que passou pela Culturgest em 2004. A peça poderá ser vista até sábado (sempre às 21h30) no Grande Auditório da Culturgest, em Lisboa. Explorando a forma como o mundo das cri

anças é determinado pelos indivíduos em idade adulta, Tim Etchells consegue falar sobre paternidade, educação, disciplina, cuidados e bem-estar. Este é provavelmente o melhor

espectáculo de teatro para ver até ao final do ano na capital.

Esta peça cataloga as várias maneiras segundo as quais o mundo das crianças é determinado pelos adultos. De forma clara e com bastante humor, são investigadas as temáticas relativas aos sistemas de paternidade, educação, disciplina, cuidados e bem-estar que definem os mundos das crianças e dos adolescentes. Com actores jovens, belgas, em palco, o encenador consegue pôr os próprios jovens e a

dolescentes focados no texto a falar sobre si mesmos, ou sobre a forma como os adultos implicam nas suas formas de estar e de ser. Com um atitude lúdica, mas provocante, Tim Etchells põe os “pais” a ver e ouvir as crianças e adolescentes falar sobre a maneira como os adultos projectam neles o seu mundo.

Considerado pela crítica internacional uma representação “avassaladora: convincente, apaixonada, vulnerável, bela e verdadeira”, este espectáculo já amplamente reconhecido de qualidade faz-nos reflectir sobre o que é ser pai e o que é ser criança.

Tudo começou com Victoria a pedir a Tim Etchells, escritor e director artístico da famosa companhia britânica Forced Entertainment, para fazer um espectáculo com crianças. Tim Etchells acedeu a este pedido e criou “That Night Follows Day”, uma peça com dezasseis crianças com idades entre os 8 e os 14 anos, sendo a primeira vez que o director trabalha com um elenco deste tipo. O espectáculo baseia-se num texto escrito pelo próprio Etchells. O texto é um catálogo, um discurso anti-narrativo por excelência, dito muitas vezes em coro para que entre bem na cabeça daqueles que estão na plateia. Como é frequente no seu trabalho, Tim Etchells procura voltar o holofote para a situação em si, as expectativas e os problemas da própria apresentação do espectáculo. O resultado destas escolhas cénicas e dramaturgicas é uma visão do mundo muito exaustiva, comovente e implacável.

Pela presença das crianças/adolescentes em palco, já que os intérpretes têm entre 8 e 15 anos, este espectáculo relaciona-se necessariamente com os PANOS, o projecto da Culturgest de nova dramaturgia para o teatro escolar/juvenil inspirado no “Connections” do National Theatre de Londres; se bem que no PANOS as peças têm sido maioritariamente baseadas numa narrativa e na construção de personagens. Em “That Night Follows Day” há mais uma voz colectiva do que personagens, há mais um discurso que uma narrativa.

Em Abril do próximo ano, será apresentado um espectáculo que ecoa um pouco este “That Night Follows Day”. Chama-se “Once and for all we’re gonna tell you who we are so shut up and listen” e é da companhia Ontroerend Goed. Foi produzido na mesma cidade de Gent. O primeiro é feito com crianças, com um texto quase constante e com um discurso colectivo. O segundo apresentará um palco de adolescentes, onde não há quase espaço para a palavra e a dramaturgia é mais próxima da música. A mesma cena é repetida com variações e há uma inteligência formal que enforma a energia aparentemente incontrolável daqueles corpos (chocantes) em palco .

“Vocês alimentam-nos. Dão-nos banho. Vestem-nos. Cantam para nós. Observam-nos quando estamos a dormir. Fazem-nos promessas de que acham que não nos vamos lembrar. Contam-nos histórias com final feliz e histórias sem final feliz e histórias com um final que nem sequer chega a ser um final. Explica-nos o que é o amor. Explicam-nos as diferentes causas da doença e as diferentes causas da guerra. Sussurram quando acham que não devemos ouvir. Vocês explicam-nos que depois do dia vem a noite”. Um espectáculo perdível só com razões muito fortes ou impossibilidades comprovadas.

ANA MARIA DUARTE

Artigo publicado no Jornal Semanário (28.11.2008)

Veneno, duração e desinibição


Três coreografias num espectáculo - Dança no Teatro Camões

Integrado no ciclo de dança com 6 Companhias Portuguesas convidadas pela Companhia Nacional de Bailado, será apresentado “Veneno/ Eurídice e o Instante/ Finale” no Teatro Camões, pela Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo, nos dias 5 e 6 de Dezembro.

“Veneno” tem coreografia de Rui Lopes Graça e é uma peça no limite. Segundo Rui Lopes Graça: “É a ideia que criamos acerca de nós próprios e dos outros. Como um vírus, que nos contamina sonhos e convicções; Separa-nos e isola. Torna-nos ilhas de coração pobre e vacilante. No espelho da vida criam-se as proporções exactas do antídoto.”. O veneno da Tarântula, “cuja picadela torna os homens muito sonolentos, frequentemente podendo também por vezes ser fatal. A Tarântula é assim chamada a partir do nome da cidade de Taranto, onde podem ser encontradas em grande número. Muitas pessoas acreditam que o veneno da Tarântula varia em característica de dia para dia ou de hora a hora, pois induz grande diversidade de paixões naqueles que são picados; alguns cantam, outros riem outros choram, outros choram incessantemente; alguns dormem enquanto que outros são incapazes de dormir; alguns vomitam ou suam ou tremem; outros caem em terrores contínuos ou em frenesins, raivas e fúrias. Este veneno provoca paixões por diferentes cores de tal forma que alguns têm prazer com o vermelho, outros com o verde e outros com o amarelo.”, pode ler-se no dicionário universal de 1690, por Antoine Furretière. Dizia-se que em alguns casos a doença poderia durar até 50 anos e que a música podia curar o seu veneno. Este espectáculo mostra-nos então essas situações de limite, de tensão, em que se vivem experiências contraditórias. Sete figuras dançam em cena e evoluem ao ritmo da música. Esta é uma dança envenenada pela própria tarântula, porque estão lá a alucinação, a aproximação da morte, a dor, o humor e o amor. Rui Lopes Graça consegue pegar no conceito de veneno, especificamente o da tarântula, e explorar as sensações da vida a partir da aproximação ou semelhança de estados humanos a estados de intoxicação com o  veneno da tarântula. A exploração deste universo leva-nos a imagens de permanente tensão e de limite, tal como alguém que foi picado por uma tarântula ou alguém que vive no limite do seu ser individual.

“Eurícide e o instante” tem coreografia de Vasco Wellenkamp e música de Philip Glass. Nesta peça Vasco Wellenkamp trabalha sobre o próprio conceito de duração. Sobre o tempo e o seu fluir, a partir da linha desenhada pela música de Glass, que repete motivos e ritmos, onde Vasco Wellecamp procura uma segunda linha. Entre o desvio e a entrega, o movimento do homem e da mulher percorre a música como um lugar. O lugar-comum entre o público e o palco parece ser a música que acaba por ser a base dos movimentos. A cadência e o ritmo são eles que levam a esta movimentação em palco, de duas pessoas que se entregam e se afastam tendo em conta a corda musical onde caminham.

Em “Finale” temos a coreografia de Henri Oguike e música de René Aubry. A partir das cadências latinas do compositor francês René Aubry, “Finale” é um bailado divertido e de rápido andamento que fecha o programa apresentando toda a companhia. Este espectáculo transborda vitalidade, divertimento, prazer, alegria. Um conjunto de bailarinos desinibidos e que espalham ideias frescas pelo palco. Uma forma de terminar leve, mas sensorial e que sopra energia.

Três olhares sobre a dança, três temáticas diferentes, em que se apresenta na totalidade a Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo.

O espectáculo, a ser apresentado no próximo fim de semana, terá início às 21h30, sendo composto por três espectáculos diferentes, com a duração de 1h30 no total. Os bilhetes custam entre 5 e 15 euros.

ANA MARIA DUARTE

Artigo publicado no Jornal Semanário (28.11.2008)

Dorfmeister no Casino Estoril


Richard Dorfmeister, nasceu em Viena e é oriundo de uma família com tradições na formação clássica dos filhos, tendo chegado a estudar flauta antes de, já adulto, ter feito uma parceria com Peter Kruder, sendo ambos reconhecidos como expoentes do downbeat. É este estilo que promete invadir o Salão Preto & Prata do Casino Estoril, já no próximo dia 29. O espaço converter-se-á numa vasta pista de dança, a partir das 00h30, com a actuação do famoso DJ Richard Dorfmeister, o qual se apresentará rodeado de performers e de bailarinos.

A participação na festa é aberta ao público em geral que, mediante o pagamento de 5 euros (com direito a duas bebidas) terá acesso a uma pulseira de ingresso no evento. Adicionalmente, quem adquirir a pulseira antes de 26 terá direito a um bilhete para assistir ao espectáculo “Visions – Espírito dos Sonhos”, ao domingo, no Salão Preto & Prata. Dorfmeister já trabalhou com Kruder, com quem já editou álbuns de sucesso, e também se envolveu com Rupert Huber na Tosca, um projecto que reforçou a sua notoriedade. Nesta vinda ao Estoril, Dorfmeister actuará a solo no Salão Preto & Prata, beneficiando dos recursos tecnológicos de primeira linha deste espaço prestigiado do Casino Estoril que volta, assim, a abrir as suas portas a um público predominantemente jovem.

ANA MARIA DUARTE

Artigo publicado no Jornal Semanário (28.11.2008)

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Pessoa de saltos altos



Feminine, de Paulo Ribeiro

Este fim-de-semana, o coreógrafo Paulo Ribeiro apresenta o espectáculo “Feminine”no Grande Auditório da Culturgest. Depois de “Masculine”, apresentado no Teatro Maria Matos (2007) o coreógrafo mostra-nos a sua visão do universo de Pessoa de saltos altos. Através de um quinteto de cinco mulheres (quatro bailarinas e uma actriz) viaja sobre as preocupações mais superficiais do sexo feminino: o cabelo, os saltos altos, os homens. Elas dançam com os corpos que transpiram sensualidade, em movimentos contidos que desaguam num prazer prolongado.

Paulo Ribeiro aproximou a dança de Pessoa, em 2007, ao criar “Masculine”, onde abordava o universo, de forma a mostrar as idiossincrasias de um homem: coisas quotidianas, mas não só. Uma bola de futebol e energia masculina estavam presentes a partir das vozes e corpos de quatro bailarinos. A pesquisa desenvolvida sobre a obra de Fernando Pessoa acabou por revelar a vontade de abordar a sua relação com as mulheres. Assim nasceu “Feminine”. Paulo Ribeiro substituiu a bola pelos saltos altos e mergulhou na beleza estética, na emocionalidade. Antes da estreia deste espectáculo no Teatro Nacional São João, o coreógrafo disse em entrevista: “A ideia de trabalhar Fernando Pessoa já me persegue há muito tempo. Mas pensei sempre em trabalhar não em torno da obra, mas do homem: aquele homem em particular, com os seus defeitos. Uma pessoa, não apenas um génio escritor. As pessoas são essencialmente humanas: à volta daqueles momentos geniais há muitos outros momentos, normalíssimos, banais.” Este quotidiano já era experienciado em “Masculine”, mas agora é muito mais claro, revelando o poeta das horas banais.
Pessoa é coreográfico no sentido em que vai escrevendo em sequência, existe uma evolução nos seus textos e Paulo Ribeiro explora muito bem essa visão. Em “Feminine” ele vai mais longe e o que acaba por surgir é o olhar de Pessoa sobre a mulher. A peça tem, tal como “Masculine”, uma componente muito humorística, e um lado muito sexual, explorado na fisicalidade: Ser o meu corpo passivo a mulher – todas – as mulheres; Que foram violadas, mortas, feridas, rasgadas pelos piratas; Ser no meu ser subjugado a fêmea que tem de ser deles; E sentir tudo isso – todas estas coisas duma só vez pela espinha!
As palavras do poeta desafiam as das mulheres em palco, que se deixam perder pelas suas próprias narrativas. A poética do movimento feminino percorre a peça, misturada com o ardor colocado em cada gesto. O espaço de sensações é apenas interrompido pela força maior do coreógrafo, de brincar com as suas criações, de as colocar a rir de si próprias.

No processo de trabalho de construção desta peça, a diferença entre homens e mulheres acentuou-se. Paulo Ribeiro afirma que “(…) com os homens havia uma grande margem de interpretação, apesar de os parâmetros estarem definidos, tanto que foi necessário refreá-la, travá-la. Em “Feminine”, pelo contrário, a peça está coreografada ao milímetro. As estruturas iniciais são mais sólidas e mais severas.” Neste espectáculo há um trabalho muito pop, no cenário, nos figurinos sentem-se os anos 70. Há uma certa nostalgia que passa não só pelo facto de Pessoa ser um escritor dessa época, mas também por Paulo Ribeiro se inspirar na respiração da esperança existente nessa altura.
O coreógrafo entrega tudo nas suas criações e isso transpira para quem o recebe com abertura. “Tenho a impressão de não viver se não morrer para voltar a viver”, diz Paulo Ribeiro. “É um combate permanente de que preciso. E salpico isso para os meus intérpretes.” Tanto em “Feminine” como em “Masculine” sente-se um esgotamento por parte dos intérpretes, que depois nos possibilita ver a sua verdade, mostrando sempre actividade. A sua natureza é essa, a de mexer com as pessoas através de abanões efervescentes.


Há questões que nos acompanham sempre, há pessoas que estão sempre presentes, há dúvidas que não devem ser esclarecidas, elas são a razão para se estar atento. Não são precisas respostas. Precisamos sim de encantamento, precisamos de praticar a simplicidade para atingir o fascínio da multiplicidade.

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado no Jornal Semanário (ed. 21.11.2008)
Fotografias de José Alfredo

Espaço para o espectador activo


Entrevista Damião Porto

O Espaço Cultural Serv'artes, Habiserve Arte e Design tem estado a expor exposições individuais de pintura. Debruçamo-nos sobre a mostra de Damião Porto, denominada “Obra Aberta”, que estará patente até ao final do mês de Novembro. O conjunto de obras que apresenta parte do processamento de discutir acerca da abertura e proximidade das obras. O Semanário explorou este conceito.

Ana Maria Duarte: Em que momento se enquadra esta exposição. Defina-me um pouco o seu processo e o porquê de expor estas obras especificamente.
Damião Porto: Começo por dizer que que tal exposição, a convite do espaço Servartes, me fez recuar no tempo, por colocar discursos diferentes para públicos diferentes. Ou seja, interessava-me uma exposição (desenho e pintura) que mostrasse a obra actual, “aberta” a conceitos, e mostrar toda esta liberdade criativa, a diversidade de processos utilizados e de classificação de diferentes obras perante o público.
Poderiam ser outras obras, do mesmo período, no sentido de estabelecer esse ciclo itinerário que se prolonga nas telas mais recentes, como referências literárias e musicais onde se transformam pela liberdade da pintura. Todo o meu processo passa pela incerteza, indeterminação, pela existência como inventor de ideias, de ideias plásticas, de formas. Até quando? Até aos 99 anos de idade, se me deixarem. (risos)

AMD: A sua exposição "Obra aberta" revela uma certa vontade de abertura, de mostrar, de criar proximidades. Esta proximidade deve ser encarada de uma forma mais ligada ao conceito da obra ou do artista ao público?
Damião Porto: Bom, diria que esta proximidade das minhas obras se “arrasta” como fio condutor para o próximo. Esta proximidade, no fundo, de estudos e experiências já narradas por outros pintores, aparece num momento crucial da minha obra. Em ultrapassar certos limites, na liberdade de momentos episódicos e vibrantes e de capítulos temáticos a desenvolver. Estou a pensar, por exemplo, nos “cavalos” em confronto com Dom Quixote, na possibilidade de manifestar a identidade com a figura, sem qualquer comparação pictórica. Ou então, o ruído da “Prova de velocidade” com a música de Jazz. Estas mudanças temáticas, ou o aparecimento de um interesse por este ou aquele “assunto” não são diferentes das outras mudanças. Estas sensações que aparecem, sinto-as e estou consciente do que me acontece, tudo sucede naturalmente. Daí dizer sempre que a minha obra só fica completa quando encontrar o diálogo com o seu público. O espectador tornar-se activo, a inventar os seus próprios discursos e histórias pela pintura feita. É talvez este o convite mais importante que esta obra vos pode trazer.


AMD: O seu texto sobre a exposição fala-nos de opostos e de novidades, de recomeços. O que procura na sua pintura acima de tudo? É essa oposição constante de conceitos?
Damião Porto: Arrisco em dizer que a pintura hoje nos fala da “mudança constante”, ou seja, hoje, o importante para o artista plástico, é que se trate de mudanças que nascem de necessidades profundas. Acima de tudo é isso que se passa na minha obra. Um processo indefinido de questões que permanecem ao longo de todo o meu percurso, tais como a definição da composição do quadro enquanto resultado de diferentes tensões e estrutura do mesmo num pormenor ou num detalhe. Esta exposição poderá originar novas leituras e interpretações para um trabalho que se exerce como uma arte combinatória de possibilidades sempre em aberto.

AMD: Como se enquadra a sua obra neste espaço?
Damião Porto: Vejo-a como uma pequena fatia do meu percurso. A minha actividade como pintor, um ciclo, um registo, um reviver de leituras. Lamento não ser um número maior de obras. Porque todas as dúvidas e questões seriam mais preciosas.

AMD: Onde gostaria de expor no futuro?
Damião Porto: Queria dizer que, por estranho que pareça, o que me faz pintar ou ter vontade de desenhar não é pelo facto de querer expor aqui ou ali. Faço-o da mesma forma que escrevo. A pintura é uma viagem sem fronteiras, onde tiver que parar para ser vista e dialogada, ela fá-lo por si. O interesse em expor nas grandes galerias ou museus está em que aquilo que nós chamamos “carreira”. Estou mergulhado nela, resta-me esperar que a minha obra seja um motor que faça andar o público atrás dela, independentemente do espaço.

ANA MARIA DUARTE

Artigo publicado no Jornal Semanário (ed. 21.11.2008)

Extensão do DocLisboa no Porto


Depois do sucesso do ciclo dedicado à obra de Manoel de Oliveira, que trouxe a Serralves cerca de 4 mil espectadores em quase 60 sessões, o cinema volta a marcar presença no Auditório de Serralves. Trata-se de uma extensão do festival DocLisboa em Serralves, que durará 4 dias e que surge como uma oportunidade dos públicos do Porto verem algum do melhor cinema documental que se faz pelo mundo. A mostra tem início hoje, quinta-feira, com a projecção do filme “High School” de Frederick Wiseman, um retrato do sistema escolar norte-americano.
Amanhã, às 21h30, o público terá a oportunidade de ver “End of the Rainbow” de Robert Nugent. O filme francês venceu o Grande Prémio Cidade de Lisboa para a melhor longa metragem. “End of the Rainbow” é um retrato sobre as mudanças trazidas pela mina e o universal desejo humano por uma vida melhor. Revela um mundo em constante mudança e descreve a intimidade de um povo que luta em resposta a essas mudanças, tratando o conceito de conflito.
Sábado serão projectados 4 filmes. Às 15h30, “The Women of Bruckman”, de Isaac Isitan, que venceu dois prémios: o prémio RTP 2 para melhor documentário de Investigação e o prémio Doclisboa/IPJ para melhor filme da Competição Investigações. “The Women of Brukman” conta o caso único de uma cooperativa formada durante o caos económico argentino, com o objectivo de devolver às operárias o seu emprego.
Às 18h, “Queria ser”, de Sílvia Firmino, que foi galardoado com o prémio Sony para melhor primeira obra portuguesa. Conta-nos a história de uma escola primária em risco de fechar no interior de Portugal. Dez alunos, do primeiro ao quarto ano lectivo, numa mesma sala. Um filme que vai à procura de um programa de reforço à leitura e encontra a força, as ambições e os medos destas crianças.
Às 21h30 “Must Read After My Death”, de Morgan Dews - prémio Odisseia para melhor primeira obra e “The Rest of a story” de António Prata, que venceu o Prémio Johnnie Walker para a melhor curta-metragem documental.
No domingo, será projectado Bab Sebta, de Pedro Pinho e Frederico Lobo. Bab Sebta significa em árabe “a porta de Ceuta”, e é o nome da passagem na fronteira entre Marrocos e Ceuta. É o local para onde convergem aqueles que, vindos de várias partes de Africa, procuram chegar à Europa. O filme “Bab Sebta” percorre quatro cidades ao encontro dos tempos da espera e das vozes desses viajantes. Este último venceu o grande prémio Tobis para o melhor documentário português de longa-metragem. Estes dias são uma oportunidade para quem não viu estes filmes. Ainda vão a tempo.

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado no Jornal Semanário (ed. 21.11.2008)

O regresso do carisma


Uma boa notícia chegou esta semana. Os Tindersticks voltarão a Lisboa. A cidade ansiava pelo regresso e agora sabe-se que a banda, liderada pela voz inconfundível do carismático Stuart A. Staples, apresentará o novo álbum “The Hungry Saw” no Coliseu de Lisboa, num concerto agendado para dia 13 de Fevereiro de 2009.
Os britânicos Tindersticks são um daqueles casos raros de amor que o público português devota a uma banda. Desde que editaram os dois primeiros álbuns, ambos homónimos, que os Tindersticks têm vindo a ser alvo de um culto crescente em Portugal. O sucesso mais alargado surgiu com o quarto álbum, “Simple Pleasures” (1999), onde os Tindersticks acrescentaram alguns elementos soul à sua música, como o uso de coros femininos.
Em 2005, Stuart A. Staples decidiu fazer música por conta própria e editar dois álbuns de originais: “Lucky Dog Recordings 03-04” e “Leaving Songs”. Nessa altura veio a Lisboa, para um concerto a solo na Aula Magna. O homem tem mesmo Groove no corpo. Apesar de muito se ter especulado sobre o final dos Tindersticks, a banda regressou aos concertos em 2006.
Com a formação reduzida a três elementos, editaram em Abril deste ano o sétimo álbum de originais, “The Hungry Saw”, que vêm apresentar a Portugal, dia 13 de Fevereiro no Coliseu de Lisboa. Bilhetes entre os 22 e os 40 euros. Imperdível, imperdoável ausência.

ANA MARIA DUARTE

Artigo publicado no Jornal Semanário (ed. 21.11.2008)

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Uma semana de antestreias e revisões cinematográficas




Estoril Film Festival ‘08
Destaque para o cinema de Bertolucci

O Estoril Film Festival está de volta. 2008 é o ano da segunda edição, que começa hoje, com uma gala em que o foco estará no realizador italiano Bernardo Bertolucci. Com direcção de Paulo Branco, este festival divulga cinema de origem europeia e americana e conta com secções de competição e de homenagem. Haja sempre espaço para o cinema. Cada vez mais.

A gala de abertura acontecerá no Casino Estoril, pelas 22 horas. O realizador Bernardo Bertolucci será homenageado com um prémio que o distingue como autor incontornável no panorama do cinema contemporâneo. Aguardado com expectativa, o evento reserva, ainda, para os convidados, um concerto de Rita Redshoes, reconhecida já como um dos novos talentos da música nacional.
Até 22 de Novembro, serão exibidos os 14 filmes europeus em competição, entre os quais o único português, "4 Copas", de Manuel Mozos, que serão avaliados por um júri composto pelo escritor sul-africano J.M. Coetzee (Nobel da Literatura 2003), a actriz francesa Catherine Deneuve, o escritor norte-americano Paul Auster, a escultora espanhola Cristina Iglesias e o artista plástico português Julião Sarmento, a quem caberá atribuir o prémio de Melhor Filme, no valor de 20 mil euros. O Auditório do Casino Estoril projecta a maioria dos 14 filmes em competição. O filme de abertura será "Mesrine", de Jean-François Richet, numa sessão que contará com a presença do cineasta francês e do actor principal, Vincent Cassel.
Fora de competição serão exibidos em antestreia nacional 15 filmes, entre os quais as mais recentes obras dos norte-americanos Woody Allen, "Vicky Cristina Barcelona", e David Mamet, "Redbelt", do alemão Werner Schroeter, "Nuit de Chien", e dos franceses Agnès Varda, "Les Plages d'Agnès", e Philippe Garrel, "La Frontière de l'Aube".

No âmbito da homenagem a Bernardo Bertolucci, o Estoril Film Festival propõe uma retrospectiva da obra do cineasta italiano. O Auditório do Casino Estoril exibe, logo no dia 14, as películas “Partner”, “La Strategia del Ragno” e “Último Tango em Paris”, para o dia seguinte está agendado o filme “Novecento”, a 16, será projectado “O Último Imperador” e, a 17, “La Luna”.
Além da homenagem a Bertolucci, com a projecção dos seus principais filmes, destaca-se, do programa do festival, a homenagem a Paul Newman (1925-2008). Falecido recentemente, o famoso actor será lembrado na sua faceta de realizador. É este outro lado do actor, menos conhecido do grande público, que o Estoril Film Festival distingue. O Auditório do Casino Estoril acolhe “Rachel, Rachel”, no dia 19, e “The Effect of Gamma Rays on Man-in-the-Moon Marigolds”, no dia 20.
Luis Buñuel será também homenageado, no 25.º aniversário da sua morte, com a exibição do documentário "El Último Guión - Buñuel en memoria", de Javier Espada e Gaizka Urresti, e ainda haverá uma retrospectiva da obra do realizador norte-americano Tim Burton. O Auditório do Casino Estoril recebe “Beetle Juice”, no dia 18, e “Edward Scissorhands”, a 19. O ciclo prossegue com “Mars Attacks!”, a 20, “Batman”, “Batman Return”, “Big Fish”, “Sleepy Hollow” e “Ed Wood”, a 21, encerrando com “Vincent, Frankenweenie & The Nightmare Before Christmas” e “Planet of Apes”, a 22 de Novembro.
Os realizadores Stephen Frears (Reino Unido), Agnès Varda (França) e Jerzy Skolimowski (Polónia) e os escritores Paul Auster e Siri Hustvedt são algumas das personalidades que participarão em encontros com o público e sessões de leitura durante o certame, bem como os actores franceses Vincent Cassel, Louis Garrel e Mathieu Amalric, que farão workshops para actores. O festival incluirá ainda uma secção dedicada às principais escolas de cinema europeias e uma espécie de "Estados Gerais" da crítica cinematográfica, com a vinda de 40 dos mais importantes críticos de cinema do mundo, além do segundo encontro da Europa Distribution, rede criada em 2006 formada por 60 distribuidores independentes de 20 países europeus.
A encerrar este Estoril Film Festival, haverá no dia 21 uma gala no Casino Estoril, em que serão entregues os prémios e que contará com um concerto da banda portuguesa Deolinda, e a 22 será projectada a última longa-metragem do norte-americano Jonathan Demme, "Rachel Getting Married".
Além da sala de cinema do Casino Estoril, remodelada no ano passado para poder projectar os filmes do festival, outros dois espaços acolhem o certame: o Centro de Congressos do Estoril e o Teatro Municipal Mirita Casimiro, em Cascais. Um bilhete para um filme custa três euros e um passe que dá acesso a tudo, 25 euros. Para mais informações consulte http://www.estorilfilmfestival08.com/.

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado no Jornal Semanário (ed. 14.11.2008)

Legendas imagens:
La strategia del ragno, de Bernardo Bertolucci
Rachel Getting Married, de Jonathan Demme

O universo frágil de Lisa Ekdahl


Lisa Ekdahl tem uma fragilidade de menina que deixa a minha sensibilidade vir ao de cima. Sueca, compositora e letrista das suas canções, acaba por se revelar uma mulher sensual e forte que se move à vontade nas áreas do pop e smooth jazz. Ela é um dos maiores nomes da nova geração deste universo hábil. Passará por Lisboa, Porto e Alcobaça, este fim-de-semana.

Tinha apenas 23 anos quando lançou o seu primeiro álbum, de nome “Lisa Ekdahl” (1994) e que a fez chegar ao sucesso, atingindo, na Suécia, a quádrupla platina ao fim de poucos meses. Em 1996 lança “Med kroppen mot jorden” e, em 1997, “Borton Det Bla” pela RCA/ BMG, numa linha de música pop.
No ano seguinte a sua voz passa a ser acompanhada pelo trio de Peter Nordahl, com quem já cantava jazz desde 1990, e grava o disco “Back to Earth” (1998) que veio confirmar o seu lugar no universo musical, tendo-a consagrado como uma das mais fascinantes vozes femininas contemporâneas. Nessa altura gravou principalmente repertório standard norte-americano com o trio no disco “When Did You Leave Heaven” e conquistou a Europa. Foram muitos aqueles que se renderam à doçura do seu dom vocal, nomeadamente a coreógrafa alemã Pina Bausch, que escolheu algumas das suas canções, para partilhar o “palco” ao lado de Nina Simone, Caetano Veloso ou Prince, tendo em conta que passou a integrar o alinhamento dos espectáculos da coreógrafa, espectáculos esses que vimos recentemente em Lisboa. Sendo frequentemente comparada a cantoras como Norah Jones, Diana Krall, Stacey Kent ou Jane Monheit, Lisa Ekdahl possui um tom profundamente carregado de emoção e conquistou já por três vezes os prestigiados Grammy Awards. É normal que seja comparada porque é o que acontece muitas vezes a estes meninas-mulheres que se aventuram pelo mundo da música, procuram-se semelhanças ou simplesmente pontos comuns nas sonoridades. As comparações entre Lisa Ekdahl e outras mulheres do panorama do jazz mais soft, como Diana Krall ou Norah Jones pode vir da suavidade da sua voz, mas provavelmente a essência da proximidade estará na fusão sonora entre as áreas da pop e do jazz que a sua música apresenta.
Assinou pela EMI, mas já lançou discos mais pop por outra editora. Mais recentemente regressa às criações originais, destacando-se o trabalho com o songwriter e guitarrista Salavadore Poe, que a relançou em 2000, quando lançou o disco “Sings Salvadore Poe”. As sonoridades pop com influência da bossa nova não lhe trouxeram senão mais sucesso e qualidade. De facto, a música “Daybreak” é brilhante e, provavelmente, continua a ser uma das melhores no seu repertório.
Até agora lançou um total de oito álbuns, seis cantados em sueco e dois cantados em inglês, para além de ter tido algumas participações em álbuns de outros artistas. O seu último disco de originais data de 2006, de nome “Pärlor av glas”. Carregada de emoção, a sua voz de menina consegue ultrapassar a indiferença de um disco que toca numa sala como música ambiente e leva-nos a viagens diferentes pelo facto de ela própria ter vários registos.
Lisa Ekdahl estará em Portugal para três concertos: 14 de Novembro, no CCB em Lisboa, 15 de Novembro, na Casa da Música no Porto e 16 de Novembro no Cine Teatro de Alcobaça. O concerto em Lisboa será no Grande Auditório do CCB, às 21h, numa co-produção com o Lado B. Os bilhetes custam entre 10 e 30 euros.

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado no Jornal Semanário (ed. 14.11.2008)

Concerto de Nina Nastasia em Famalicão


Nina Nastasia, singer-songwriter Nova Iorquina, começou a sua carreira musical no início da década de 90, mas o seu primeiro registo discográfico, que documenta aquilo que já era uma sólida e coerente carreira, surge apenas em 1999. Em finais de 2000 surge “Dogs”, pela editora Socialist Records, provavelmente o álbum mais marcante na carreira da artista. Esgotado num instante, também pela reduzida capacidade da editora, começou a ser ainda mais desejado pelos fãs, tendo sido reeditado em 2005 pela Touch & Go Records, também responsável pela edição do álbum “Run to Ruin”. O seu percurso continuou na mesma linha, a de um estilo muito seu, onde se destacam os arranjos de viola delicados e que entram em perfeita harmonia com a simplicidade da sua voz. Ao quarto álbum de originais, lançado pela F-Cat Records, continua nessa tranquilidade e renova a sua emoção, soltando a sua voz. Intimista, arrepiante e sensível é como Nina Nastasia se apresenta. Com apenas uma data marcada para Portugal, na Casa das Artes de Famalicão, esta é uma oportunidade de assistir a um concerto intimista, levando-nos a uma viagem a este seu universo. Ali vai revisitar, a solo, “Run to Ruin” e “On leaving…”. Dia 16 de Novembro, a promessa de uma noite áspera, mas suave.

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado no Jornal Semanário (ed. 14.11.2008)

Dois Tempos


Esta noite e amanhã, o Teatro Camões recebe mais uma companhia convidada. O espectáculo está integrado no ciclo de dança que a Companhia Nacional de Bailado promove até Dezembro, que consiste em receber 6 companhias de dança portuguesas. Desta vez o nome que avança é o Quorum Ballet, com direcção artística de Daniel Cardoso. O espectáculo intitula-se de “Dois Tempos” e terá lugar nestas duas noites de Novembro, às 21h.
“Dois tempos” engloba “The Other Side” e “Relações”. A coreografia de “The Other Side” é assinada por Daniel Cardoso, Jonathan Hollander e Thaddeus Davis, directores artísticos do Quorum Ballet, Battery Dance Company e Wideman/Davis Dance, respectivamente. O principal objectivo deste espectáculo é a fusão da dança e da arte de Nova Iorque e de Lisboa. É explorado o tema da opressão, através da colaboração entre os três coreógrafos que unem os seus discursos, tendo como ponto central a existência da opressão a um nível global. “The Other Side” oferece uma experiência inédita e é uma peça fruto da colaboração dos três coreógrafos que juntam as suas experiências numa trilogia que representa o início de muitas e inovadoras criações artísticas. O programa conta também com a música original do compositor norte-americano Polar Levine.“Relações” apresenta uma coreografia de Daniel Cardoso. Cada bailarino vai construindo um carácter específico, baseando-se nas experiências e vivências do quotidiano e procurando definir uma determinada personalidade. Quando esboçadas essas personalidades criam ligações entre si, através da interacção que se vai desenvolvendo de forma tão espontânea quanto previsível ou incutida, que consequentemente determina outras interacções, como um ciclo. A determinado momento o público dá-se conta de que ele próprio faz parte das relações e se encontra em sintonia com a música e os bailarinos, e o que mais o prenderá, à partida, será essa consciência. “Relações” pretende levar as personalidades numa e a uma viagem coreográfica.
ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado no Jornal Semanário (ed. 14.11.2008)

Jazz na Culturgest


Este sábado, pelas 21h30, no Grande Auditório da Culturgest, terá lugar o concerto de Steve Coleman & Five Elements apresentado em colaboração com o Festival de Jazz de Guimarães. Ele é um dos músicos mais influentes do jazz contemporâneo, tendo uma abordagem muito singular à música, marcada por uma especial concepção metafísica do mundo.
Steve Coleman nasceu em Chicago em 1956 tendo aí feito a sua formação musical. O seu primeiro instrumento foi o violino, que cedo trocou pelo saxofone alto, quando tinha 14 anos de idade. Em Maio de 1978 mudou-se para Nova Iorque. Tocou com as Big Bands de Thad Jones-Mel Lewis, de Sam Rivers, de Cecil Taylor, entre outras, e participou em gravações como sideman com os líderes dessas bandas e outro grandes músicos como David Murray, Doug Hammond, Dave Holland, Mike Brecker e Abbey Lincoln.
Com uma extensa discografia, como líder, produtor ou sideman, uma larga experiência como professor, Steve Coleman é um dos músicos mais importantes no panorama do jazz contemporâneo, o que ainda torna este concerto mais apetecível. O preço dos bilhetes é de 20 Euros; jovens até aos 30 anos pagam 5 Euros.
ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado no Jornal Semanário (ed. 14.11.2008)

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Joan As Police Woman - O vento que atravessa a floresta

American Soul Music por Joan

Ela é americana, sensual e tem uma voz densa. Chama-se Joan Wasser, mas é mais conhecida como Joan As Police Woman, nome retirado de uma série de TV doa anos 70. Tem um percurso profissional que brilha em qualquer crítica: já tocou com Antony Hegarty (Antony and the Johnsons), Rufus Wainwright, Lou Reed, Nick Cave, Laurie Anderson, The Scissor Sisters, entre muitos outros. Outra das etiquetas que lhe colocam é a ter sido namorada de Jeff Buckley, mas isso dá-lhe mística, é a verdade. Depois do disco de estreia “Real Life” (2006), sobe agora aos palcos para apresentar o segundo álbum em nome próprio, “To Survive”, lançado no passado mês de Junho. Este fim-de-semana toca em Guimarães, no sábado, e em Sintra, no dia seguinte.

Compositora, cantora, violinista, pianista e guitarrista, Joan Wasser desafia os limites do rock, jazz, soul, punk e r&b. Dona de uma voz quente, a sua música vai viajando por canções aconchegantes, que fazem parte de um universo soul-indie. Influenciada por Nina Simone, começou a criar música brilhante, que tem recebido aplausos da crítica internacional. Podemos falar de todos os nomes que já a influenciaram e com quem partilha momentos de música de incrível qualidade e vamos fazê-lo. Tocou com Lou Reed no fabuloso «The Raven», foi recrutada por Hal Willner para a banda de suporte da sua homenagem a Leonard Cohen, esteve na formação de Anthony & The Johnsons, faz parte do grupo de Rufus Wainwright e, antes que o fôlego acabe, também tocou com Nick Cave e teve bandas como os Dambuilders, Black Beetle ou Those Bastard Souls.
No entanto, diz que “quem a influencia é a vida, e que a sua música soa como o vento que atravessa a floresta.” A sua música transborda histórias e manifesta essa ideia de que a vida influencia a arte, pelo menos quando o artista assim o deseja. A sua música é difícil de categorizar, porque bebe influências no jazz, no soul. Ela própria acaba por o fazer melhor: “Já lhe chamei R&B Punk Rock, mas American Soul Music é melhor. Sinto que a minha música é o resultado da junção dos dois estilos de que mais gosto: Soul, aquele género que engloba desde Al Green a Nina Simone e Isaac Hayes, e depois tudo aquilo que veio do Punk – os Smiths, os Grifters, a Siouxsie Sioux.”. Joan cresceu numa grande proximidade a um clube de punk, o Anthrax, onde viu os Sonic Youth, os Black Flag e os Bad Brains.. Tudo isso deu-lhe vontade de ser ela própria uma participante activa no mundo da música e o seu violino, que começou a aprender desde os seis anos, depressa se juntou às bandas onde participava.

Joan tem também um interesse político muito forte e isso acaba por se respirar no seu trabalho. Ela gosta de vocalizar as opiniões que tem e de marcá-las de alguma forma. Esse interesse na política está manifestado no seu mais recente álbum, «To Survive», escrito depois do falecimento da sua mãe. Talvez por estas perdas na sua vida, muitas vezes as suas composições falam de amor e perda. Mas as suas canções são acima de tudo momentos sonoros em que Joan tenta ultrapassar a raiva que nasceu de sentimentos com os quais não sabia lidar. Ao vivo, a gestão desses sentimentos é o seu cenário. As pessoas sentem-se atingidas, porque ela sopra ventos fortes de sentimentos e sensações que nos atingem. E respira-se a verdade que ela mantém, depois de um percurso longo em que tentou fugir de si mesma. Sublime e sofisticado, profundo, sensorial, bom, é como se espera o concerto. Artistas assim não aparecem todos os dias e, no entanto, ela existe e está cá: Joan As Police Woman. Não é a primeira vez que vem a Portugal, já veio tocar ao Santiago Alquimista e fez a primeira parte de um concerto de Rufus Wainwright. Agora tocará no Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, e no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra. E vale a pena a viagem a qualquer um dos sítios.
Ela é especial, prova-o a canção “Everybody here wants you” que Jeff Buckley lhe escreveu.

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado no Jornal Semanário (ed. 07.11.2008)