quinta-feira, 4 de junho de 2009

Xangai Brasilerança: cantador de autenticidade

Canções da Bahia chegam a Lisboa
“O que eu canto é a presença de minha própria realidade”




Pegará no seu violão e espalhará os ritmos do nordeste brasileiro pelo Grande Auditório da Culturgest. Xangai Brasilerança está em Lisboa, para um concerto, sexta-feira, às 21h30. Acompanhado por Fabrício Rios, Eugénio Avelino possibilitará uma viagem à sua aldeia e aos sons que aí nasceram. Um dos principais cantadores e violeiros do Brasil, com um repertório cheio de canções nordestinas, de raiz popular.

Ele é ainda pouco conhecido em Portugal, mas a admiração que vive no seu país é notável, contando já com uma longa carreira de mais de 35 anos e uma discogragia de aproximadamente 40 álbuns. Os seus ritmos passam pelo forró, rastapé, xote, ligeira, baião, coco, galope, mas também ritmos próprios de canções românticas, onde se sente a força da sua voz.
Eugénio Avelino nasceu no sertão da Bahia, é filho e neto de mestres tocadores de sanfona, o nome popular para o acordeão, mas ele preferiu o violão.
A influência musical familiar é óbvia, mas foi também contagiado pelos cantos dos vaqueiros, os aboios, assim como pela própria imagem e energia dos vaqueiros, tendo sido também um deles. “Eu sou da linha dos pastores, dos cuidadores de rebanhos de cabra, gado, sou vaqueiro também e adestrador de cavalos”. O cantador herdou não só a música, mas também o nome. Tanto o seu avô, como o seu bisavô se chamavam Eugénio Avelino.
Quando tinha 18 anos trabalhou numa sorvetaria chamada Xangai e foi aí que Eugénio Angelino foi buscar o nome que hoje o identifica e que na altura lhe deram. Foi ainda influenciado pelo compositor e cantor Elomar, seu primo, que o albergou durante algum tempo na sua fazenda. Mas o dom já lá estava, independentemente de todas as influências que possa ter sofrido. “Sou de um berço de tocadores de sanfona, mas não foi isso que me fez artista, porque tenho plena consciência de que esse dom já estava comigo; apenas, e cada vez mais, venho buscando apurar, melhorar o meu envolvimento com a música, a poesia” são as palavras de Xangai.
Começou com “Acontecivento”, o seu disco de estreia, lançado em 1976, e depois disso compôs 40 discos a solo, em parceria ou com participações especiais. Aliás, Xangai toca com diversas formações, mas é sozinho que se liberta mais na sua forma única de tocar violão. Nesses concertos canta coisas antigas, novas, consagradas, coisas suas ou de outros, ao sabor do momento, da inspiração presente, já que dá muita importância à ligação com o público. “Preciso estar ligado com quem está me assistindo, sentir o que eles querem ouvir e aí vem a situação”. É esta autenticidade que é esperada de Xangai e que ele próprio assume como característica do seu trabalho. Essa aproximação à realidade que se sente por exemplo nas composições que tratam os elementos relativos ao homem e à natureza, não fosse também ele um homem com uma ligação extrema à natureza.
Xangai é um cantador, que é diferente de cantor, porque o primeiro é o que exprime a sua arte de forma verdadeira, de dentro para fora, sem concessões às tendências do mercado musical e artístico. Essa manutenção da sua essência tem feito a diferença, afirmando a sua substância, conteúdo poético, que lhe permite ficar na memória de quem ouve. “O que eu canto é a presença de minha própria realidade. Eu não me sinto muito confortável em cantar músicas de outros povos longe daqui, principalmente dos países ricos, tão em moda, tão apregoados, cantados e decantados por muitos brasileiros, inclusive. Eu acho muito melhor cantar músicas de Cartola, Dorival Caymmi, Luiz Gonzaga, João do Valle, Jackson do Pandeiro do que dos Estados Unidos ou da Inglaterra. (…). Acho que eles também não ficam cantando Paulinho da Viola”.
Não se rendeu às evidências, mantendo-se sempre um pouco à margem, das editoras e dos meios de comunicação. Aliás, Xangai gravava para a editora independente Kuarup e produz e apresenta o programa “Brasileirança” na Rádio Educadora da Bahia e na TVE-Bahia, onde leva nomes da música popular que não passam nos grandes meios de comunicação, partilhando sons e possibilitando também o conhecimento de outros músicos, num sentido quase educativo-musical.
Agora está em Lisboa para um único concerto, no Grande Auditório da Culturgest, acompanhado por Fabrício Rios, no bandolim e violão. Ele vem para se dar a conhecer ao público português, talvez nem para encantar, mas para partilhar a sua cultura musical, os seus sons nordestinos e as suas composições e histórias da Bahia. As suas cantigas retratam muito da sua aldeia. “Minhas cantigas (…) retratam a minha aldeia, aquilo com que me identifico, porque gosto de falar a respeito do ambiente que tenho conhecimento, das situações do ser humano à minha volta”. É este ambiente que se criará nesta sala de espectáculos.

ANA MARIA DUARTE
Artigo publicado Jornal Semanário (05-06-2009)

1 comentário:

Silvana Pereira disse...

http://xangaicantador.blogspot.com.br/